TUCA PUC 1977
EU QUASE QUE NADA SEI. MAS DESCONFIO DE MUITA COISA. GUIMARÃES ROSA.
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sábado, 26 de setembro de 2009

A hipálage


UMA PALAVRA NO LUGAR DE OUTRA
José Augusto Carvalho*
Há uma construção sintática que, às vezes, parece o samba do crioulo doido. É a
hipálage.
Os dicionários definem a hipálage como um expediente retórico segundo o qual uma palavra ocupa numa frase o lugar que convém logicamente a outra que com ela mantém um vínculo semântico e gramatical. Por exemplo: ao falar, em Os Lus. X, 2, em “abundantes mesas de altos manjares”, Camões quer dizer, retoricamente, “abundantes manjares de altas mesas”. Quando fala em “apetite necrófago da mosca”, Augusto dos Anjos, no poema “Cismas do destino”, parte II, quer dizer que a mosca é que é necrófaga, e não o apetite. No Hino Nacional, há um verso que diz “ao som do mar e à luz do céu profundo”. Na verdade, não é o céu que é profundo, mas o mar. Afinal, a profundidade é a verticalidade para baixo (o mar) e não para cima (o céu). O autor desse verso, Osório Duque Estrada, realizou uma hipálage: o adjetivo que deveria determinar um substantivo acabou determinando outro.
A hipálage é um processo psíquico, como a sinestesia. A sinestesia é a correspondência entre sentidos ou sensações diferentes, como “música doce”, por exemplo, em que a sensação acústica – música – se associa a uma sensação gustativa – doce. É por sinestesia que falamos em “voz grossa” ou que atribuímos idéia de coisa “gorda” a uma palavra como “maluma”, ou damos cores (verbocromia) a determinados sons, como o negrume ao u (fúnebre, túmulo, catacumba, urubu), e a clareza ao a (claro, raro, preclaro...)

A hipálage, no entanto, é mais complexa que a correspondência sinestésica de sensações, e não raro diz respeito à sintaxe e não apenas à semântica. É por hipálage que dizemos que o sapato não entra no pé (na verdade, é o pé que não entra no sapato). Também por hipálage, a moça que engordou diz que determinado vestido não cabe mais nela (na verdade, é ela que não cabe mais no vestido).
Não é apenas o deslocamento de um nome ou de um verbo que produz a hipálage; a permuta de casos e de funções sintáticas também pode caracterizá-la. Assim, uma expressão aparentemente errada, como “dar a luz a uma criança” (por “dar à luz uma criança”) pode ser adequadamente justificada como uma hipálage popular. Tanto faz, portanto, dizer que o bebê foi dado à luz, quanto dizer que a luz foi dada ao bebê... A preferência que as gramáticas dão a uma das expressões (“dar à luz um bebê”) não justifica a condenação da outra (“dar a luz a um bebê”).
Não se confunda o uso de verbos causativos com a hipálage. Quando se diz que “cigarro emagrece”, o verbo “emagrecer” está no sentido causativo, registrado nos dicionários, isto é, “emagrece” significa não apenas “fica mais magro”, mas também “faz emagrecer”. Da mesma forma, em “massas engordam”, “engordam” significa “fazem engordar”.
Há exemplos “carnavalescos” de hipálage na sintaxe popular, observáveis até mesmo na fala de pessoas cultas. Quando diz que “meu carro furou o pneu”, o falante não quer dizer que seu carro tenha realmente furado o próprio pneu... Quando dizemos que “Pedro quebrou o braço ao cair”, não estamos querendo dizer que Pedro foi o autor da própria fratura... Quando se diz que “o tanque vazou o óleo todo”, não se quer dizer que foi o tanque o autor da façanha... Outros exemplos: Cafu fez três cirurgias (foi o médico quem as fez). O jogador operou o septo nasal (foi o médico dele que operou).
Embora já se tenha falado nessas construções sintáticas em trabalhos lingüísticos sobre topicalização (como o livro de Eunice Pontes, Sujeito: da sintaxe ao discurso. São Paulo: Ática/INL, 1986) não me consta que exista algum estudo específico de psicolingüística exclusivamente sobre a hipálage.
É pena.

*(José Augusto Carvalho é mestre em linguística pela Unicamp e doutor em letras pela USP.)
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ADOREI, PROFESSOR!

ALÔ, POVO DA DISCIPLINA RETÓRICA!!!!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Ser ou não ser

Grata pelo envio, Professor!

CONCORDÂNCIA DO VERBO SER

José Augusto Carvalho, Professor Dr da Universidade Federal do Espírito Santo.

Na concordância do verbo ser devemos considerar basicamente a seguinte hierarquia: a) o pronome pessoal prevalece sobre qualquer classe de palavra; b) o substantivo referente a pessoas, próprio ou comum, prevalece sobre os outros; c) o plural prevalece sobre o singular e sobre os seguintes pronomes sujeitos: quem, tudo, isto, isso, aquilo, o. Se, contudo, houver dois pronomes pessoais, o pronome sujeito predomina na concordância (Ex.: “Você não é eu, e eu não sou você”.). Eis alguns exemplos que ilustram a hierarquia acima: Os donos da fazenda somos nós. Minha filha é os meus mimos. Esta menina é as esperanças da escola. Chico Anísio é os personagens dele. O Brasil são os brasileiros. O telhado eram palhas secas.
Obs.: Se o predicativo for parte do corpo, também é possível fazer a concordância com ele: Maria é dois olhinhos azuis. Maria são dois olhinhos azuis.
Se o sujeito for o pronome quem, a concordância se fará com o predicativo, conforme vimos: Quem são os interessados no negócio?
Se o predicativo forem as expressões pouco, muito, bastante, demais, dando idéia de quantidade, a concordância se fará no singular Ex: Um é pouco, dois é bom, três é demais. Dez reais é pouco para comprar uma casa. Cinquenta quilômetros é muito para uma maratona. Três colheres de sopa já é bastante para matar a fome dele.
Obs.: Com o adjetivo suficiente funcionando como predicativo, o verbo poderá ir para o singular ou para o plural, dependendo da flexão desse adjetivo. Ex;: Cem reais é suficiente para o que ele quer comprar. Três livros são suficientes para meu lazer de uma semana.
O verbo ser relacionado a expressões ou a idéias de tempo, distância e medida concorda com o numeral: É uma hora. Daqui até minha casa são vinte quilômetros.
Na acepção de tempo, aparecendo as expressões perto de, cerca de, pode-se usar o singular ou o plural. Ex.: Era perto de duas horas. Eram cerca de duas horas. Nas datas, a concordância deve fazer-se com o numeral se a palavra dia não estiver expressa (há um equívoco oriundo de uma lição do livro de 1961, Manual de Expressão Oral e Escrita, de Mattoso Câmara Júnior, renegada por ele mesmo, posteriormente, na segunda edição, mas generalizada entre gramáticos que pressupõem indevidamente a elipse da palavra dia e admitem a concordância tanto no singular quanto no plural): Hoje é dia 15. Hoje são 15. (É incorreto, portanto, dizer-se “Hoje é 15”.Cf. BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37.ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999, p. 558)
A expressão de realce é que é invariável se os elementos que a formam estão juntos; se estiverem separados, a concordância se fará normalmente, segundo as regras gramaticais. Ex.: “As rosas é que são belas./ Os espinhos é que picam. / Mas são as rosas que caem./ São os espinhos que ficam.”
Com títulos articulados ou nomes de países com artigo, a concordância do verbo ser se faz com o artigo. Admite-se, segundo Evanildo Bechara (Moderna gramática portuguesa. 37.ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999. p. 564-5), a concordância com o predicativo no singular só com títulos. Ex.: Os Lusíadas são (é) um belo poema. Os Estados Unidos são um país poderoso. Se o verbo do predicado não for o verbo ser, a concordância se fará obrigatoriamente com o artigo dos títulos: Os Sertões contam (plural) o episódio histórico de Canudos.

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