TUCA PUC 1977
EU QUASE QUE NADA SEI. MAS DESCONFIO DE MUITA COISA. GUIMARÃES ROSA.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Mais matanças


Do Akino Blog do Angelo Rigon na Má-ringa


Candidato quer dar mais poderes à família


Ouvi na propaganda eleitoral do candidato Ricardo Barros que se eleito proporá alterações no Estatuto da criança e do Adolescente, o ECA, para dar mais poderes à família e aos professores. Não disse, mas talvez pense em baixar a maioridade penal para 16 anos, por exemplo.
Minha opinião:
Pensei, pensei, pensei, e não encontrei outra expressão – “é brincadeira”. Será que o candidato pensa que os poderes da família para educação dos filhos dependem de leis diretas e intervenção do Senado? Não seria melhor lutar contra a corrupção e desvios de dinheiro público de modo a permitir que a vida das famílias mais carentes melhore efetivamente? Lutar pelo combate ao crime organizado e tráfico de drogas, usando bem o dinheiro? Baixar o custo do Congresso, acabando com verbas de gabinete que são fraudadas com notas fiscais frias de pesquisas inexistentes ou desnecessárias?

Akino Maringá, colaborador

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AKINO:

Também ouvi. Ri muito. Mas, depois fiquei com medo. Medo de que venha uma ceifeira a cortar as cabeças de jovens pobres, negros e excluidos. Por que essa preocupação do deputado com o Estatuto da Criança e do Adolescente? O deputado espera arranjar votos na camada média das cidades. Essa classe vota no discurso contra o ECA. Confunde violência com jovens pobres. Por que não se discute corrupção? A cada recurso lavado pelos corruptos, uma escola a menos, um hospital detonado... Discutir corrupção é discutir o óbvio. Vamos discutir medidas fáceis de tomar: 16 anos para os pobres, para os negros e quem vier a desatar as coisas óbvias desse país.
À frase do deputado "dar mais poderes à família", pergunto: de qual família está falando o deputado? Da família mais pobres em que não há pai e mamãe juntos e muitos filhos desempregados? Da família em que as mulheres dão duro, duríssimo para sustentar sua prole? Das famiglias abastadas? Não há UMA família. Há famílias. Não confunda, deputado família de classe média com famílias. Que falta faz a cultura letrada.

A última matança institucional: a das universidades!


A desuniversidade ( texto de Boaventura Sousa Santos) cap-tirado do Pimenta Negra

O processo de Bolonha — a unificação dos sistemas universitários europeus com vista a criar uma área europeia de educação superior — tem sido visto como a grande oportunidade para realizar a reforma da universidade europeia. Penso, no entanto, que os universitários europeus terão de enfrentar a seguinte questão: o processo de Bolonha é uma reforma ou uma contra-reforma?

A reforma é a transformação da universidade que a prepare para responder criativamente aos desafios do século XXI, em cuja definição ela activamente participa. A contra-reforma é a imposição à universidade de desafios que legitimam a sua total descaracterização, sob o pretexto da reforma. A questão não tem, por agora, resposta, pois está tudo em aberto. Há, no entanto, sinais perturbadores de que as forças da contra-reforma podem vir a prevalecer. Se tal acontecer, o cenário distópico terá os seguintes contornos.

Agora que a crise financeira permitiu ver os perigos de criar uma moeda única sem unificar as políticas públicas, a política fiscal e os orçamentos do Estado, pode suceder que, a prazo, o processo de Bolonha se transforme no euro das universidades europeias. As consequências previsíveis serão estas: abandonam-se os princípios do internacionalismo universitário solidário e do respeito pela diversidade cultural e institucional em nome da eficiência do mercado universitário europeu e da competitividade; as universidades mais débeis (concentradas nos países mais débeis) são lançadas pelas agências de rating universitário no caixote do lixo do ranking, tão supostamente rigoroso quanto realmente arbitrário e subjectivo, e sofrerão as consequências do desinvestimento público acelerado; muitas universidades encerrarão e, tal como já está a acontecer a outros níveis de ensino, os estudantes e seus pais vaguearão pelos países em busca da melhor ratio qualidade/preço, tal como já fazem nos centros comerciais em que as universidades entretanto se terão transformado.

O impacto interno será avassalador: a relação investigação/docência, tão proclamada por Bolonha, será o paraíso para as universidades no topo do ranking (uma pequeníssima minoria) e o inferno para a esmagadora maioria das universidades e universitários. Os critérios de mercantilização reduzirão o valor das diferentes áreas de conhecimento ao seu preço de mercado e o latim, a poesia ou a filosofia só serão mantidos se algum macdonald informático vir neles utilidade.

Os gestores universitários serão os primeiros a interiorizar a orgia classificatória, objectivomaníaca e indicemaníaca; tornar-se-ão exímios em criar receitas próprias por expropriação das famílias ou pilhagem do descanso e da vida pessoal dos docentes, exercendo toda a sua criatividade na destruição da criatividade e da diversidade universitárias, normalizando tudo o que é normalizável e destruindo tudo o que o não é.

Os professores serão proletarizados por aquilo de que supostamente são donos — o ensino, a avaliação e a investigação — zombies de formulários, objectivos, avaliações impecáveis no rigor formal e necessariamente fraudulentas na substância, workpackages, deliverables, milestones, negócios de citação recíproca para melhorar os índices, comparações entre o publicas-onde-não-me-interessa-o-quê, carreiras imaginadas como exaltantes e sempre paradas nos andares de baixo.

Os estudantes serão donos da sua aprendizagem e do seu endividamento para o resto da vida, em permanente deslize da cultura estudantil para cultura do consumo estudantil, autónomos nas escolhas de que não conhecem a lógica nem os limites, personalizadamente orientados para as saídas do desemprego profissional. O serviço da educação terciária estará finalmente liberalizado e conforme às regras da Organização Mundial do Comércio.

Nada disto tem de acontecer, mas para que não aconteça é necessário que os universitários e as forças políticas para quem esta nova normalidade é uma monstruosidade definam o que tem de ser feito e se organizem eficazmente para que seja feito. Será o tema da próxima crónica.


Fonte:
www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4759

Ils sont tout indesejables!

Da Joana Lopes, Portugal
Ninguém os quer

Não cessam as reacções contra a França pelo «envio» de ciganos romenos e búlgaros, que está agora a ser concretizada. Também a Itália é notícia, mas convém lembrar que a Alemanha os envia para o Kosovo, que Copenhaga quer expulsar 400 e que na Bélgica (maravilha das maravilhas…) houve 700 que foram expedidos da Flandres para a Valónia…


Parece assim absolutamente evidente que o problema se põe a nível de todo o continente europeu, sem se que se saiba exactamente do que se está a falar em termos quantitativos: o Conselho da Europa fala de 12 milhões de pessoas que, nalguns países, representam 5% da população. Um verdadeiro debate paneuropeu impõe-se (… ontem!), e não está a acontecer, para procura de soluções, partilha de recursos e conhecimento de experiências bem sucedidas.


Leio que a Espanha é precisamente uma excepção, pela positiva:
«España sigue representando una excepción privilegiada. Por lo menos hasta ahora, ningún brote de racismo institucional se ha producido contra los romaníes, mientras los gitanos españoles están integrados, aunque han pagado un precio: "La mayoría de los líderes gitanos de todo el mundo tienen su mirada puesta en nosotros, que hemos pagado el precio más alto que pueda pagar un pueblo en aras de la integración: el deterioro de nuestra lengua, patrimonio común de catorce millones de gitanos en todo el mundo que pueden entenderse sin la más mínima dificultad". Pero esto no significa que la integración pase por la homologación o una forma de etnocidio cultural: "Podría exponer más de una doctrina de sociología y de antropología cultural que sostienen que la convivencia es posible sin perder tus propias señas de identidad. Pero déjeme decir una cosa: el modelo se llama Andalucía. Hablo desde un punto de vista cultural, no de reparto o de justicia social. Ese podría ser el modelo de convivencia para todos los gitanos del mundo. Una comunidad en la que no se sabe si los andaluces están agitanados o los gitanos andaluzados".»

Se assim é, aprofunde-se o caso, estude-se a história do que foi feito.

Ou continuaremos a assistir a um fenómeno escandaloso, ignorando, talvez, que estes seres humanos nem sequer são bem recebidos nos «seus» países:
«En termes d'hypocrisie, la Bulgarie n'a rien à envier à la France. La nouvelle de l'expulsion de Roms de France a été accueillie avec une étonnante bienveillance de la part des autorités de Sofia.»


Uma vergonha – para todos nós.

Somos todas iranianas....


Foto: do Blogue da Joana Lopes, entre as brumas da memória, Portugal. Aqui
(Foto: Rasht, no Irão, juntou-se ao Protesto das 100 cidades por Sakineh, no dia 28 de Agosto)

No século XXI, no Irã, 388 pessoas executadas. 2.100 no corredor da morte. Menores de 18 anos ficam presos. Aos 18 anos são executados rapidamente. Esses são os dados da Anistia Internacional divulgados pela Joana Lopes.
Disse para minha amiga Pat, militante gay, que há, sim, dois gêneros: macho e fêmea. A Pat pensa que a discussão de gênero é ultrapassada. Há corpos/pessoas. Há ciberpessoas: mutantes, gays, mulheres, bissexuais, travestis ... Como mulher falo: há o feminino e os machistas. Até mesmo em uma universidade como a que eu trabalho, vejo, sinto, vivo o machismo. Nossa sorte: não estamos no Irã senão seríamos uma minoria dizendo Amém para os chefes. Mulheres ainda são indesejáveis. São desejáveis via assédio sexual. É uma pena que haja esse viés e mulheres com língua comprida a proteger machos.

domingo, 29 de agosto de 2010

...



A velocidade mata depressa: o papel do urbanismo na prevenção rodoviária
DO BLOG A BARRIGA DO ARQUITETO, PORTUGAL Aqui


Não acontece só aos outros

Há cerca de uma semana participei numa acção de formação promovida pela Prevenção Rodoviária Portuguesa sobre «Intervenção na infra-estrutura para redução da velocidade». Trata-se de uma iniciativa que pretende sensibilizar os diversos profissionais da área do urbanismo para as questões da engenharia de segurança rodoviária, em particular pelos riscos que a velocidade de tráfego coloca para todos aqueles que circulam no ambiente urbano. A vida, é certo, não é isenta de estranhas ironias. No dia seguinte à formação, numa viagem a Lisboa em dia de chuva, eu e a minha mulher vimo-nos perante um despiste do nosso automóvel de que resultou o embate violento contra os separadores da via. O carro, que ficou em muito mau estado, e as dores que nos vão acompanhar durante longas semanas, fazem prova do momento dramático que vivemos. Passado o aparato e o susto, procurando regressar à normalidade, tentámos brincar com a situação dizendo que durante a semana tinha tido aulas teóricas e no fim-de-semana a aula prática. Mas a verdade é que as imagens daqueles segundos terríveis, quando se pensa que o pior pode estar prestes a acontecer, ficarão gravadas nas nossas mentes durante muito tempo.

A velocidade mata depressa

Todos sabemos que a velocidade tem uma relação directa com os riscos da sinistralidade rodoviária. No entanto somos levados a confiar no sentimento de segurança transmitido pela tecnologia automóvel. Com os seus mecanismos de insonorização e estabilização das irregularidades da estrada, os carros fazem-nos esquecer que as leis da física se mantêm independentemente da tecnologia que nos leva a bordo. É certo que a engenharia automóvel salva vidas, com a sua capacidade de amortecimento de impacto em situações de acidente. Mas esquecemos facilmente que as capacidades humanas são as mesmas que sempre foram, com as suas falhas, resistências, limites e tempos de reacção.
As estatísticas da sinistralidade demonstram-nos com frieza o que está em causa. O risco de morte de um ocupante de um veículo ligeiro em caso de colisão frontal a 90 km/h é de cerca de 50%. Acima de 120 km/h, a probabilidade de morte abeira-se da totalidade. Mais do que isso, devemos ter sempre em presença que as estatísticas não são sobre números e que cada número conta uma história sobre vidas humanas, daqueles que morrem, dos que ficam gravemente feridos, dos seus familiares e amigos.


Uma das estatísticas mais surpreendentes para compreendermos os perigos da velocidade, em particular no espaço urbano, prende-se com o risco de morte em situações de atropelamento. Para os carros potentes dos nossos dias, uma variação de 20 quilómetros horários pode significar um ligeiro pressionar de acelerador, uma breve desatenção. E, no entanto, o risco de fatalidade aumenta de 5% para 45% entre as velocidades de 30 e 50 km/h. A 70 km/h esse risco é de 90%, ou seja, quase total.

Uma sociedade motorizada

Os acidentes de trânsito são a maior causa de morte violenta. Traduzindo: morrem mais pessoas nas estradas do que nas guerras que se travam no mundo. Os prejuízos para a sociedade multiplicam-se a muitos níveis: prejuízos humanos impossíveis de quantificar em vítimas mortais e feridos graves, nos custos de saúde, nas consequências emocionais e sociais, nas perdas de produtividade.
A sociedade portuguesa apresenta uma taxa de motorização muito superior à dos países do Norte da Europa. Vários factores contribuem para esta realidade: motivos de natureza social mas também o sentimento de ausência de alternativas que resulta de um mau planeamento das cidades, cujo crescimento foi alheio à organização de redes eficazes e próximas de transporte público acessível. Ainda assim, o bom trabalho efectuado na última década pelos vários intervenientes da prevenção rodoviária, no traçado das estradas, na vigilância e na sensibilização dos condutores, tem tido como resultado uma redução significativa dos casos de mortalidade nas estradas portuguesas. Mas o nosso país continua a apresentar uma taxa de mortalidade por atropelamento superior à média europeia, facto ainda mais dramático se considerarmos que estes mortos representam 46% do total da sinistralidade rodoviária, e que dentro destes a grande maioria são idosos e crianças (71%).

O papel do urbanismo

Para fazer frente a este problema começam hoje a ser ponderadas estratégias de acalmia de tráfego rodoviário, integrando o conceito de estrada «auto-explicativa» ao meio urbano. Trata-se de uma forma de induzir o bom comportamento através de uma correcta manipulação da percepção do condutor, introduzindo alterações ao ambiente da rua recorrendo a condicionalismos físicos, sinalização, equipamentos e outros elementos caracterizadores da rodovia.
É um trabalho que se estende ao domínio do desenho urbano chamando a si todos aqueles que intervém no planeamento das cidades: não apenas os profissionais da engenharia rodoviária mas também os urbanistas, arquitectos e paisagistas. Acima de tudo, importa compreender que estão em causa requisitos funcionais e normativos que são muitas vezes alheios à nossa formação de base mas cujo conhecimento e interiorização pode salvar vidas. É um tema muito extenso e a que voltarei aqui no blogue, mas de que deixo desde já a referência a duas publicações importantes publicadas pela Prevenção Rodoviária Portuguesa: o manual «Engenharia de Segurança Rodoviária em Áreas Urbanas: Recomendações e Boas Práticas» da autoria do Eng. João Sousa Marques, e ainda o livro «Recomendações para Definição e Sinalização de Limites de Velocidade Máxima» do Eng. João Cardoso.

Informação, conhecimento, sabedoria

O meu caso pessoal fez-me reflectir sobre a diferença entre informação, conhecimento e sabedoria. Tive a oportunidade de recolher muita informação sobre o tema da prevenção rodoviária, sobre os perigos da velocidade e as estatísticas da sinistralidade. Tinha bem presentes as palavras do Eng. João Cardoso, quando nos disse que em alturas de chuva os condutores reduzem a velocidade em valor inferior ao do risco acrescido pela perda de atrito do pavimento. Mas foi a experiência de um acidente que me fez traduzir essa informação em conhecimento, ao sentir a forma como esses números abstractos podem ter um impacto real nas nossas vidas.
Falta, no entanto, um passo ainda. É necessário desenvolver uma consciência mais profunda do que tudo isto significa para transformar o conhecimento em sabedoria, naquilo que nos faz alterar atitudes e mudar comportamentos. Pois é a sabedoria que salva vidas; mas a sabedoria não se ensina. E por isto é importante que todos demos um contributo, partilhando o conhecimento dos perigos para lá da abstracção dos números. E possa assim, cada um de nós, interiorizar esse conhecimento e, quem sabe, tomar pequenas decisões que podem, um dia, mudar o nosso destino.

Belo!


Dos Gêmeos, em NYC
Ver aqui
Olha aí, Santiago se em vez de bichinhos de cimento tivéssemos arte ...na Má-ringa

Contra a matança de mulheres e homossexuais...


Sobre a manifestação contra a matança de Sakineh em LISBOA

do BLOG JUGULAR, Lisboa, de Fernanda Câncio

onde estavas tu às 18 horas de 28 de agosto de 2010? (3)
f.
nas minhas contas, éramos entre 250 e 300, ontem, no camões. muito menos do que deveríamos ser, decerto -- mas há um ano, como a joão/shyz bem diz ao público, numa concentração convocada por iranianos a residir em portugal na sequência da revolta de rua contra o resultado das eleições para a presidência (alegadamente 'marteladas'), éramos bem menos.



como tinha anunciado aqui, estive muito atenta aos silêncios e às ausências. reparei que, à excepção de januário torgal ferreira, nenhum alto representante da igreja católica portuguesa, que tanto latim gasta com a 'defesa da vida', abriu a boca para comentar o destino de sakineh, quanto mais estar presente no camões. reparei que nenhuma das figuras de organizações tão vocais contra o que consideram 'o morticínio de inocentes' e que se reúne sob o chapéu 'federação de defesa da vida' esteve no camões, como reparei na ausência das primeiras figuras de organizações de defesa dos direitos das mulheres como a umar (que divulgou o evento, por sinal).



já tinha aqui assinalado o silêncio de gente habitualmente obcecada com o combate ao que consideram ser -- muitas vezes bem, diga-se -- o fundamentalismo islâmico. não havia lá um 'blasfemo' para amostra. também não vislumbrei um único elemento identificável da comunidade islâmica de lisboa nem, já agora, da representação portuguesa dos inimigos ajuramentados do irão (os judeus, pois então -- para disfarçar, dirão alguns pobres idiotas).



dos partidos, havia gente. o daniel oliveira e o rui tavares (deputado europeu independente pelo be). edite estrela e ana gomes, eurodeputadas socialistas; ana catarina mendes e inês de medeiros, deputadas do grupo parlamentar do ps. do governo, elza pais, secretária de estado para a igualdade, que foi ostensivamente ignorada por todos os jornalistas presentes (aposto que por não fazerem ideia de quem se trata).



vi ainda a presidente da comissão da igualdade e o director geral da saúde -- ambos discretos, apesar de francisco george ter sido 'lobrigado' pelo dn, e a sub-directora da rtp-2 paula moura pinheiro. e não vi, mas esteve lá, o dirigente sindical antónio avelãs.



ninguém do pp e do psd, que se tenha reparado -- se estavam lá, desculpem, não os vi. e do pcp também moita -- embora uma das organizadoras da manif, a juju inês meneses, seja militante. a ausência de membros notórios do pp é talvez compreensível -- afinal, estavam decerto agrupados para a rentrée pauloportista dos referendos sobre a justiça (e referendar o apedrejamento sumário dos detidos em flagrante delito? -- uma ideia também tão gira) -- mesmo se me recordo bem que em 2005, aquando da crise das caricaturas, o pp se mandou como gato a bofe a freitas do amaral, então ministro dos negócios estrangeiros, por ter feito um comunicado (absolutamente inadmissível e patético, por sinal) a 'contextualizar' a reacção dos que em nome de deus andaram a matar como reacção a desenhos. como será compreensível a de gente grada do pc, toda decerto a construir a festa do avante. o psd, bom, deve estar de borracha e corrector à volta da proposta de revisão constitucional, sem cabeça para mais.



nem um candidato presidencial para amostra; nem um alto representante de uma amnistia internacional.



é verão e estava muito calor, bem sei.



noutros países, noutras cidades, as concentrações como a que ocorreu em lisboa -- 111 no mundo todo -- contaram com organizações, de associações de mulheres a partidos comunistas, a coordenar e a convocar. aqui, meia dúzia de facebookianos fizeram a festa. o que explica os megafones de má qualidade, os materiais fotocopiados em casa, as convocatórias por sms para listas telefónicas individuais. mas, apesar disso, éramos tantos ou mais que em paris, por exemplo -- a paris na qual um presidente de direita já apelou à ue para que tome uma posição conjunta por sakineh e por todos os que nas prisões iranianas aguardam sentenças de morte tão bárbaras e obscenamente surreais como a que impende sobre ela (seja lapidação ou enforcamento).



não podemos parar aqui, no entanto. outra acção se prepara em várias cidades do mundo, agora para 2 e 3 de setembro, agora por shiva nazar ahari, com julgamento marcado para 4 de setembro por conspiração e 'incitar à guerra contra deus' (que, adivinharam, é punida com a morte). isto nunca acaba, até acabar.

escolas ....


Da Cremilda Teixeira:


Acho que vou carregar uma lanterna imaginária na mão. Um filósofo da antiguidade carregava uma lantena na mão em busca de um homem honesto.
Eu estou de olho no programa eleitoral procurando candidatos que realmente queiram fazer algo pela escola pública e pela educação no Estado de São Paulo e pelo Brasil.
Vem com as mesmas promessas de sempre.
Muitos com a cereja em cima do bolo podre.
As verbas que a escola pública são milionárias e as escolas miseráveis. Verba não chega no aluno que é lembrado apenas como desculpa para as verbas gordas.
O remédio todos sabemos que é a fiscalização.
Não fiscalizando o serviço e pagando o funcionário fazendo ou não fazendo o serviço, aquele que faz passa por trouxa e acaba não fazendo por conta da pressão de quem não faz.
Não ví ainda uma proposta para os pais.Falam de aluno,que é por conta dele que a verba sai.
Falam de salário de professor, e aumentando o salário do professor para qualquer quantia sem fiscalizar não resolve o problema da escola pública. O salário pode ser milionário: nos primeiros meses o professor vai se sentir contemplado, mas seu padrão de vida vai aumentando. O carro que era um popular passa a ser o mais caro, ele muda de casa e de habito e no final de poucos meses o salário altissimo fica baixo e ele vai começar a berrar atrás demais...A ganância do ser humano é insaciável e professor É UM SER HUMANO.
Projetos sem a participação dos pais para fiscalizar não dão em nada.
Os Conselhos de Escola são órgãos expúrios, onde os pais são sempre os mesmos e escolhidos pela direção da escola. Muitas vêzes Conselho de Escola se comportam como uma quadrilha : SE REUNEM PARA VIOLAR A LEI. Elaboram Regimentos Internos criminosos que violam a lei frontalmente e são homologados pelas Diretorias de Ensino
Os pais não tem onde reclamar.
Não estou vendo um candidato propor uma Ouvidoria onde os pais possam levar suas denúncias.
Nos espaços da Escola Pública não tem lugar para os pais.
Os pais são os maiores interessados que a escola pública seja uma escola da melhor qualidade.
Os pais pagam os impostos e usam o serviço e são deixados de lado.
Como um pai consciente vai fazer parte de um Conselho de Escola ou de uma APM se não tem onde encaminhar a denúncia caso encontre irregularidades. Ninguem garante que o seu filho não seja ferozmente perseguido dentro da escola.
Somos também os maiores interessados que nossos filhos se tornem um homem de bem. Serão nossos filhos para toda a vida. Mesmo os mais dificeis. Não temos ex-filhos.
A professora tem ex aluno e a escola expulsa os mais dificeis, os lideres e os rebeldes.
Enquanto não houver uma Ouvidoria desatrelada da Secretaria da Educação e da corporação a escola vai continuar corrupta e a impunidade ditando as suas regras imorais dentro da escola.
Os pais são os legitimos donos da escola.
Fiscalizar, demitir os maus e premiar os professores excepcionalmente bons, é o que precisamos.
Precisamos ser ouvidos, as Ouvidorias que a Secretaria de Educação de São Paulo mantem, são surdas.
Vou continuar com a lanterna feito Diógenes o filósofo debochado, a procura de um candidado que esteja preocupado em garantir de fato a participação dos pais na Escola Pública, a escola que ele paga a vida inteira e onde seu filho usa uns poucos anos e é tratado como o problema da escola.

sábado, 28 de agosto de 2010

Aula de Retórica ...


Ontem a tarde, minha aula de retórica no pós. Um bom manual: Introdução à retórica, de Olivier Reboul. Novidade para os alunos. Fico feliz em levar um curso novidadeiro. Logo de início uma afirmação do colega Zé Henrique. A retórica só é estudada em países democráticos. Mais adiante no meio da aula, uma pergunta do Edson: podemos pensar em propaganda como retórica? Não. Propaganda é manipulação. Mais uma vez o Zé fez uma bela intervenção. Falou da propaganda do carro vermelho (sei lá a marca). Na propaganda a mulher dá de presente um carro vermelho, novo, reluzente ao marido. Balança a chave para o marido dizendo: "agora você vai levar as crianças à escola". Os vizinhos saem para ver a cena tão "bela". A mulher do vizinho tenta falar com seu marido, mas ele não quer conversa. Entra para dentro de sua casa. Deprimido, vai roer uma inveja do carro, da felicidade do vizinho.

MORAL DA HISTÓRIA: idiotas se deprimem quando não compram carro novo como o do vizinho. Ou ainda, idiotas amam carro vermelho novo reluzente...


Cada vez menos suporto propaganda de carros. Os homens são infantilizados. Só pensam naquilo. No carro. Não têm mais nada em que pensar a não ser o "brinquedinho". Não falam, correm atrás do carro novo. Não pensam. Repetem as bobagens dos fabricantes de carros. Não têm falo. Têm carro.

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Foto de Marie-Françoise Plissart
Escola no Kinshasa, capital do CONGO
Cap-tirado do Blog ACTO FALHADO, Portugal

Uia


Cap-tirado do Solda, do Paixão

Na Má-ringa


Cadeiras para o Chico Neto, mais um capítulo

Lembram que estranhamos uma compra efetuada pela Secretária de Esportes, sem licitação, de 4.586 cadeiras por R$ 435.670,00, em 23/03/2010 ? Pois agora foi aberta uma licitação para a compra de 4.548 acentos para ginásio, injetado em polipropileno. O preço que era de R$ 95,00 caiu para R$ 65,00, redução de 31,58%.
Dúvidas: Será outra compra ou é a mesma? Se for a mesma, teriam as nossas postagens motivado a decisão de abrir licitação e fixar um preço máximo reduzido? Se for verdadeira a segunda hipótese teremos economizado R$ 140.050,00, graças ao espaço que o Rigon nos concede e será mais um vitória do blog. Gostaríamos que os senhores Vereadores, no papel de fiscalizadores, apurassem.

Akino Maringá, colaborador do Blog do RIGON, Maringá

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Fonte: Gustavo Hennemann in Folha de São Paulo, 24 de agosto de 2010.
De Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba. Veja aqui

A perfuratriz se chama Strada. Haverá nome mais lindo para uma máquina? Lá vai essa água mole, 15 metros por dia, fazer furo, perfurar, abrir buraco, fender a pedra, dividi-la, introduzir uma passagem, um caminho, fazer estrada onde não há. Pois esse é exatamente o trabalho dos psicólogos ali presentes, abrir a boca desses homens, fazê-los falar, conversar entre si, jogar a força do grupo contra o desamparo, o isolamento, a solidão abissal que ali se instalou. São psicólogos perfuradores, abridores de estradas, psicanalistas, behavioristas, terapeutas disso, terapeutas daquilo, que, ao avesso da bobagem de esquecer as diferenças, pelo contrário, é exatamente com elas que farão o melhor, gente brava, gente honrada, gente digna, que ali escavam também, que ali tentam dar a mão, dar uma escuta, dar uma rotina, oferecer uma vida ainda que inviável, ainda que desesperadora, ainda que improvável – a vida que há. A todos esses psicólogos, a minha homenagem.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O amor para Bakunin



Do Blog PIMENTA NEGRA Portugal

Carta de Bakunine ao irmão Paulo ( 29 de Março de 1845)

Continuo a ser eu próprio, como antes, inimigo declarado da realidade existente, só que com uma diferença: eu parei de ser um teórico, eu venci, enfim, em mim, a metafísica e a filosofia, e entreguei-se inteiramente, com toda a minha alma, ao mundo prático, ao mundo dos factos reais.

Acredite em mim, amigo, a vida é bela; agora tenho pleno direito de dizer isto porque parei há muito tempo de olhá-la através das construções teóricas e de conhecê-la somente em fantasia, pois experimentei efectivamente muitas das suas amarguras, sofri muito e entreguei-me frequentemente ao desespero.

Eu amo, Paulo, amo apaixonadamente: não sei se posso ser amado como gostaria que fosse, porém não me desespero; sei, pelo menos, que tem muito simpatia por mim; devo e quero merecer o amor daquela a quem amo, amando-a religiosamente, ou seja, activamente; ela está submetida à mais terrível e à mais infame escravidão e devo libertá-la combatendo os seus opressores e incendiando no seu coração o sentimento da sua própria dignidade, suscitando nela o amor e a necessidade da liberdade, os instintos da rebeldia e da independência, fazendo-lhe recordar a sensação da sua força e dos seus direitos.

Amar é querer a liberdade, a completa independência do outro; o primeiro acto do verdadeiro amor é a emancipação completa do objeto que se ama; não se pode amar verdadeiramente a não ser alguém perfeitamente livre, independente, não só de todos os demais, mas também e, sobretudo, daquele de quem é amado e a quem ama.

Esta é a profissão da minha fé política, social e religiosa, aqui está o sentido íntimo, não só dos meus actos e das minhas tendências políticas, mas também, tanto quanto me é possível, da minha existência particular e individual; porque o tempo em que poderiam ser separados estes dois géneros de acção está muito longe da gente; agora o homem quer a liberdade em todas as acepções e em todas as aplicações desta palavra, ou então não a quer de modo algum; querer a dependência daquele a quem se ama é amar uma coisa e não um ser humano, porque o que distingue o ser humano das coisas é a liberdade; e se o amor implicar também a dependência, é o mais perigoso e infame do mundo porque é então uma fonte inesgotável de escravidão e de embrutecimento para toda a humanidade.

Tudo que emancipa os homens, tudo que, ao fazê-los voltar a si mesmos, suscita neles o princípio da sua vida própria, da sua actividade original e realmente independente, tudo o que lhes dá força para serem eles mesmos, é verdade; tudo o resto é falso, liberticida, absurdo. Emancipar o homem, esta é a única influência legítima e bem-feitora.

Abaixo todos os dogmas religiosos e filosóficos – que não são mais que mentiras; a verdade não é uma teoria, mas sim um facto; a vida é a comunidade de homens livres e independentes, é a santa unidade do amor que brota das profundidades misteriosas e infinitas da liberdade individual.


NOTA BIOGRÁFICA

Mikhail Bakunin (1814-1876), de origem aristocrática, que percorreu toda a Europa como activista revolucionário e exilado político, foi um dos fundadores da Associação Internacional dos Trabalhadores, também conhecida por I Internacional, sendo uma das figuras mais importantes do movimento e do pensamento anarquista. Da sua bibliogarfia destaca-se o livro Deus e o Estado.


A carta reproduzida acima tem data de 29 de Março de 1845 e foi enviada de Paris por Bakunine ao seu irmão Paulo.

Em LISBOA contra a matança!







Do Blog de Joana Lopes, Entre as brumas da memória

Lisboa por Sakineh — 100 cidades contra a barbárie


Este texto será lido amanhã, durante o protesto contra a lapidação de pena de morte, apelando pela vida da iraniana Sakineh Ashtiani.


Sakineh Mohammadi Ashtiani, 43 anos, viúva, dois filhos, condenada à morte na República Islâmica do Irão. Condenada à morte pela República Islâmica do Irão. Condenada à morte por viver numa República Islâmica, com base nisso a que se dá o nome de “lei islâmica” e que na declinação iraniana decreta que as mulheres acusadas de relações sexuais “fora do casamento” devem ser lapidadas. Mortas à pedrada. Com pedras do tamanho certo para que a morte seja lenta e atroz, para que a mulher enterrada até ao rosto possa sobreviver a dezenas de golpes enquanto à sua volta a turba faz pontaria e se congratula com “a vontade de deus”.


Mais de uma centena de pessoas foram assim executadas no Irão nos últimos anos, quase todas mulheres, quase todas por “adultério”. Há pelo menos 15 neste momento a aguardar execução. A outras foi à última hora comutada a pena, de lapidação para enforcamento. Houve alegações nesse sentido por parte das autoridades iranianas: esta mulher iria afinal ser enforcada. A morte, menos atroz, menos bárbara. Mas a morte.


Quarta-feira, 25, o tribunal reuniu mas parece não ter chegado a uma conclusão. Entretanto, as agências de direitos humanos denunciam que nos últimos meses houve centenas de enforcamentos no Irão e que estão milhares de pessoas no corredor da morte. Pelo menos 135 são menores. Os crimes em causa vão do homicídio à homossexualidade, mas também presos políticos têm sido executados. Em Dezembro de 2009, o Irão opôs-se a uma resolução da Assembleia da ONU que propunha a suspensão das execuções.


Sim, morre muita gente todos os dias. Morre muita gente executada, muita gente torturada, e não só no Irão. Gente condenada por regimes iníquos a nem sequer ter nome num túmulo. Gente cujo rosto nunca veremos, nunca fará cartazes, nunca povoará manifestações à volta do mundo. Sim, é assim. Tantas as tragédias, tantas as vidas à mercê, tanto o terror, a injustiça, a barbárie, tantas as celas escuras onde se tortura e mata, tantos os gritos e as lágrimas e as súplicas de que nunca saberemos e de que talvez não queiramos saber, tanto tanto por fazer, por acudir e nós sem sabermos como.


Sim, precisamos talvez de uma ocasião assim, de uma causa assim, de um nome e um rosto para nos sentirmos justos e capazes, para sentir que não somos indiferentes. Precisamos de Sakineh como ela de nós.


Precisamos de te dizer isto, Sakineh: que, dependa de nós, e a nossa voz, o nosso não, a nossa fúria, a nossa vontade e exigência moverão as montanhas que nos separam e os poderes que te condenaram, moverão até os deuses, se deuses houver para mover.


Vamos fazer de Lisboa uma das 103 cidades que no sábado, 28 de Agosto, da Austrália à Finlândia, do Brasil ao Iraque, da Turquia à Índia, se unem em resposta ao apelo do International Committee Against Execution num protesto global contra a lapidação e a pena de morte, e apelando pela vida de Sakineh Mohammadi Ashtiani. É às 18 horas, no Largo Camões. Contamos todos.

Ui, que esculhambação!

Roque: não é só na política do país, a impunidade reside debaixo de nosso nariz... Aqui, aqui mesmo...bem aqui

Insuportável mundo de pedras

Mar de rochas


Do Leonardo Ferrari, Psicanalista, Curitiba, Veja aqui
O rosto de Florencia Ávalos, um dos 33 mineiros soterrados, visto na tela de uma televisão no acampamento dos familiares na mina San José, no Chile. Fotografia AP in El País, 27 de agosto de 2010.

“Señor presidente, nosotros necesitamos que no nos abandonen. Como mineros, los 33 que estamos aquí, bajo un mar de roca, estamos esperando que todo Chile haga fuerza para que nos puedan sacar de este infierno” [a resposta de Luis Urzúa, o chefe de turno dos 33 mineiros soterrados no Chile à pergunta do presidente do Chile, Sebastián Piñera, sobre o que eles necessitavam – fonte: F. Peregil in El País, 26 de agosto de 2010].

Um mar de rocha. Nem Dante Alighieri conseguiu imaginar isso no Inferno. Lá está a selva escura, os que ardem de desejo sem a esperança de saciá-lo, o negro vendaval reservado aos pecadores carnais, a chuva gélida, pesada, imutável que cai sobre os gulosos, as águas ferventes mais adiante, as turbas demoníacas em Dite, o rio de sangue chamado Flegetonte para os assassinos e tiranos, as almas nuas sobre um areal fervendo sob a chuva de labaredas, os abismos, o Malebolge, dez covas malditas, fossos, cloacas, o piche quente, poços escuros, o gelo atroz no centro da Terra. Mas não há mar de rocha em Dante. Isso que acontece no Chile está além de Dante. Um mar de rocha, um oceano de pedra. Dói escutar, dói imaginar isso. Mar de rocha. Insuportável. Um mar de rocha.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Bobagens sinceras ...


Julio Cortazar divide os seres humanos em cronópios e famas. Os famas são os do tipo certinhos. Viajam e marcam data, hora e clima para chegar ao destino. Não gastam muito (a não ser que o dinheiro seja dos outros), pão-duros, seguros de sua insegurança, irritam pelo excesso de zelo e de trabalho. Os cronópios são desajeitados. Quando, nas férias, chegam à praia, está chovendo e não encontram vagas no hotel. Ficam na chuva e a vida continua linda. Saul Bellow divide os humanos em: os beers e os becomers. Beers, são "os que são" e becomers, "os que serão". Os beers não querem mudar; já chega o que são, previsíveis, seguros. Becomers são inseguros, incertos, nômades.

Bacana, não!? No mundo de hoje eu não consigo identificar essas duas raças. Ou melhor, tipos. Há muitos famas com cabelos compridos, tatuados e discursos arrojados. Há muito beers que se mostram nômades, inseguros, mas após dez anos convivendo com um beer desse, você nota que se enganou redondamente. O beer tava camuflado de cronópio. Mas num pio vira beer.

Minha classificação nova: a) pastéis (aqueles que tanto faz o recheio que se põem neles); b) famas2 (aqueles que apreciam as suas fotografias); c) beers2 (primos dos famas2,); d) malucos beleza (meus amigos do humor, das charges); e) os indesejáveis. Incluo-me nesse grupo. Sobretudo ultimamente. Detestaria ser um beer camuflado. Quando eu fizer uma tatuagem, vai ser para valer. E não para me fantasiar de moderno. De cronópio. Uia, que nojo dos fantasmas.
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Temos também a classificação de Jorge Luis Borges. Linda!

Nóis na fotografia!


Depois de ter sido estudante na ditadura de 1970; depois de ter sido professora de ensino público em São Paulo (fundamental e médio) com uma diretora violenta no final da década de 1970; depois de ter tido um namorido "pão-duro" fdp que deixou um fogão véio Dako e geladeira azul velha como doação generosa (nofa, tanta generosidade me fez sonhar ontem que ele enviara a geladeira podre de presente para mim. pqp).; depois de procurar emprego até na casa da Mãe do Pantanha (ui, rodopiei o Brasil); depois de morar em uma casa tão velha que os tijolos rangiam (em São Carlos); depois de ter sido sindicalista e manter com meus colegas uma greve de 6 meses; depois, depois depois... eis que ONTEM soube que um nobre hierárquico de minha universidade pediu minha intervenção como coordenadora de algo que estou coordenando. O quê, véio!? Só rindo? Só chorando? Só! como dizia minha amiga na década de 1980! Só.... Haja democratas. Haja TV Globo para mostrar o assédio local. Haja saco!

IBGE

Imagem: Jan Saudek
Hoje, a tarde, recebi uma garota do IBGE. A pergunta: Você é a) branca, b) negra, c) indígena deixou-me a pensar. Resposta: branca. Se eu respondesse indígena ela não iria acreditar. Fenótipo de branco, mas tenho um pedaço indígena. Minha bisavó materna era guarani (casou-se um português, pois pois). O resto da família paterna de italianos tipo pafúncios, metade louros, metade mouros. Nasci clara de olhos azuis. Num berço indígena. Que alegria, sou brasileira!

Ui, querem esconder o FHC...


PSDB pede direito de resposta ao TSE porque PSTU mostrou na TV FHC chamando aposentados de vagabundos.
Quem fala demais dá bom dia a cavalo!

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Imagem: net

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Imagem: depressão 1929
De Joana Lopes, do Blog Entre as brumas da memória Portugal


Inconformismo em tempo de crise...


Para quem não tenha lido a excelente crónica de Rui Tavares no Público de ontem, fica o link para o texto na íntegra e alguns excertos.


«O individualista mais empedernido não deixará de reconhecer que uma multidão com objectivos comuns consegue coisas incomuns. Se as escolhas são claras e as opções em cima da mesa são colocadas de forma honesta, tornam-se superáveis as mais difíceis crises. Os países que venceram a Grande Depressão fizeram-no assim, mobilizando a população desempregada, não desperdiçando as suas forças, dando às pessoas uma oportunidade para resolverem em simultâneo os seus problemas e os da conjuntura. Não teriam vencido a crise contra as pessoas; vencê-la com as pessoas parece mais fácil — e não parece que haja outra maneira.


Ser democrata é, hoje, talvez a atitude mais inconformada que há. O conformismo é que está hoje — se não o foi sempre — antidemocrata por natureza. O inconformismo e um plano podem ganhar as próximas eleições presidenciais (espero que Alegre não se esqueça disso, agora que tem o apoio do PS) mas, acima de tudo, podem ganhar um país. (…)


A democracia pode acabar com a crise, mas a crise está mais perto de acabar com a democracia.»

Ui, sejamos realistas ...


Imagem: net
Frases cap-tiradas so Funcionário Cansado. Aqui Tenho um livro com os slogans também.

Soyez réalistes, demandez l'impossible
Sejam realistas, exijam o impossível


Le réveil sonne: première humiliation de la journée
O despertador toca: primeira humilhação do dia

Le droit de vivre ne se mendie pas, il se prend
O direito de viver não se mendiga, toma-se

Ouvrons les portes des asiles, des prisons, et autres facultés
Abramos as portas dos asilos, das prisões, e outras faculdades

Ne nous attardons pas au spectacle de la contestation, mais passons à la contestation du spectacle.
Não nos prendamos ao espectáculo da contestação, mas passemos à contestação do espectáculo.

Ne travaillez jamais
Não trabalharemos mais

Poizé! Ninguém fala mais nisso:

De Oduvaldo Viana ... Vianinha, uma lição que aprendi na faculdade, extra-curricular: " O trabalho enobrece o nobre".

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Do Blog de Roberto Romano

Observatório da Imprensa, 26/08/2010.
Jornal de Debates
OI NA TV
Pedras para Sakineh Ashtiani

Por Lilia Diniz em 26/8/2010

Condenada a morrer por apedrejamento, a iraniana Sakineh Ashtiani comove o mundo. Acusada de adultério em duas ocasiões e de participação no assassinato de seu companheiro, Sakineh luta para reverter a sentença. Em 2006, após confessar ter mantido um relacionamento ilícito quando já era viúva, a iraniana recebeu 99 chibatadas. O processo contra ela foi reaberto quando as investigações sobre a morte de seu marido apontaram que Sakineh teria cometido adultério ainda durante o casamento. Os filhos e o advogado de Sakineh, que movem uma campanha internacional para a revisão da sentença, alegam que há falhas no processo e que a confissão teria sido forçada.

A punição imposta a Sakineh não é rara em países de maioria muçulmana. No Irã, outras 25 pessoas aguardam a morte por apedrejamento, de acordo com uma organização não-governamental que luta contra este tipo de execução. A morte por lapidação, prevista na lei islâmica, a sharia, pode ser aplicada em casos de adultério praticados por homens ou mulheres e em casos de homossexualismo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que mantém relações cordiais com o presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad, ofereceu asilo à iraniana, mas o presidente iraniano não aceitou a proposta. O Observatório da Imprensa exibido ao vivo pela TV Brasil na terça-feira (24/8) discutiu a repercussão da condenação de Sakineh no Brasil e no mundo.

Antes do debate no estúdio, na coluna "A Mídia na Semana", Alberto Dines comentou a conflituosa relação entre governo e imprensa em dois países vizinhos, a Venezuela e a Argentina; a passeata realizada por humoristas domingo (22/08), no Rio de Janeiro, em protesto contra as restrições ao humor previstas na legislação eleitoral para o rádio e a televisão; e a intenção da Associação Nacional de Jornais (ANJ) de criar o projeto de um conselho de autorregulamentação, anunciada durante o 8º Congresso Brasileiro de Jornais.

Mídia menos vibrante

Em editorial, Dines relembrou outros julgamentos que atraíram a opinião pública mundial e ressaltou que o caso de Sakineh tem ligações com uma causa política porque expõe na imprensa "aberrações" cometidas em nome da fé. "A mídia hoje é mais forte e também mais fraca porque não consegue dedicar à massa de fatos a mesma intensidade e a mesma vibração que antes usava quando a sua pauta era mais restrita", avaliou.

Para discutir esta questão, Alberto Dines recebeu no estúdio de São Paulo o filósofo Roberto Romano e o jornalista Roberto Lameirinhas. Professor Titular da Unicamp na área de Ética e Filosofia Política, Romano escreveu diversos livros e artigos sobre Ética e Teoria do Estado, publicados no Brasil e no exterior. Lameirinhas é editor de Internacional de O Estado de S.Paulo. Nos últimos anos, cobriu processos eleitorais e políticos em vários países e quase todos os da América Latina. No Rio de Janeiro, o convidado foi Eugênio José Guilherme de Aragão, subprocurador-geral da República. Doutor em Direito pela Ruhr-Universität de Bochum, na Alemanha, é professor adjunto da Universidade de Brasília.

A reportagem produzida pelo programa entrevistou Sami Armed Isbelle, representante da Sociedade Beneficente Muçulmana (SBM). Sami explicou que a estrutura familiar é um dos valores mais importantes das sociedades de maioria muçulmana. As leis que protegem a família são para coibir qualquer desestruturação desta instituição e, assim, assegurar uma sociedade sadia. As leis, de acordo com Sami, contribuem para evitar o sexo fora do casamento e o adultério. Ao contrário do que é propagado no Ocidente, no Islã o casamento é consensual e tanto o homem quanto a mulher podem pedir o divórcio e casar novamente. Sami também destacou que não há exposição a conteúdo visual erótico e as pessoas vestem-se de forma mais recatada.

"A imprensa brasileira está reproduzindo o que está vindo de fora, através das agências de notícias que mandam informações para o mundo inteiro. Na verdade, o que ela poderia fazer seria justamente estar checando estas informações", criticou. Sami avalia que a mídia no Brasil está dando voz a apenas um lado da questão e não busca ouvir fontes que tenham representatividade no mundo islâmico para mostrar a sua versão dos fatos.

Preconceito arraigado

Roseli Fischmann, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), criticou a estereotipização do mundo muçulmano e disse que a associação entre terrorismo e islamismo é uma brutalidade. "A relação da mídia com o mundo islâmico é sempre bastante complexa e me parece que não é só no Brasil. Ao contrário, eu acho que no Brasil tem havido até uma abertura um pouco maior nos últimos vinte anos, nos últimos dez em particular, mas ainda existe muita dificuldade. No campo internacional, eu acho que o mundo islâmico tem sido bastante brutalizado porque o islã não se reduz a esta situação que é específica do Irã", disse.

Para Roseli, o caso de Sakineh mostra com clareza que é cada vez mais relevante que o Estado moderno seja laico. "O Estado precisa garantir a liberdade de crença e de consciência de todos – dos que crêem e dos que não crêem – mas ao mesmo tempo ele precisa garantir estas opções individuais que surgem para que os direitos individuais sejam respeitados para todos e todas", argumentou.

Rose Marie Muraro, escritora e defensora dos direitos da mulher, comentou que a questão do apedrejamento de mulheres acusadas de adultério é milenar. "Já no Evangelho, Jesus Cristo dizia para os que estavam apedrejando a adúltera: ‘Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra’ e foi todo mundo embora. E até hoje elas são apedrejadas", lembrou. Rose Marie classificou a questão das mulheres na atualidade como "impensável". Na Índia, por exemplo, mães colocam grãos de veneno no bico do seio para que, ao mamar, as filhas não sobrevivam e, assim, não sofram maus tratos por parte dos futuros maridos.

Direitos básicos

No debate no estúdio, Dines comentou que o caso de Sakineh envolve questões como direitos humanos, democracia, Estado teocrático e comunicação. O filósofo Roberto Romano disse que o melhor enfoque para o caso neste momento é o do valor absoluto da individualidade e da proteção que a sociedade e o Estado precisam dar a esta individualidade. "Eu tenho visto comentários de colegas seus da imprensa, tenho visto cartas de leitores em grande quantidade falando que não existem direitos absolutos. Existem sim. O primeiro direito absoluto é o da vida. O direito que decorre daí é o direito da vida digna, da vida incólume, no corpo e na alma", assegurou.

Roberto Lameirinhas disse que o processo jornalístico tem abolido a dependência das agências estrangeiras como única fonte de informação, principalmente em assuntos de política internacional. Esta tem sido uma grande luta da imprensa brasileira, mas em algumas situações não há como evitar, como no caso da Sakineh. Para vencer as barreiras impostas pelo regime iraniano, sites e blogs também estão sendo usados na cobertura. "No que diz respeito ao envolvimento do Itamaraty e do governo brasileiro especificamente, conseguimos romper esta dependência e fizemos apurações próprias", disse.

Eugênio Aragão explicou que o Brasil adota o princípio da não-intervenção em assuntos internos. Aceita claramente a atuação das organizações internacionais na agenda de direitos humanos, mas tem sido refratário à ingerência de um Estado em outro Estado. Em outros cenários de graves violações dos direitos humanos, como em Cuba, o governo brasileiro evita adotar uma postura agressiva. "Nós não costumamos aceitar críticas, por exemplo, do governo americano, nos seus relatórios anuais sobre a situação de direitos humanos no Brasil. Nós aceitamos, porém, a ação das Nações Unidas. O Brasil admite que a questão de direitos humanos seja uma agenda tratada multilateralmente, mas tem fortes resistências ao tratamento bilateral", afirmou.

Opinião pública anestesiada

Para Roberto Romano, em termos de "razão de Estado", é compreensível a adoção de políticas e de alianças; no entanto, as outras esferas da sociedade não estão se mobilizando e refletindo o suficiente. "O que está ocorrendo com a imprensa, a opinião pública, que perdeu ou está perdendo muito fortemente a capacidade de indignação? Se você não tem esta capacidade de indignação, que é um elemento ético fundamental, efetivamente você tem o processo da barbárie tecnológica funcionando rapidamente", disse. Em um mundo pautado pela velocidade, dramas como os constantes massacres que ocorrem no continente africano são deixados para trás.



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FERIDA
Imagem: de Giacometti, 1953
Do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba
“Annette” de Alberto Giacometti, 1953. Escultura em bronze in Museum of Fine Arts, Boston.

“A beleza tem apenas uma origem: a ferida, singular, diferente para cada um, oculta ou visível, que o indivíduo preserva e para onde se retira quando quer deixar o mundo para uma solidão temporária, porém profunda. Há, portanto, uma diferença imensa entre essa arte e o que chamamos o miserabilismo. A arte de Giacometti parece querer descobrir essa ferida secreta de todo ser e mesmo de todas as coisas, para que ela os ilumine.”

Jean Genet in O Ateliê de Giacometti. São Paulo: Cosac & Naify, 2000, pp. 12-13.

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O poder das palavras, de Rui bebiano, em seu Blog A terceira noite


Nas últimas linhas de um dos derradeiros textos que ditou para a New York Review of Books, quando as palavras lhe corriam fluídas pelo cérebro ao mesmo tempo que sentia já dificuldade em pronunciá-las com a clareza que sempre procurou, Tony Judt ainda reflectia sobre os problemas da comunicação contemporânea: «Se as palavras se deterioram, o que poderá substituí-las? Elas são tudo aquilo que nos resta.» Não se referia, porém, ao seu problema pessoal, que sabia irrevogável: no artigo «Words» falava sobretudo da preocupação com o recuo do antigo modelo de educação humanista que tanto tem vindo a ser desacreditado pelos arrogantes campeões do «saber técnico». Falava da perda de voz dos que usam a língua, central nesse modelo que formou o seu e o nosso mundo, para conhecer sem coacções, para ocupar os espaços públicos do debate, para transformar a controvérsia num factor de dignidade e de liberdade. Falava da perda do lugar central da «fala pela fala», como processo de aproximação e de verdadeiro conhecimento. Dessa perda que, neste tempo que privilegia o o pragmático, o lógico, o eficaz, o «útil», muitos de nós sentimos, todos os dias, com dor e com preocupação. Dessa perda que observava mesmo em lugares, como as universidades, justamente concebidos para impedi-la de acontecer: «A “profissionalização” do discurso académico – e a deliberada apreensão por parte dos humanistas da segurança da “teoria” e da “metodologia” – favorece o obscurantismoJudt via nas palavras, no uso e no abuso das palavras, na sua troca sem compromissos, um espaço de resistência perante a incompreensão e o individualismo. E foi isso que, com elas já a fugirem-lhe, nos procurou ainda dizer.

Pseudo-tempo


Pseudo-intelectuais do Blog (muito bom) A TERCEIRA NOITE de Rui Bebiano


Não começou ontem o hábito de usar o qualificativo de «pseudo-intelectual» como maneira de desconsiderar alguém. Mas o costume vulgarizou-se nos últimos tempos, associado à depreciação pública do próprio conceito de intelectual. Numa sociedade na qual o nível de escolarização média e superior cresceu consideravelmente, mas onde o saber técnico é continuamente privilegiado em relação à cultura de base humanística, detecta-se um conflito entre aquilo que resta do antigo prestígio dos intelectuais – combatentes com voz por um saber engagé – e a atitude de um grande número de pessoas que ainda recolhe um eco desse prestígio mas é incapaz de o compreender. Por este motivo, tem alastrado um enorme equívoco capaz de levar a que alguém que ainda transporte consigo algumas das marcas desse antigo intelectual se transforme facilmente num «pseudo-intelectual», num ser caprichoso, especialista em pomposas futilidades. Ou seja, por definição, quem esgrime publicamente por ideias, quem cria e se esforça por fazer ecoar aquilo que criou, passou a ser para muitas pessoas de cultura mediana e standard um «falso intelectual». Com manias de sê-lo sem a percepção de que o será apenas para si e para uns quantos próximos. Se tanto.

Sem entrar no debate, já com décadas, sobre o hipotético fim dos intelectuais ou a indesmentível reformulação do seu lugar social, interessa aqui rememorar algumas banalidades fundadoras da sua condição resvaladiça. O Dicionário Houaiss destrata a palavra reduzindo-a à condição precária do adjectivo, aplicando-a apenas àquele «que vive predominantemente do intelecto» – e se opõe, portanto, a quem viva da actividade manual – ou então ao que demonstra «gosto e interesse pronunciados pelas coisas da cultura, da literatura, das artes». Exclui pois, ou pelo menos ignora, o sentido histórico e substantivo, que contribuiu para reforçar o prestígio original do intelectual, associando-o à experiência da cidadania, atribuindo-lhe um lugar central na agitação das ideias ou na legitimação das causas, assegurando um papel fulcral na vida cultural, não como simples espaço de devaneio e divertimento mas como território para a afirmação de um dever e de uma necessidade, fundamentais para a existência e o progresso das sociedades complexas.

Deste ponto de vista, André Malraux terá sido um protótipo do intelectual em estado bruto: escritor, resistente, aventureiro, teórico da arte, iniciador das «maisons de la culture» e inventor do primeiro Ministério da Cultura. Sartre foi-o também, como modelo do intelectual empenhado, defendendo que o escritor não é neutro frente à realidade histórica e social: «O escritor empenhado sabe que palavra é acção, sabe que desvendar é mudar e que não se pode desvendar senão fazendo por mudar». Para o filósofo existencialista, e durante algum tempo proto-marxista, no contexto da sociedade capitalista será aliás impossível manter o sonho da imparcialidade diante da condição humana. Na sua opinião, «a função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e considerar-se inocente diante dele». O escritor pensa, fala, escreve então assumindo essa experiência como resultado de uma necessidade, de um impulso sem o qual não pode ser verdadeiramente escritor. E o intelectual é-o como expressão de um destino socialmente partilhado, indispensável para a mudança do mundo.

O uso indiscriminado da noção de «pseudo-intelectual» advém pois do recuo desta ideia. Não tanto de uma abordagem objectiva da relação justa ou injusta de alguém com uma criação projectada no social ou com o combate público por certas ideias. Nos últimos tempos, o abuso do qualificativo – e a blogosfera é particularmente rica neste particular – tem correspondido pois, quase sempre, mais a uma desvalorização do pensamento livre e livremente comunicado do que a uma crítica, que até poderia ser justa, aplicada directamente a quem, «pseudo», «falso», exponha ideias que são apenas um simulacro de reflexão, conhecimento, ousadia e convicção.
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COMENTÁRIO: Minha opinião. Nos dias de hoje, 2010 e cia, a Thompson transforma os intelectuais em mercadores. Os mercadores mais afoitos em pseudos. Pseudos homens, professores e pesquisadores. Qual dimensão você escolheria: uma formação decente, honesta, forte aos seus alunos ou a cultura dos fast-foods? Livros abundantes, artigos mil, todos idiotamente transformados em currículo Lattes. Semana passada dediquei-me a ler e CORRIGIR livros dessa ordem. A máquina moe. Malraux não é mais exemplo para o nsso século. Intelectual como pessoa resistente, aventureiro, teórico da arte e impulsionador da cultura... esses não existem mais. Estamos f* .

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Imagem: cap-tirado do Blog de Yuri Vieira
Do Blog de Roberto Romano (Enviado por Paulo Araújo)...
Antonio Araujo

« A origem Singer novamente »
Entrevista de Singer a Salon
Por antonioaraujo
No fim da vida Isaac Bashevis Singer costumava escrever pela manhã. À tarde, ele caminhava pela Upper Broadway. Parava na avenida para comer uma comida vegetariana e alimentar os pássaros. Carregava talão de cheques e milhares de dólares em seus bolsos, no caso de precisar fugir de Nova Iorque às pressas. Ele acredita que “isto” poderia acontecer novamente.

Nascido de uma linhagem de grandes rabinos considerados tão santos que faziam milagres, o jovem do shtetl de Radzymin, Polônia, se rebelou contra a lei Judaica. Ele idolatrava seu irmão mais velho, o escritor secular de iídiche Israel Joshua Singer, e seguiu seu caminho, primeiro ao clube de escritores de Varsóvia, e depois finalmente à América. Adotou o nome hebraico de sua mãe, Bathsheba, e o tornou seu nome de escritor em iídiche, Bashevis. Fugindo de Hitler, Singer chegou à América em 1935 sem um centavo e sabendo somente uma única frase em inglês.

Singer dizia que servia a dois ídolos – o ídolo da literatura e o ídolo do amor. Mas, dizia ele, “a necessidade de crer em Deus é mais forte que a necessidade de sexo”.

Críticos chamam-no de “Scheherazade iídiche”. Ele publicava uma ou duas estórias, ou capítulos, por semana no “The Forward”, um jornal iídiche, por mais de 40 anos. Publicou 45 volumes de contos, novelas, fábulas para crianças, peças e memórias, traduzidos. Em 1978 a Academia Sueca o premiou com o Nobel de literatura.

Singer escreveu sobre cabalistas e hassidim de vilas camponesas em “Gimpel, o tolo” e “Satã em Gorai”, sobre escritores, criminosos, comunistas, acadêmicos e místicos de Varsóvia em “Escória” e “O Spinoza da rua do Mercado”, e sobre sobreviventes de Nova Iorque e Telavive em “Inimigos: uma estória de amor” e o recém traduzido “Sombras sobre o rio Hudson”

Em sua última entrevista, em uma invernal sexta-feira de 1987, Singer sentou-se em seu apartamento da Broadway emoldurado pela luz cinzenta entre duas janelas, o sol se pondo sobre o rio Hudson, o Sabath se aproximando.

Os dilemas árduos da vida inspiraram sua carreira. Como coisas tão terríveis acontecem? As tragédias são desígnios de Deus? Fazemos o mal por livre vontade? Somos possuídos por demônios?

“Claro que eu acredito em livre-arbítrio”, diz Isaac Bashevis Singer; “não tenho escolha”.

A saúde de Singer desmoronou logo após aquela tarde. Ele se sentava à piscina na Flórida com olhar perdido. Ele chorava por seu falecido irmão. Não reconhecia familiares ou amigos. Mas tradutores continuam a levar seus trabalhos ao mercado editorial após Bashevis não poder mais escrever. Aliás, mesmo depois de sua morte.

“Sombras sobre o rio Hudson”, sua quarta novela póstuma, traça dois anos nas vidas de sobreviventes em busca de sentido neste mundo ou no além, no dinheiro, amor, judaísmo, ciência ou no sobrenatural.

Em suas estórias e entrevistas, você mostra que acredita em livre-arbítrio no homem e na mulher, mas…

Acredito em livre-arbítrio de homens e mulheres. Aliás, acredito até que há um elevado intelecto ou livre-arbítrio nos animais.

E você ainda é conhecido por acreditar em espíritos e demônios. Em sua obra, imps destroem as pessoas utilizando suas paixões contra elas mesmas. Eles usam sexo, amor, dinheiro e até – em “Uma coroa de penas” – a paixão pelo conhecimento de Deus.

Eu diria que acredito em livre-arbítrio e acredito em destino ao mesmo tempo. Parece contraditório mas não é. Em outras palavras, todas as nossas paixões e tudo o mais não foram criados por nós. Foram criados por poderes superiores. Ao mesmo tempo nos são dadas escolhas para fazer. Temos de fazer estas escolhas entre o bem e o mal. Senão, não poderíamos existir.

Como distinguimos o que é bom do que é mau?

Não sabemos. Porque não estou certo de que Deus tenha se revelado a um homem ou outro e dito exatamente o que ele considera bom e o que ele considera mau. Entretanto, todos sentimos que aquilo que destrói a sociedade, que destrói a civilização, que faz nossas vidas miseráveis, é ruim, e aquilo que ajuda as pessoas a viver e a progredir é bom. Eu sei que isto não é muito objetivo, mas não temos outra maneira de medir, ou outra informação, então confiamos nisto.

Você disse em uma entrevista que o livre-arbítrio é um dos maiores presentes de Deus a nós, mas que não o usamos. Como deveríamos usá-lo?

Vou te dizer. Deveríamos ser capazes de tomar decisões e mantê-las. E cumpri-las. Não é suficiente tomar decisões, o mais importante é cumpri-las. Os dez mandamentos são um tipo de decisão, que Moisés e outros judeus assumiram. Não a cumprimos até o fim. Quando eles chegaram a Israel, várias vezes fizeram o oposto. Os dez mandamentos são um bom exemplo de quais decisões deveríamos tomar, se fôssemos realmente cumpri-las.

Eu li que você faz pequenos experimentos a respeito de sua própria capacidade de decisão: hoje sentarei e trabalharei somente por três horas. Ou não perderei tempo lendo o jornal de ontem, ou olhando pela janela por horas, ou falando no telefone.

Decisões são muito importantes. Se você pode cumpri-las, você tem mais poder. Se não, tudo o que posso dizer é: tente novamente. Não podemos relaxar nunca. Não podemos nunca deixar de continuar tentando. Devemos tentar de novo, de novo e de novo. O próprio fato de que você está aqui, de que está falando comigo, de que é um jornalista, de que você tem um emprego, significa que você cumpriu certas decisões. Se você pudesse deixar de lado, estaria em um asilo, ou Deus sabe onde. Isto é verdade quanto a você ou a quaisquer pessoas. Se não mantivéssemos nossas decisões, se não pudéssemos cumpri-las, estaríamos perdidos.

Você disse que a literatura deve em primeiro lugar entreter – do contrário, quem a leria?

Claro. Os escritores que choram nos ombros dos leitores e não fazem nada além disto, não informam o suficiente e não entretêm o suficiente. Portanto, por causa disso, todos os seus experimentos se tornam sem valor.

Mas deixe-me perguntar: você já disse que a literatura tem um valor pragmático. Qual é o valor pragmático da literatura?

Vou dizer. A informação é pragmática. O fato mesmo de que quando você lê uma novela, você aprende a respeito de um país, ou a respeito de um ambiente, já fez algo por sua educação. E se ao mesmo tempo seu espírito se entretém, o escritor chegou a seu objetivo.

Mas este valor pragmático que você menciona é muito mais mundano do que eu esperava. Não há esperança em seu coração de que seu trabalho abrirá nossos olhos de alguma forma, ou nossos corações?

Pessoalmente, quando sento para escrever, não digo que vou escrever algo que abrirá os corações ou mentes e fazer melhores seres humanos. Mas eu sei a partir de centenas de cartas e entrevistas e encontros que meu trabalho fez algo à vida das pessoas. Porque todas essas cartas de amor que eu recebo têm algum significado. Não quero dizer amor sexual. Elas dizem que foi bom eu ganhar o Nobel, que eu deveria ter recebido mais prêmios e coisas. Estas pessoas são tão gratas, que vejo que fiz algo por elas. Enquanto não faço com intenção, há alguma intenção oculta. Porque acredito em algo mais que não mencionamos até o momento. Que Deus está por trás de tudo.

Deus está por trás de tudo?

Ele está por trás de tudo. Mesmo quando fazemos algo contra Ele, Ele está lá. Não importa o quê. Como um pai que vê seus filhos fazendo coisas idiotas, ruins. Ele está bravo com eles, ele os pune. Ao mesmo tempo, são seus filhos. Acredito neste tipo de poder divino. Então nada está completamente perdido porque o Pai está olhando seus filhos, não importa o que estejam fazendo.

Você diz que se fosse para inventar uma religião, inventaria uma religião de protesto.

Vou explicar o que eu quis dizer: porque a natureza humana e a natureza em geral não indicam, não nos revelam claramente ou abstratamente o que devemos fazer, o que fazemos é só chute. Somos obrigados a chutar quando realmente não podemos chutar. Aliás, muita da nossa moralidade é fazer coisas contra a natureza. A natureza diz que se vires uma mulher bonita, jogue-a no chão e a estupre. Isto pode ser a natureza humana. Mas algo maior que isto nos diz que se fizer isto, você destrói a sociedade, destrói a si mesmo, seus filhos e muitas gerações adiante.

Por isto, de certa forma, não podemos agradecer a Deus a todo momento, louvá-lo e dizer “Você é bom”. Nós temos este sentimento de revolta. Por que ele criou esse imenso ordálio para sofrermos? Acredito que alguém pode admirar Deus, admirar sua sabedoria, e ao mesmo tempo protestar contra sua neutralidade. Não acho que a religião seja contra isto. Os grandes líderes religiosos protestavam cada um à sua maneira. O livro de Jó é um livro de protesto. E assim são muitos grandes livros e grandes revelações.

Notei que você diz “O homem nasceu para sofrer; dê a ele meia chance e ele espatifará seus miolos nas pedras”.

É claro.

Por que escolhemos a miséria?

Porque em um dado momento amamos; em outro momento odiamos. Em um momento você quer ajudar; em outro você quer destruir. Nós somos amaldiçoados por emoções que criam desordem em nossas vidas. Por causa destas emoções, não há nunca descanso. Para servir à humanidade, à civilização, você deve ser mais forte que suas emoções. E esta é uma luta tão árdua e terrível que nunca estamos livres dela. Mas devemos continuar a lutar.

Não acha que nos arriscamos a perder o amor romântico se dominamos nossas emoções?

Arriscamo-nos a perder tudo. Arriscamo-nos a perder nosso amor, nossa cama, nossa casa, nossa comida. A vida em si é um grande risco do começo ao fim, e talvez o livre-arbítrio venha em nosso socorro.

Por que vejo pouca menção ao Holocausto em sua obra?

Sim, eu o menciono várias vezes em meu livro “Inimigos: uma estória de amor”. O único porém é que eu acredito que a história humana inteira é um grande Holocausto. Não somente a história judaica. Podemos chamar a história humana de história do holocausto humano. Se russos são mortos, ou alemães, ou judeus ou árabes, ou outros povos, é um único imenso Holocausto. Isto é o que fazemos da vida porque não escolhemos nada melhor e não mantemos nossas promessas. Não agimos de acordo com nossas escolhas.

Nós não agimos de acordo com nossa vontade?

Nós não escolhemos bem, e quando escolhemos bem, não agimos de acordo com nossas escolhas.

SALON April 28, 1998

Essa entrada foi publicada em agosto 20, 2010 às 1:07 pm e arquivada em Literatura. Você pode acompanhar qualquer resposta para esta entrada através do feed RSS 2.0. Respostas estão atualmente fechadas, mas você pode responder do seu próprio site.

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