TUCA PUC 1977
EU QUASE QUE NADA SEI. MAS DESCONFIO DE MUITA COISA. GUIMARÃES ROSA.
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Sublime!

Foto: cap-tirada do blogue de Lauro Antonio
Do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba


De Ivan Tcheglov a Tchekov, em 29 de maio de 1888:


“Não fiquei totalmente satisfeito com seu último conto [“Kisotchka”]. É claro que o engoli de uma só vez – isso nem se discute –, porque tudo o que você escreve é tão saboroso e real que pode ser engolido facilmente e com prazer. Mas o final – “Não dá para entender nada neste mundo...” – é abrupto; e certamente é papel do escritor entender o que se passa no coração de seu herói; de outro modo, sua psicologia permanecerá obscura.”

De Tchekov a Ivan Tcheglov, em 9 de junho de 1888:


“Tomo a liberdade de discordar de você. Um psicólogo não deveria fingir que entende o que ele não entende. Além disso, o psicólogo não deveria transmitir a ideia de que entende o que ninguém entende. Não devemos bancar o charlatão, vamos dizer honestamente que nada neste mundo é claro. Só os tolos ou os charlatães sabem e compreendem tudo.”

Fonte: Janet Malcolm in Lendo Tchekov. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p. 27.

sexta-feira, 30 de julho de 2010


Texto do Leonardo Ferrari. Blog aqui
“A direita tentou dar um golpe a cada 24 horas para não permitir que as forças democráticas pudessem continuar neste país. Foram oito anos de ataques, provocações e infâmias. Eu mandei dizer a essa elite: vocês mataram Getúlio (Vargas), obrigaram (João) Goulart a renunciar e o Jânio Quadros durou seis meses. Se quiserem me enfrentar, não vou estar no meu gabinete lendo o jornal de vocês. Estarei nas ruas conversando com o povo brasileiro!” presidente Lula em comício no ginásio Gigantinho de Porto Alegre. Fonte: Leila Suwwan in O Globo, 30 de julho de 2010.

É verdade que “a elite” existe, é verdade que “a elite” é dona de jornais, é verdade que “a elite” luta pelo poder o tempo todo. Porém, não é verdade que “a elite” matou Getúlio Vargas, não é verdade que “a elite” obrigou João Goulart a renunciar, não é verdade que “a elite” fez Jânio Quadros durar seis meses. Pior que “a elite”, mais forte que “a elite” é o que o genial Sigmund Freud descobriu em sua clínica depois de 50 anos de trabalho diário escutando gente doída, gente quebrada, gente dividida, gente sofrida demais, e que denominou de “pulsão de morte”. O que é a pulsão de morte? É uma força avassaladora do sujeito contra si mesmo, uma força de ataque 24 horas por dia, trabalhadora sem descanso, nem dó nem piedade, uma força sabotadora, força sacaneadora, força que vai contra o ideal aristotélico de que o ser humano busca o bem, busca a felicidade. Errado. O ser humano busca se ferrar o tempo todo, se machucar, se perder, se danar – sem querer...querendo. Getúlio Vargas fez isso ao se tornar um ditador fascista, João Goular fez isso ao construir sem saber e sem querer – essa força é inconsciente – a sua própria queda e Jânio Quadros fez isso ao renunciar. Este, pelo menos, distinguiu vagamente o problema. Chamou de “forças terríveis” a autora de sua trapalhada. A pulsão de morte é esse terrível na cara, no dia-a-dia, à vista o tempo todo – porém, disso, o sujeito nada quer saber – prefere acreditar na genética, se entupir com comprimidos e se benzer com rezas. Senhor presidente: não se combate essa força indo falar com o povo brasileiro – que sofre do mesmo mal. Essa força, senhor presidente, só com análise. À disposição, senhor presidente.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

General, general ...

Do Leonardo Ferrari, Psicanalista, Curitiba

Fonte: primeira página do The New York Times, 27/4/2010.

Com uma manchete antológica, “We Have Met the Enemy and He Is PowerPoint” [“Nós encontramos o inimigo e ele é o PowerPoint”], Elisabeth Bumiller relata em reportagem no The New York Times de ontem a piada que o general Stanley A. McChrystal, o líder das forças norte-americanas e da NATO no Afeganistão, fez ao observar, no último verão, o slide de PowerPoint que, querendo mostrar a complexidade da estratégia militar norte-americana, revelou-se, sem querer, um enorme prato de spaguetti: “When we understand that slide, we’ll have won the war” [“Quando nós entendermos esse slide, nós venceremos a guerra”]. Genial! O único problema dessa piada é ela errar o alvo, aliás, prática useira e vezeira dos bombardeiros controlados a mais de 10 mil quilômetros de distância por controle remoto – videogame -, de uma base militar em Nevada, a uma hora de Las Vegas, e do quartel-general da CIA, em Langley, onde jovens soldados pilotam virtualmente os aviões de combate Predators e Reapers, cujas bombas, não virtuais, estraçalham e dizimam milhares de civis inocentes em zonas tribais do Paquistão e confins do Afeganistão – não há imprensa por lá para registrar essas atrocidades. O problema aí não é o PowerPoint. É verdade que há um Conteúdo Manifesto presente em jogo que é a babaquice de uma razão que, através de técnicas e metodologias importadas dos cursos sofisticados, “chiques” de Administração, os famigerados “MBAs”, tenta transportar para a guerra aquilo que supostamente “deu certo” no mundo dos negócios – perfeito, aliás, esse casamento entre guerra e negócios! Sai das melhores universidades americanas a NATA intelectual que coordena a guerra – fato já presente na Alemanha nazista: os inventores dos campos de concentração nazistas foram os doutores egressos das melhores universidades da Alemanha! Ao contrário da afirmação de Goya, não é o sono da razão que produz monstros, é o sonho! Porém, o que preocupa é o Conteúdo Latente da piada do general. Ele acredita piamente que essa guerra poderá ser ganha, quando de há muito ela está perdida. O general ri do PowerPoint quando deveria chorar por não conseguir responder a única questão séria dessa piada: o que os Estados Unidos continuam fazendo por lá? Essa pergunta, nunca presente no filme ganhador do Oscar de 2010, o horrível e ridículo “Guerra ao Terror”, um incrível manifesto pró-guerra, cujo final é a síntese dessa América que não é mais América – o “herói”-soldado-operário padrão retorna para o exterior pensando estar salvando o interior de sua pátria de vinte marcas de sucrilhos. Que isso tenha saído da cabeça e das mãos de uma mulher não deixa de causar espanto. Podem falar o que quiserem de Avatar, mas essa canalhice ele não contém. Assim, o general de Cristal rachado ri enquanto seus comandos em ação continuam matando gente inocente lá onde o diabo perdeu as botas. Esse Patton de opereta acredita que vai ganhar a guerra. Senhor general Big Mac, o problema não é o PowerPoint. O problema é como explicar que a maior democracia do mundo mantenha funcionando um campo de concentração chamado Guantánamo, “open” vinte e quatro horas por dia, e faça uma guerra de ocupação, “delivery”, uma guerra de espoliação, uma guerra de genocídio vinte e quatro horas por dia – deve ser da moral protestante esse fascínio pelo trabalho sem parar - contra o povo assassinado do Afeganistão e o povo desmembrado do Iraque. Quando as respostas para essas perguntas não podem ser ditas, senhor general, por vergonha ou medo, é hora de todo homem honrado se revoltar e lutar contra. Faça isso, senhor general. Com PowerPoint, twitter, blog, facebook, msn, google, um dia os Estados Unidos da América voltarão a ser uma democracia. Eu luto para isso, senhor general.

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