TUCA PUC 1977
EU QUASE QUE NADA SEI. MAS DESCONFIO DE MUITA COISA. GUIMARÃES ROSA.
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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

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Foto: Guardian.co.uk
A Liberdade Segundo Jonathan Franzen por Maurício Santoro AQUI


Os Berglunds eram a família modelo num pacato subúrbio residencial do estado de Minnesota, sempre dispostos a ajudar os vizinhos e com dois filhos inteligentes e saudáveis. É certo que havia alguns questionamentos – por que Patty, a esposa,nunca visitava seus pais em Nova York? – mas eram questões menores. De repente, não mais do que de repente, as coisas saíram de controle. Talvez o 11 de setembro possa ser o marco, mas os atentados dificilmente explicam a saída de casa do filho caçula, Joey, ou a freqüência com que Patty passou a beber. E o que diabos representa para a família o músico-alternativo-que-virou-superstar, Richard Katz, o grande amigo de juventude de Walter, o marido? A mudança dos Berglund para Washington, DC, foi o prelúdio do desastre, mas ainda assim ninguém entendeu o perfil que o New York Times publicou do gentil Walter, associando-o à devastação do carvão e chamando-o de “notório arrogante.”

“Freedom”,
de Jonathan Franzen, é um romance sobre excessos – de liberdade, de dinheiro, de opções e como todas essas possibilidades acabam fazendo com que as pessoas se percam em meio às dificuldades da vida contemporânea nos Estados Unidos. Como seu best seller anterior, “As Correções”, é também uma crônica das desventuras de um casal de classe média por sua crise de meia idade. A novidade é que Franzen está mais político, satirizando o clima de “o vencedor leva tudo” que tomou conta da sociedade americana, e elaborando tramas a partir das negociatas no Iraque. Eu havia gostado das “Correções”, e “Freedom” é ainda melhor.


A trama acompanha a trajetória de quatro personagens: Walter, Patty, Joey e Richard, com olhares momentâneos sobre seus vizinhos, amigos, amantes, parentes e fãs. O que os quatro têm em comum é o desejo de mudar de vida, mas a permanente insatisfação com as escolhas que realizam. Walter abandona a empresa na qual trabalhou por muitos anos para tocar uma fundação filantrópica ambiental, de credenciais questionáveis. Patty se sente frustrada com sua rotina de dona de casa e lamenta os erros que cometeu. Joey vive as ansiedades da adolescência e do início da vida adulta, principalmente as tentações do dinheiro, ao ser apresentado à milionária família de seu colega de quarto. O personagem mais interessante, sem dúvida, é Richard. Sua carreira boêmia e errática sofre um baque violento quando ele se torna um sucesso de público. Mas talvez ser bem-sucedido não seja o que ele procure.

O romance consegue ser engraçado e amargo ao mesmo tempo, com passagens inesquecíveis, como Richard criticando a pose dos roqueiros, Joey refletindo sobre a importância da música em sua vida ou a relação de amizade, carinho, rivalidade e ressentimento que une e separa Richard e Walter, desde os dias da faculdade. Há também problemas, em especial uma certa agressividade que com freqüência aparece nas descrições dos personagens femininos. Mas é muito bom encontrar um romance que me emocione e me faça pensar.

domingo, 6 de setembro de 2009

A liberdade não mora mais aqui...




Em nome da liberdade, de Leonardo Ferrari, Curitiba. Veja o BLOG aqui.
Anúncio do torneio de tênis “US Open” in The New York Times Magazine, 30/8/2009.
A liberdade, mito, é linda. Porta de entrada dos famintos e desesperados, dos perseguidos e humilhados, dos feridos e angustiados, ela também é a porta de saída. O problema acontece na entrada e na saída. Na entrada porque, ao contrário da lenda, nenhuma liberdade foi dada a ninguém. Ela teve que ser duramente conquistada, selvagemente disputada, e, pior, tem que ser renovada dia a dia, ela não é permanente – nenhum italiano, nenhum negro, nenhum asiático ganhou nada. Tiveram de se organizar, arrombar portas à força, abrir janelas, windows, à unha. Já na saída, o problema é outro. É quando o mito se transforma, se encarna em uma causa e decidem sair com ela para libertar os fracos, decidem levá-la a dar uma volta pela Europa para derrotar o fascismo, bravo, exceto pelos excessos em seu nome, como Hiroshima, Nagasaki e tantos bombardeios desnecessários, para os alvos, evidentemente, como Dresden. Mas, hoje, quando a levam para o Iraque e para o Afeganistão, e ali ela é usada, abusada e estuprada, seu nome é apregoado em cada ação militar funesta, insensata, devastadora, aí dói demais. Nada foi aprendido com o Vietnã, a não ser novas técnicas para torturar, novas técnicas para dizimar melhor, novas técnicas para assassinar sem deixar pegadas. Técnicas, técnicas, técnicas. Nada de humanidades, zero.
Contra quem joga a liberdade? Quem escolhe seus adversários? Há vitória quando se dizima toda uma população civil indefesa? Dá para vibrar quando um voleio destrói noventa civis através de uma única bomba jogada ontem no Afeganistão por um bombardeiro alemão – ironia das ironias? Dá para torcer quando um simples smash liquida vilarejos inteiros, a história de vidas humanas nunca registradas, nunca divulgadas? Que open é esse que se abate pesadamente em cima de quem vive diferente, se veste diferente, pensa diferente, quer uma vida diferente? Sobre isso, convém lembrar o que diz John Le Carré sobre a guerra do Iraque em seu livro “Amigos Absolutos” (editora Record, 2005):

“Cada guerra é pior do que a anterior, senhor Mundy. Mas esta é a pior que já se viu no que diz respeito às mentiras. Não importa que tenha terminado a guerra fria. Não importa que estejamos globalizados, que sejamos multinacionais ou o que for. Enquanto soam os tambores e os políticos soltam suas mentiras, ali teremos os arcos e as flechas e a bandeira, a televisão vinte e quatro horas por dia para todos os cidadãos leais. Três hurras pelas explosões, e o que me importam as baixas enquanto elas permanecerem do outro lado? E não me venha com essa palhaçada da Velha Europa. Aqui nos encontramos com a América mais velha da história: fanáticos puritanos que assassinam os selvagens em nome do Senhor. O que existe de mais velho do que isso? Foi genocídio antes e é genocídio agora”.

John Le Carré in Amigos Absolutos, citado por Javier Valenzuela in La Aldea Global es una Novela Negra, El País, 31/7/2009.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Liberdade e insulto

Trouxe este texto muito interessante do Blog Rerum Natura. Serve ao propósito: debater a intenção de muitos políticos em advogar a causa da cassa aos direitos dos blogueiros. O que é insulto? O que é a liberdade? Veja como o filósofo português pensa o "insulto".

Por Desidério Murcho, do BLOG RERUM NATURA, Portugal

Eis a minha habitual crónica das terças-feiras do Público:Há quem pense que é possível conciliar a liberdade de expressão e a proibição do insulto. Mas isto é falso; como escreveu Orwell, “Se a liberdade significa realmente alguma coisa, significa o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”.
O conceito de insulto é demasiado escorregadio para se poder determinar o que é um insulto ou não. Nem todas as falsidades que se afirmam de alguém o insultam: se as pessoas disserem que o papa é espanhol, estarão a dizer uma falsidade que não insulta os católicos. Mas algumas verdades são sentidas como insultuosas: afirmar que o papa é um homem que usa roupas que parecem saias e que acredita que o vinho se transforma em sangue de Cristo é afirmar verdades, mas poderão ser sentidas como insultuosas por alguns católicos. Assim, um insulto é seja o que for que alguém afirma e que outra pessoa qualquer não gosta, por este ou aquele motivo.
Donde se segue que se aceitarmos a proibição do insulto, colocamos uma mordaça ubíqua na liberdade de expressão, pois seja o que for que alguém diz pode ser entendido como insultuoso por outra pessoa qualquer.Hoje é moda na vida pública virem várias pessoas a público defender o direito de silenciar os outros porque se sentiram ofendidos. Não se pode por isso dizer mal da homossexualidade, ou da religião, da democracia ou da liberdade. Pode parecer paradoxal, mas este estado de coisas é uma ameaça à liberdade dos homossexuais, à liberdade religiosa, à democracia e à própria liberdade. Pois se as pessoas forem policiadas por dentro, evitando dizer o que realmente pensam, vão continuar a pensar tolices que ameaçam a democracia e a liberdade, mas não as vão exprimir e como tal torna-se impossível explicar-lhes o erro em que caíram.
A ideia de viver em liberdade e democracia inclui a ideia de aprender a viver com a diversidade de ideias e estilos de vida, o que implica a disposição para aceitar a realidade tal como é, com pessoas que nos desagradam mas que têm direito a existir. A humanidade é muito diversificada; sem uma vontade honesta para a aceitar, a liberdade e a democracia estarão sempre ameaçadas. As pessoas religiosas preferiam um mundo sem ateus, alguns ateus preferiam um mundo sem pessoas religiosas, muitas pessoas preferiam um mundo sem homossexuais, e estes preferiam um mundo sem essas pessoas. É esta desvontade para aceitar a humanidade tal como é que faz as pessoas deitar mão do conceito de insulto: é uma tentativa infantil de fingir que no mundo não há pessoas que nos desagradam profundamente, pois se elas existirem mas estiverem caladinhas, até parece que não existem.Esta atitude impede-nos de aprender a viver uns com os outros, com todas as nossas diferenças. Precisamos de saber organizar a sociedade de modo que as pessoas se sintam bem, independentemente de serem ateias ou religiosas, homossexuais ou astrólogas. E para isso, temos de abandonar o escorregadio conceito de insulto e aceitar plenamente a liberdade genuína de expressão.

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