TUCA PUC 1977
EU QUASE QUE NADA SEI. MAS DESCONFIO DE MUITA COISA. GUIMARÃES ROSA.
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domingo, 28 de novembro de 2010

Vou ler, vou ler...

do Rui Bebiano, Portugal, escreve no BLOG A terceira noite. AQUI
SUSSURROS
Ainda vou só a meio das 690 páginas de texto – com mais 50 de notas – mas já estou em condições de dizer que Sussurros. A Vida Privada na Rússia de Estaline, do historiador britânico Orlando Figes, é um dos meus grandes livros de 2010. Acabado de publicar pela Alhêteia e resultado de um projecto de investigação em larga escala maioritariamente apoiado no testemunho oral de sobreviventes e dos seus descendentes, não se trata de «mais um» livro sobre Estaline e o regime soviético. Analisa principalmente, com grande detalhe, «a maneira como o estalinismo se instalou na mente e nas emoções das pessoas, afectando-lhes os valores e as relações». Fala mais de integração, de aceitação, do que de luta, perseguição e resistência. E é também um excelente manual para se perceber a forma como o ascetismo «romântico» e o colectivismo bolcheviques, construídos durante os anos da luta contra o czarismo e da guerra civil que se seguiu a 1917, se transformaram em rígida norma de vida aplicada ao conjunto da sociedade. Funcionando também como um paradigma que ecoou, ao longo do século XX e à escala planetária, na gestão de outras experiências e na organização interna de praticamente todos os partidos e movimentos de matriz marxista-leninista. Não se trata de um estudo de natureza analítica, mas sim de um repositório de experiências pessoais que se lê com a mesma voracidade, a mesma tensão e o mesmo prazer com os quais habitualmente acompanhamos um grande épico.

sábado, 13 de outubro de 2007

Stalin


Jovem Stálin foi meio bandido, meio intelectual
Simon Sebag Montefiore, historiador britânico, foi até a Geórgia, onde descobriu documentos inéditos sobre a juventude do ditador socialista (sic), publicada no Reino Unido. Por Sylvia Colombo, Folha de São Paulo
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Leia abaixo trechos da entrevista que o historiador britânico Simon Sebag Montefiore concedeu à Folha, por e-mail, na qual ele conta como encontrou as evidências do "gangsterismo político" de Stálin. (SYLVIA COLOMBO)

FOLHA - Você joga luz no Stálin bom aluno, com habilidades de cantor e aplicado na formação intelectual. Costuma ouvir acusações de humanizá-lo?
SIMON SEBAG MONTEFIORE - Não. Sempre quero apresentar o Stálin real. Se eu o mostrasse como um monstro gótico, mas sem talento, não aprenderíamos nada e não seria verdadeiro. Stálin e Hitler foram os maiores assassinos de massas da história. Mas ele também era um político de qualidades, gostemos disso ou não. E o jovem Stálin foi, sim, um assaltante de bancos, um matador, um pirata e um terrorista, mas também um poeta, um garoto de coral na escola e depois aprendiz de padre. Era metade bandido, metade intelectual.
FOLHA - Assim como em "Stálin - A Corte do Czar Vermelho", você usou documentação nova. Por que ela estava ainda intocada? Os historiadores russos temem confrontar-se com seu passado?
MONTEFIORE - Eu não sabia que ia encontrá-la. Esses documentos só recentemente foram abertos, eu simplesmente os encontrei quando comecei a pesquisa. Não acho que os historiadores russos fujam. Eles se concentram mais em Moscou e não deram bola para o que havia na Geórgia. É um lugar esquecido. E os arquivos trazem coisas impressionantes. Há memórias dos próprios gângsteres, por exemplo. Assim como os diários da mãe de Stálin. É muito excitante e dramático. Eu não parava de dizer para mim mesmo: "Que vida! Aventura, sexo e drama!"
FOLHA - Ao longo do livro, tem-se a impressão de que as palavras gangue e bandidagem são tão importantes quanto revolução. Você esperava isso?
MONTEFIORE - Não. Depois de escrever "A Corte do Czar Vermelho", eu sabia que encontraria muita violência na sua juventude. Mas o gangsterismo político, a rede de crimes foram novidades excitantes.
FOLHA - Você diz que os documentos mostram que as personalidades de uma pequena oligarquia eram a essência da política russa sob Lênin e Stálin, assim como haviam sido sob os czares e, agora, sob os políticos do século 21. Acha que [Vladimir] Putin [presidente da Rússia] segue uma tradição de liderança?
MONTEFIORE - Não acho que Putin siga uma tradição de Lênin ou de Stálin, mas evidentemente ele está tentando fazer com que a Rússia seja mais forte. Stálin hoje está sendo reabilitado não como um líder comunista, mas como um czar e como um líder de guerra.
FOLHA - A descrição do assalto ao banco de Tbilisi, em 1907, que abre o livro, lembra o suspense que você usou no primeiro capítulo de "A Corte". Como historiador, quanto valoriza a narrativa?
MONTEFIORE - Escrevo meus livros seguindo a lógica da minha pesquisa, mas me esforço em fazer com que sejam legíveis e divertidos, mesmo para aqueles que nunca lêem livros de história. É possível ler "Young Stálin" (jovem Stálin) como uma história de aventura, na tradição de Alexandre Dumas ("Os Três Mosqueteiros"). Mas também é uma biografia íntima, uma pré-história da União Soviética e uma explicação do que é a Rússia hoje.
FOLHA - Você se sentiu especialmente tocado pela sua poesia?
MONTEFIORE - A poesia de Stálin é diferente, e os leitores vão ficar surpresos com sua delicadeza [leia ao lado].
FOLHA - Lênin considerava Stálin seu "expert no submundo". Se Stálin não tivesse existido, Lênin teria escolhido alguém como ele para fazer o trabalho sujo?
MONTEFIORE - Exatamente. Lênin escolheu Stálin, promoveu-o. Assim como a Trótski, porque eram os mais talentosos e os mais cruéis.
FOLHA - Quando descreve a viagem de Stálin para Londres, você diz que "naquela época, como hoje, a cidade era um refúgio notório para extremistas assassinos". Você acha o governo britânico pouco eficiente com relação ao terrorismo?
MONTEFIORE - O governo é brando com os extremistas islâmicos neste país. Tem medo de ofender a comunidade no geral.
FOLHA - Como a história de Stálin pode nos ajudar a entender o terrorismo dos dias de hoje? MONTEFIORE - Stálin é uma espécie de mistura de Tony Soprano [personagem do seriado "Os Sopranos"], com Osama Bin Laden. Operou como um terrorista da Al Qaeda, ao mesmo tempo que liderou uma quadrilha de gângsteres. Então penso que, sim, esta é uma anatomia de como um terrorista dos dias de hoje vive e trabalha.
STÁLIN, O POETA
Quando a lua cheia luminosa
Cruza flutuando a abóbada celeste
E sua luz, brilhando intensamente,
Põe-se a brincar no anil do horizonte;
Quando suavemente o rouxinol
Começa no ar seu gorjeio sibilante
Quando o anseio da flauta de pã
Plana acima do pico da montanha;
Quando, contida, a fonte da montanha
Torna-se torrencial e inunda o caminho,
E a floresta, acordada pela brisa,
Começa, farfalhando, a se agitar;
Quando o homem expulso por seu inimigo
Volta a tornar-se digno de seu país oprimido
E o enfermo privado de luz
Volta a ver o sol e a lua;
Oprimido também, vejo, então, a bruma da tristeza
Se dissipar, desfazer-se e logo sumir;
E a esperança da vida boa
Faz meu coração se abrir!
E, arrebatado por uma esperança assim,
Sinto júbilo n'alma e meu coração bater em paz;
Mas será autêntica tal esperança Que me foi mandada nestes tempos?

Poema sem título de Stálin (como Soselo), escrito antes de 1912, extraído do livro "Young Stálin". Tradução de Nelson Ascher

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