TUCA PUC 1977
EU QUASE QUE NADA SEI. MAS DESCONFIO DE MUITA COISA. GUIMARÃES ROSA.
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sábado, 4 de dezembro de 2010

Política: a arte da mentira


Do Blog de Roberto Romano AQUI
Sou grato ao professor Voltaire Schilling, do Rio Grande do Sul, pela inteligente escuta e refinada síntese de minha fala no Fronteiras do Pensamento.
Voltaire Schilling

in
http://noticias.terra.com.br/educacao/historia/noticias/0,,OI4585794-EI12887,00-Etica+e+Politica.html

POLÍTICA

Ética e Política

As decisões políticas devem ser tomadas em foro intimo, por meio de um grupo reduzido de privilegiados, ou, ao revés, estar em aberta sintonia dos agentes políticos para com a opinião pública? Esta é a reflexão feita pelo professor de filosofia da UNICAMP Roberto Romano exposta a seguir

Política, a flauta de Pan

Prof. Roberto Romano

Política já foi definida como a “arte do engano”, ofício específico do demagogo, dos que enganam ou seduzem os votantes com sua retórica especial. Atuam como se soprassem a flauta de Pan, atraindo os incautos para o seu redil, emitindo apenas os sons maviosos que os ouvidos deles gostam de ouvir. Por tanto a mentira passou a ser questão da análise da ciência política em todos os tempos, sempre sendo um problema atual.
Para Roberto Romano, professor de filosofia e ética, por exemplo, não se pode separar eleição da mentira, das estratégias de falsidade usadas pelos que desejam ser escolhidos nas campanhas eleitorais.

Como que para melhor ilustrar sua opinião, invoca a um dos diálogos de Platão, o famoso “Górgias” (escrito em 392-1 a. C.), o qual reproduz a contundente crítica que Sócrates fez exatamente ao uso escandaloso da mentira para fins políticos. Prática a qual os demagogos recorriam com absoluta falta de cerimônia. O pior, para o filósofo ateniense, era que a adulação irresponsável estragava o povo ainda mais, aviltando-lhe o censo de ética.


A Perplexidade de Sócrates

Neste mesmo diálogo ele narra a perplexidade de Sócrates, o mais sábios dos gregos, em seu debate com Górgias, Pólo e Calicles, seus três contendores, para com o comportamento político do povo. Se bem que qualquer cidadão procure sempre o melhor profissional ou um bom especialista quando deseja que lhe prestem um serviço (arrumar uma porta, concertar o telhado da casa, fazer-lhe um móvel, construí-lhe um navio), ou ainda recorre ao mais competente dos médicos para cuidar da sua saúde, quando se trata de fazer as escolhas eleitorais (aeresis em grego), ele não age com o mesmo discernimento nem com a mesma responsabilidade.
Deixa-se, em geral, levar pelo canto da sereia dos candidatos demagogos e acaba dando o seu voto aos tipos menos qualificados que se oferecem na praça.

Exatamente no momento em que tem que indicar para o leme do estado aquele que fosse o mais sábio, o de maior conhecimento e habilidade para o cargo, o artesão do estado por ele escolhido era o contrário disso tudo. Quem vencia o pleito na democracia era o mentiroso, o do discurso mais enganoso. Esse foi um dos motivos para que Platão designasse o regime da maioria como uma “teatrocracia”.

E tudo isso em função do que? Qual seria o motivo desta irracionalidade das coisas da política? Para ele, a resposta a essa escolha geralmente equivocada feita no sistema democrático estava no fato de que do mesmo modo que qualquer um tem apreço por sua liberdade, devota o mesmo encanto por si mesmo.

Isso é que faz com que lhe agrade ser bajulado deixando-se seduzir pela lábia dos espertos. Por conseguinte, é essa paixão infantil dos indivíduos pelo seu próprio ego (hoje diríamos narcisismo) que os conduzem ao auto-engano, refugando por isso os verdadeiros estadistas que apresentam “remédios amargos” para curarem as mazelas da sociedade.

Infantilismo do povo

Numa democracia, o povo é igual a uma criança sempre pronta a se deixar levar por um oportunista ou por um aventureiro que lhe oferece confeito envolto com palavras de mel. Mas então Platão bane da política qualquer tipo de mentira?

Não. Numa situação pelo menos ele a aceita: no caso da “mentira nobre”. Isso se o governante for por acaso o rei-filósofo, o sábio regente idealizado por ele no diálogo “A República”, que conduz as coisas do estado com eficácia e sensatez.

As decisões mais importantes, por força das circunstâncias, devem ser tomadas na intimidade do poder, circunscritas a um grupo fechado. São acertadas por uma pequena cabala em conciliábulos ou em gabinetes secretos e que não devem chegar aos ouvidos do povo. E isso ocorre em benefício do próprio povo, pois somente o magistrado magnífico, assumindo-se como “autoridade oculta, misteriosa”, é quem realmente sabe o que é e o que não é do interesse público.


O Estado Absolutista

Esta prerrogativa, respaldada por um grande nome da filosofia como o de Platão, dado ao governante, ainda que ilustrado, abriu caminho para que a mentira dita em nome do bem geral do estado e da comunidade se transformasse com o tempo na famosa Razão de Estado, a tão exaltada Raison d´Etat, defendida pelo Cardeal de Richelieu, primeiro-ministro de Luis XIII guardião do Estado-Forte na França do século XVII, que desculpava até os crimes feitos pelo executivo (ver: O Príncipe de Maquiavel e o Testamento Político do Cardeal de Richelieu).

Virou um pretexto para que os ministros ou chefes do executivo lançassem mão dela para não dar explicações públicas dos seus atos. Toda estrutura do poder do Estado Absolutista ancorou-se então na premissa de que o soberano e aqueles que o servem não devem explicações a ninguém, senão que “somente a Deus”.

Ao concentrar em si todas as deliberações importantes e também as menos importantes, fez do segredo de estado uma arte do bem governar. Era um estado controlado por uns poucos selecionados apoiados nas largas costas do Todo-Poderoso e que conduzia os súditos como um pastor faz com suas ovelhas.

O Principio da Responsabilidade

Este comportamento – o das decisões secretas - dominante em boa parte da Europa na época do auge do absolutismo, entre os séculos XV e XVII, sofreu um formidável abalo com a Revolução Puritana na Inglaterra (1642-1649), liderada por Oliver Cromwell, pois ela introduziu a semente de uma idéia que mais tarde iria se efetivar na república norte-americana (difundindo-se então para todos os demais regimes políticos similares que surgiram na modernidade).
Os ingleses a denominaram de accountability, isto é, o conceito da responsabilidade, justamente para afastar a cortina que cobria os atos governamentais e as decisões tomadas na calada da noite.

Cabia ao governante, chefe do executivo ou ministro, dar satisfações públicas dos seus atos. Apresentar ao povo nos foros indicados, em geral por um pronunciamento dado frente ao parlamento, quais eram as medidas por ele tomadas e qual sua motivação ou razão de ser.

Com isso invertia-se a situação anterior na qual as autoridades não apresentavam nenhuma justificativa do que faziam ou pensavam fazer. Para legitimar sua posição - o cargo que ocupavam, no executivo ou no legislativo - dali em diante eles tinham que dizer a verdade ao povo. Governar com transparência tornou-se uma obrigação. Alargou-se então o caminho para o Estado Democrático dos nossos dias.

O Estado no Brasil

Todavia no Brasil, o verdadeiro estado fundou-se ao contrário desse principio da responsabilidade adotado pelas nações anglo-saxãs. A corte de D.João VI, fugida de Lisboa. implantou por aqui, desde sua chegada em 1808, o Estado Absolutista. Isto é, uma força antiliberal e antidemocrática: antipovo em suma.

Quando se deu a independência, D.Pedro I em seguida, pela Carta outorgada de 1824, deturpando a idéia do Poder Moderador (concebido por Benjamin Constant, famoso constitucionalista francês), instituiu um estado que parecia uma cópia do Estado Absolutista.

Para Constant, aquele quarto poder, além de ser neutro, deveria impedir que os demais poderes (executivo, legislativo e judiciário), cometessem qualquer tipo de abuso ou escorregão tirânico.

Pois no Brasil, o Poder Moderador simplesmente foi entendido como algo bem acima dos outros, estando inteiramente à disposição do imperador, tornado-o constitucionalmente um ser superior a todos os outros: o “protetor perpétuo do Brasil”.

D.Pedro I, na verdade, ao pairar como se fora um astro-rei sobre a sociedade e suas instituições, colocou-se na posição da mais absoluta irresponsabilidade visto que não tinha que responder senão que “ao Divino” sobre seus atos ou decisões.

O resultado disso ao longo da história nacional (sendo que muito disso seguiu incorporado pela Republica de 1889), foi que o poder central, quase sempre forte e centralizador, interferiu sistematicamente nos estados, tornando letra morta o principio do federalismo (uma das razões da proclamação da república). No concreto, o país é dominado pela conjunção de interesses formados pelo Exército, pela Diplomacia e pelas Oligarquias regionais, que se consolidaram como sendo os autênticos três poderes do Brasil.

Além disso, numa aberta rejeição ao conceito da responsabilidade, as diversas constituições mantiveram o principio do “foro privilegiado”, dando imunidade aos altos escalões políticos e administrativos, prerrogativa idêntica a que os aristocratas gozavam antes da Revolução Francesa de 1789. Formam, portanto, uma casta de irresponsáveis, visto que não precisam explicar-se para ninguém.

Por conseguinte, segundo Roberto Romano, “somos uma federação que não é uma federação, nós somos uma democracia que não é democracia, nós somos uma república que não é república, porque num estado que existem seres superiores não há república.”

Nota: a exposição acima é uma síntese da intervenção realizada pelo professor R. Romano numa das seções do Fronteiras do Pensamento realizada em Porto Alegre-RS.

quinta-feira, 26 de março de 2009

São todos corruptos.....

Imagem: Do Blog do Guto Cassiano
Do Blog do Roberto Romano

BINGO, NORBERTO BOBBIO!
"A corrupção política é devida em grande parte ao financiamento dos partidos (...) São duas as situações nas quais observamos habitualmente as relações de corrupção: a que implica o sujeito político que age para conquistar ou conservar ou não perder o poder, e a outra, na qual, uma vez conquistado o mando, que é mantido bem firme nas próprias mãos, ele serve para para trazer vantagens privadas. Inútil dizer que as duas situações são estreitamente ligadas porque no mercado político democrático o poder se conquista com votos: um dos modos de conquistar o poder é comprá-lo e um dos modos de se liberar das despesas é servir-se do poder conquistado ou adquirido para obter benefícios mesmo pecuniários dos que podem usar o poder para proporcionar vantagens. O poder custa, mas rende. Se custa, deve render. O jogo é arriscado: às vezes custa mais do que rende, quando o candidato não se elege; mas mesmo assim ele rende mais do que custa. (...) Considerada a arena política como forma de mercado, onde tudo é mercadoria, ou seja, coisa que se vende e se compra, o político se apresenta, num primeiro instante como comprador (do voto), num segundo como vendedor (dos recursos públicos graças aos quais o voto se tornou dispensador potencial)(...) A constatação que na sua forma própria a corrupção só pode se desenvolver no segredo, mostra, mais do que toda outra consideração, a sua total estranheza à ética da democracia, ou seja, aquela forma de governo que exige a publicidade dos atos do governo, na medida em que se garante pela regra fundamental do controle a todo instante da pessoa que exercita o poder não em nome próprio mas em nome de todos, e que acabou ( a democracia, RR) para sempre com a política dos arcana imperii (segredos de Estado, RR) própria dos Estados autoritários do passado e dos que ainda existem. Num Estado democrático a moralidade pública não é só uma obrigação moral e jurídica, mas é mesmo uma obrigação política por excelência imposta pelo princípio que regula a vida do governo democrático, e que o distingue de todas as outras formas de governo até hoje existentes, o princípio do 'poder em público'".
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Lúcido, como sempre, texto de Norberto Bobbio, no artigo "Quale il rimédio?" sobre a corrupção política italiana e mundial. O artigo está publicado na coletânea do mesmo Bobbio intitulada L 'Utopia Capovolta (Torino, La Stampa, 1990), pp. 32 e ss. Vale a pena também ler o artigo anterior do grande jurista "Eleitos e Corruptos", no qual ele mostra a colaboração dos eleitores, essencial na escolha de políticos corruptos.Bobbio é um grande pensador e um grande homem, sobretudo porque soube analisar situações desesperadoras, como a corrupção italiana ou mundial, sem jamais se permitir ataques de racismo contra povos e coletivos menores. Ele descreve os males, sem dar o passo, muito comum em fascistas, de apontar defeitos irreparáveis em populações governadas. Ele fez o exato contrário de muitos que por aqui se imaginam maravilhosos quando se esmeram em caluniar o povo, com indisfarçável enfase racista. Erros políticos, sociais, econômicos, etc. são mais ou menos graves, de acordo com o tempo transcorrido entre seus inícios e sua vigência. A ética de um povo recolhe a história de sua experiência pregressa. Ela pode ser detestável, como a conivência de boa parte do povo italiano com o fascismo, a mafia, e outras formas de poder assassino. Mas não passa pela cabeça não racista apontar "o povo"italiano como degenerado, e outro mimos prodigalizados ao povo brasileiro por analistas que, por ignorância inclusive, pensam usar conceitos científicos quando suas observações não ultrapassam os limites de Nina Rodrigues. Sim, a ética da vida social, econômica e política no Brasil é detestável. Isto já basta para lutar contra ela, o que seria impossível se ela fosse devida a taras genéticas ou quejandos. Mas desconfio que é isto mesmo o que desejam os racistas que se julgam superiores à população "comum" alheia aos campi: eles, no fundo, aspiram por uma "solução final", que resolveria o problema de vez.Asco é o que sentimos diante de situações como a noticiada. Mas recordemos (se ainda tivermos bom senso) que situações iguais se repetem a todo instante, no mundo inteiro. Se quiserem condenar a humanidade, como Santo Agostinho e seus seguidores (Jansenius, Pascal, Calvino e outros menores) estejam à vontade. Só pratiquem a justiça e não escolham este ou aquele povo. Digam com clareza que o ser humano não presta. Aí, talvez, possam aprender algo com Hobbes e com Maquiavel.
Roberto Romano

quarta-feira, 18 de junho de 2008

D. Paulo Evaristo Arns: a escolha pela esperança em um Brasil de torturadores

Do Blog de Roberto Romano

Da Esperança à Utopia
Dom Paulo Evaristo Arns
O que os presos nos ensinaram
Foi só durante a minha estada na França que eu soube dar valor à palavra de Jesus reproduzida no vigésimo quinto capítulo do Evangelho de Mateus: "Estive preso e me visitastes."
Não apenas os meus colegas franciscanos voltavam das prisões horrorosas da Alemanha, mas também os alemães prisioneiros de guerra ocupavam o nosso convento franciscano de Garnstock, Eupen, na Bélgica. Com os primeiros travei conhecimento e amizade no primeiro dia de aulas. O grupo de alemães, alojado no Colégio Belga-Brasileiro, era quase todo composto de pessoas doentes ou feridas de guerra. Ali havia sobretudo um médico de grande experiência e dedicação sem par.
Na época do Natal e Ano Novo tivemos desejo de melhorar a qualidade da comida dos presos. Então, um padre belga me convidou a atravessar o país em todos os sentidos, pedindo nos conventos comida e agasalho para o inverno que estava chegando. Com ele percorri quase todas as casas religiosas, e não só trouxemos o jipe carregado, mas também muitas palavras de conforto para o padre que cuidava do bem-estar dos presos considerados "inimigos".
Nunca passei tanto frio, mas também não me lembro de ter tido tanto consolo pela realização da palavra de Cristo Juiz reproduzida pelo evangelista Mateus no seu vigésimo quinto capítulo.
Aliás, a convivência com presos e ex-presos de ambos os lados dessa guerra estúpida e total me fez abominar todo tipo de ditadura e aderir ao programa de solidariedade em qualquer ocasião e país.
Ao chegar à região norte de São Paulo verifiquei, de imediato, que a maior casa de detenção do Brasil e, talvez, também a maior penitenciária, ambas situadas no bairro do Carandiru, se encontravam ali.
Poucos dias depois de minha posse em Santana, veio ver-me o capelão salesiano da penitenciária, enérgico e totalmente dedicado tanto aos presos julgados quanto aos da casa de detenção, que aguardavam julgamento.
Convidou-me o padre Ismael Simões, em nome do juiz, a assistir a um julgamento rápido, dentro da detenção. Impressionou-me demais o fato de o preso estar aguardando há vinte e três anos o seu julgamento, desperdiçando quase toda a sua vida na inútil espera de justiça em São Paulo. As Irmãs do Bom Pastor, que trabalhavam na penitenciária feminina, me disseram também que quase todas as detentas mereciam ser soltas, pois tinham agido em legítima defesa e deviam poder retomar suas vidas em liberdade. Cheguei a procurar o ministro da Justiça, o secretário de Segurança e o governador de São Paulo, pedindo a revisão dos processos para presas e presos. Minha intercessão não teve qualquer resultado por causa da dureza dos corações.
Habituei-me de tal maneira às visitas à penitenciária que todas as semanas eu me oferecia para celebrar a eucaristia junto às irmãs encarregadas do presídio feminino, e comparecia ao menos uma vez por mês para visitar os presos, participar da reunião da Legião de Maria que ali funcionava, e até para cortar o cabelo e engraxar os sapatos.
Tanto o diretor quanto os demais funcionários sempre me acolheram com muita distinção, facilitando o contato necessário com os internos. Distribuir revistas e jornais, levar algumas notícias sobre resultados de recursos judiciais e ouvir as queixas dos presos era para mim um conforto na vida relativamente cômoda que levávamos fora da cadeia.
A questão, porém, tomou outro rumo. Um dia me avisaram que a irmã Maurina Borges havia chegado ao presídio feminino como presa política e iria assistir à minha celebração eucarística no dia seguinte. Através dela fiquei sabendo não só das torturas praticadas pela polícia em Ribeirão Preto, mas também do ato de excomunhão lançado sobre os autores dos crimes por meu amigo e arcebispo daquela arquidiocese, dom Felício Vasconcelos, meu antigo professor franciscano.
Também soube que, de início, os denunciados ridicularizavam tal ação da Igreja, mas aos poucos foram se sentindo marginalizados e punidos pela sociedade temente a Deus.
Foi o começo de uma ação que iria durar por toda a minha gestão de bispo em São Paulo.
Ficou conhecida, naquele tempo, a troca de presos pela restituição à liberdade do embaixador da Suíça, que fora seqüestrado. Nesse grupo também deveriam ir a irmã Maurina e um frade dominicano.
No dia anterior à execução dessa resolução extraordinária recebi de meu amigo e diretor da penitenciária o pedido para comparecer, às quatro horas da manhã, para celebrar a missa com todas as presas, inclusive a irmã Maurina, e assinar uma declaração de que ela nunca se oferecera para receber qualquer regalia, como era considerada a expulsão do Brasil para o México.
O diretor assinou o mesmo documento comigo e a irmã, mas não consegui acompanhá-la até o momento do embarque. Só mais tarde Deus me proporcionou a alegria e a graça de visitá-la no México, com a licença e a bênção do cardeal-arcebispo daquela cidade.
Fui um dia convocado com urgência pelo cardeal Rossi: "O senhor foi escolhido para visitar os dominicanos presos e verificar se realmente eles estão sendo torturados."
O único dominicano que eu conhecia até então era frei Gorgulho. Eu tomara conhecimento da transferência dos dominicanos para a prisão em São Paulo e me interessara em conhecer as razões que os levaram a ser presos.
Naquele momento, porém, não me empenhei em visitá-los ou prestar-lhes algum auxílio especial porque havia outro bispo auxiliar, dom Lucas Moreira Neves, que, por ser dominicano, devia interessar-se em dar auxílio a seus irmãos de ordem. O fato de dom Lucas não estar ligado a nenhuma região episcopal, como acontecia comigo na região norte, lhe dava uma liberdade maior. Além disso, eu considerava que qualquer ação que contestasse o regime militar teria mais eficácia se fosse exercida pelo cardeal-arcebispo de São Paulo, pois um bispo auxiliar nem era reconhecido como bispo.
Por isso, ante o pedido de dom Agnelo, respondi: "O senhor tem um bispo dominicano, e é mais interessante que ele vá, porque será certamente mais reconhecido e aceito pelos militares."
O cardeal limitou-se a insistir: "Eu peço que o senhor vá."
A palavra de meu superior, o cardeal, sempre fora ordem. Parti para o Presídio Tiradentes acompanhado de frei Gilberto Gorgulho, pedindo que ele se valesse de sua fabulosa memória para registrar cada palavra ou gesto dos dominicanos. Cuidei, é claro, de estar revestido de todas as insígnias episcopais, inclusive o solidéu. No horário estabelecido pelos militares, nós nos dirigimos ao quartel general da polícia, para visitar o primeiro preso, frei Giorgio Callegari, que vinha de uma greve de fome de seis dias. Subimos ao primeiro andar, percorremos um longo corredor, e me espantei ao ver seis soldados apontando a baioneta para nós, deixando apenas o espaço estrito para entrarmos na cela do religioso.
Dirigi-me ao grupo de soldados: "Poderia estar a sós com ele?"
A resposta não admitia argumentação: "Desculpe, recebemos ordens de acompanhá-lo. O senhor tem toda a liberdade..."
Eu não conhecia frei Giorgio até aquele momento. Resolvi abrir o jogo, dizendo que ali estava em nome do arcebispo de São Paulo e perguntando como ele estava sendo tratado.
Frei Giorgio, estudante de teologia, ainda não era padre (eu mesmo o ordenaria em dezembro de 1971). Mais tarde, ele se revelaria extrovertido e loquaz. Nesta hora, porém, nada falou. Apenas aproveitou os momentos de distração do soldado para me fazer sinais com o olhar de que não estava sendo bem tratado. Percebi o enorme medo e nervosismo que ele sentia. Logo os dois oficiais que se sentaram ao lado dele enquanto eu tentava um diálogo se movimentaram. Era o sinal de que eu não poderia ir mais longe. Nada perguntei sobre torturas e saí de lá sem ter certeza de nada, a não ser de que algo grave estava acontecendo.
A visita aos quatro frades dominicanos de nossa província de São Paulo foi bem mais dramática. Depois de passar por muitas portas e muitos guardas, chegamos ao lugar em que se encontravam as suas camas e os poucos utensílios à disposição de meus confrades presos. Mais uma vez os militares nos acompanharam e se sentaram entre mim e os prisioneiros, em atitude ameaçadora.
Repeti a mesma pergunta feita a frei Giorgio, tentando obter alguma informação, ainda que indiretamente. Frei Betto, hoje tão conhecido, espertamente se colocou atrás dos militares, de frente para nós, e com os olhos indicou o lugar em que se encontrava frei Tito de Alencar, acamado, visivelmente extenuado. Aproximei-me dele e levei um choque ao constatar o quanto ele havia sido torturado. Ensangüentado, deprimido, repetia: "O senhor está vendo... o senhor está vendo...", dirigindo-se mais a frei Gorgulho do que a mim.
Não foi difícil perceber as marcas profundas da tortura e o estado de desespero. Estivera isolado durante muitos dias no quarto, nessa situação, outra tortura. Aliás, ela penetrara em seu ser e iria tomar posse dele até lhe ordenar o ato supremo de desespero.
Eu tinha a impressão nítida de que frei Tito, generoso em sua vida, estava quase moribundo naquele momento. Não sei se ele conseguiu ouvir o que eu dizia, mas procurei comunicar que eu lá estava em nome da Igreja, para obter oficialmente informações sobre a sua condição, e de que todos podiam contar com a ajuda do cardeal-arcebispo de São Paulo.
Chegara a hora de comunicar as minhas impressões ao então arcebispo de São Paulo e meu superior, o cardeal Agnelo Rossi.
Para transmitir com precisão o que presenciara, conversei longamente com frei Gorgulho, cuja memória extraordinária guardara todas as palavras e os mais pequeninos gestos ocorridos durante nossas visitas.
Dom Agnelo sentou-se a meu lado e perguntou de imediato minha impressão. Respondi sem hesitar: "Minha impressão é de que frei Tito de Alencar foi horrivelmente torturado, e que alguma coisa grave está acontecendo com os demais."
Fiquei chocado quando o cardeal se levantou e disse: "Muito obrigado, dom Paulo, mas devo lhe confiar que outros me garantem que não há tortura nas nossas prisões."
Essas palavras ficaram ressoando em meus ouvidos até nas celebrações eucarísticas, quando me lembrava da paixão e morte de Cristo e do martírio dos primeiros apóstolos que ele nos deixou.
O seminarista dominicano Roberto Romano foi preso na rodoviária de São Paulo quando tentava embarcar para o Rio, onde pretendia avisar os pais de frei Ivo que seu filho estava detido. A depressão em que as condições da prisão o deixaram afetou seu equilíbrio emocional e ele tentou se matar, cortando os pulsos. Quando tomei conhecimento desse fato, fui visitá-lo com frei Gorgulho. Como sempre, fomos escoltados por dois soldados, apontando-nos metralhadoras. Roberto Romano, que parecia adormecido, assustou-se ao nos ver e em seus olhos surgiu uma pungente expressão de desamparo e temor, como se o fôssemos acusar pela tentativa de suicídio.
Instintivamente, a misericórdia me impulsionou em sua direção. Ignorando as armas que nos ameaçavam, sentei-me ao seu lado, abracei-o e, sem mesmo refletir, ninei-o, talvez reproduzindo o gesto amoroso com que minha mãe me confortara na infância.
Consegui outras vezes ter acesso ao Presídio Tiradentes. Lá encontrei mais ou menos uma dúzia de religiosos, todos eles encarcerados sob o pretexto de subversão. Alguns eram meus conhecidos e todos se tornaram meus amigos a partir dessa hora e da consagração aos serviços da Igreja e da humanidade. Ouvi tantas coisas e reparei em tantos ferimentos, que não tive mais dúvida de que a tortura se instalara como método de interrogatório para todos os presos políticos.
A partir dessas visitas tão deprimentes comecei a me interessar por todos eles. Fui celebrar missa para os dominicanos na prisão e pedi ao capelão militar, monsenhor Luís Marques, que servisse de intermediário e celebrasse a missa para eles. Monsenhor Marques assim o fez, até o momento em que me disse: "Dom Paulo, as coisas estão ficando perigosas para mim. Continuarei em contato, levando o seu consolo, dentro das possibilidades."
Isto deixou frei Betto e os demais religiosos bastante isolados, com pouca comunicação até com seu advogado, Dr. Mario Simas. Meus passos eram seguidos, e eu me dei conta de que também precisava tomar muito cuidado.
Aos presos políticos dediquei o primeiro dia depois de minha posse como arcebispo. Em seguida, mais sete longos anos, com horas e dias por vezes intermináveis. Quando Cristo me perguntar: "Estive preso, você me visitou?" – espero que me perdoe todas as omissões nessa área de sofrimentos indizíveis, porque não só os visitei, mas estive preso com eles, unido pela mais irrestrita solidariedade.
Estamos chegando aos anos setenta e se aproxima o momento de eu mudar de lugar e assumir responsabilidade ainda maior.
Foi o que aconteceu numa terça-feira de outubro, durante a reunião dos coordenadores da minha queridíssima região norte: "Telefonema do próprio cardeal. Venha logo atender, por favor."
Concluí a reunião com os meus padres e passei em casa para colocar roupa conveniente e apanhar os apetrechos indispensáveis para a viagem que, eu imaginava, seria até Brasília. Isso porque o cardeal havia estado em Roma e marcara uma data bem posterior para a sua volta. Deveria, portanto, pensava eu, ter acontecido alguma coisa especial.
Quando cheguei ao Palácio Pio XII, então residência do cardeal arcebispo de São Paulo, fui imediatamente levado ao escritório de Sua Eminência, que me disse: "Fui convidado pelo Papa Paulo VI a assumir a Congregação das Missões e a viajar com ele, nas próximas semanas, até o Oriente."
Formulei meus votos e transmiti meus parabéns, dizendo a dom Agnelo o quanto era importante estar ao lado do sucessor de São Pedro, sobretudo quando ele se chama Paulo VI. Ele agradeceu e me instruiu: "Vá ao telefone, por favor."
Este já estava fora do gancho, à espera de que eu atendesse ao chamado. Do outro lado da linha se encontrava o núncio apostólico, dom Humberto Mozzoni, dizendo que estava em Roma e me perguntando, em nome de Sua Santidade o Papa Paulo VI, se eu aceitava ser arcebispo de São Paulo, já que o cardeal Rossi fora transferido para Roma.
Perguntei: "É consulta ou é ordem? Se for consulta, queira responder ao Santo Padre, com todo o respeito, que não posso aceitar, por muitos motivos. Se, porém, for ordem, diga-lhe, com a mesma simplicidade, que como franciscano aprendi a nunca discutir decisões dos superiores de minha Igreja querida."
A resposta, naturalmente, demorou um pouco, pois o núncio voltou à presença do papa e, após alguns minutos, me transmitiu a confiante, mas terrível sentença: "É ordem de Sua Santidade."
Minha reação imediata foi: "Queira transmitir ao bondoso Papa Paulo VI que aceito todas as suas ordens e darei o meu sangue para cumprir essa missão tão espinhosa. Que ele me dê a bênção para tão grande missão em tempos perturbados do Brasil."
Naquele 22 de outubro de 1970 eu deixava de ser bispo da região norte para tornar-me arcebispo metropolitano de cinco milhões e novecentos mil católicos, de uns quinhentos e noventa padres na ativa e de umas cinco mil irmãs nas instituições e nas pastorais desta maravilhosa arquidiocese que é São Paulo.
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Comentário de ROBERTO ROMANO
AGRADEÇO A DOM PAULO A SUA BONDADE E SUA PRÓPRIA EXISTÊNCIA. EM DUAS OCASIÕES ELE ME SALVOU A VIDA E A ALMA. A PRIMEIRA, NO RELATO DE MINHA TENTATIVA DE SUICÍDIO. DEPOIS, QUANDO ESTAVA PRESO NO QUARTEL GENERAL DA POLÍCIA MILITAR DE SÃO PAULO, UM GRUPO DE INTEGRANTES DO ESQUADRÃO DA MORTE QUERIA ME LEVAR PARA UM DESTINO COMUM AOS PRESOS, NA ÉPOCA. SEM A ORDEM EXPRESSA DO GENERAL CONFUCIO DANTON DE PAULA, EM ENTENDIMENTOS COM A CURIA, O FATO SERIA CONSUMADO. SOU GRATO, ATÉ HOJE, AO JOVEM MAJOR DA PM QUE SE RECUSOU A ME LIBERAR AOS POLICIAIS QUE EXIGIAM, EM ALTOS BRADOS, A MINHA PESSOA.
POR ISSO, SEMPRE QUE UM JORNALISTA QUE SUPÕE ESTAR ACIMA DO BEM E DO MAL, OU GENTE ASSIM, DIZ COISAS SOBRE DOM PAULO QUE SÓ OS PIORES AGENTES DA DITADURA DIZIAM, NÃO ME CALO.
Obrigado D. paulo, pelo dom da vida.
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Meu comentário: desculpem o texto longo, mas é preciso enfatizar que na década de 70 (eu fui estudante na USP de Ribeirão Preto de 1974 a 1977) D. Paulo foi a dádiva de todos que tinham seus parentes presos. Sem a luta dele, melhor dizendo a ESCOLHA dele, teríamos perdido mais vidas nas mãos cruéis dos soldados da ditadura.
Veja abaixo como se gabam os assassinos de suas peripécias:
entrevista "A gente usava socos, choques, tapa no ouvido"
DO ENVIADO A MANAUS
O tenente da reserva José Vargas Jimenez ganhou a admiração dos colegas de farda ao lançar o livro "Bacaba, Memórias de um Guerreiro de Selva da Guerrilha do Araguaia", em 2007, no qual narra como usou técnicas de tortura aprendidas no Cigs. (CDS)
FOLHA - O sr. serviu na turma de 1972. Como foi o treinamento?JOSÉ VARGAS JIMENEZ - Foi muito duro, bem próximo da realidade. Tenho consciência de que, se não tivesse passado pelo treinamento no Cigs, eu não estaria vivo.
FOLHA - Vocês aprendiam técnicas de interrogatório?JIMENEZ - Sim. Muito das técnicas lá eram em relação aos índios que a gente prendia. Era bem brabo, mas o interrogatório psicológico é pior.
FOLHA - Pode dar um exemplo?JIMENEZ - Eu trabalhava no DOI-Codi aqui e roubaram oito pistolas. Toda a guarnição que estava de serviço foi presa. Me mandaram interrogar. Eu, à paisana, preparei uma sala e orientei um companheiro para atuar como no filme onde tem um policial malvado e outro bonzinho.Mandei o sargento trazer o soldado algemado e judiar dele. Aí pedi que meu companheiro retirasse as algemas e ofereci um cafezinho, um cigarrinho. Ele me delatou que as armas estavam na casa de um civil. Prendemos um senhor que tinha duas filhas lindas. Na PF, que efetuou a prisão, mandei juntar os dois e deixei eles lá por cinco minutos. Depois falei pro civil que ele era mentiroso, pois o soldado já havia me ajudado a recuperar quatro armas. Saí e chamei três agentes da PF, grandes, barbudos e com cara de mau. Na frente do homem [civil], perguntei aos agentes: "Vocês viram as duas filhinhas dele lá na favela, uma de 12 e uma de 14 anos. Vocês gostaram? Vão lá comer elas, podem ir estuprar elas". Para proteger as filhas ele entregou tudo.
FOLHA - E a tortura física?JIMENEZ - Eles faziam na gente primeiro. Nos amarravam, faziam a gente passar fome e nem deixavam dormir. A gente usava socos em pontos vitais, choques elétricos, dava tapa no ouvido e botava o sujeito em cima de duas latinhas de leite condensado. Teve um camponês que encontramos no meio da selva -eu, Curió e meu grupo- que não queria falar onde estavam os guerrilheiros.Pegamos ele e botamos no pau-de-arara, só que o pau-de-arara era um viveiro de formiga. Nós besuntamos ele de açúcar, colocamos sal na boca dele e deixamos ali. Em dez minutos ele falou tudo.
FOLHA - Qual a reação ao livro no meio militar?JIMENEZ - Gostaram muito. Mandei uns livros para lá [Cigs], autografados. O major Coimbra disse que [ela] vai servir para a aula dos alunos. Disse que o comandante [coronel Antonio Barros] me convidou para ir lá dar uma palestra e ser homenageado com o facão do guerreiro de selva [símbolo do militar da Amazônia]. Um coronel que foi meu chefe mandou pedir dez livros: mandou cinco para a Aman [Academia Militar das Agulhas Negras] e cinco para EsSA [Escola de Sargentos das Armas], para servir de orientação para os guris
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Dá para pensar sobre os três assassinatos dos jovens no Rio de Janeiro.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Carnaval...


Do Blog do Professor Roberto Romano

CELSO LUNGARETTI
FESTA DA IGUALDADE, DA LOUCURA E DO PRAZERA origem do carnaval perde-se na poeira dos tempos. Há quem tente remontá-la ao culto agrário praticado por povos que existiram 10 mil anos antes de Cristo: homens e mulheres mascarados, com corpos pintados e cobertos de peles ou plumas, saíam em bandos e invadiam as casas, fazendo terríveis algazarras.Outros autores lembram as festas alegres do paganismo, como a de Ísis e a do Boi Ápis, entre os egípcios, e as bacanais, lupercais e saturnais dos romanos.Suetônio, historiador da Roma antiga, refere-se às saturnais como „desenfreada libertinagem, cínica palhaçada". E diz que, durante esse período „todos pareciam enlouquecer‰. Armavam-se grandes mesas à frente das casas para senhores e escravos comerem à vontade, sem distinções. E os escravos tinham o direito de dizer verdades a seus donos, ridicularizá-los, fazer o que quisessem.A componente libidinosa do carnaval é inegável em todos os textos antigos. Sabe-se, p. ex., que o termo carnaval deriva do latim carrum novalis, deignação de um tipo de carro alegórico da Grécia e Roma antigas. Dezenas de pessoas mascaradas caminhavam a seu lado e ele trazia no bojo „mulheres nuas e homens que cantavam canções impudicas". A Idade Média, com a rígida tutela religiosa sobre a vida social, não poderia trazer acréscimos significativos ao carnaval. Mas, pelo menos, não conseguiu extinguir esses festejos, que continuaram existindo como um contraponto à monótona existência dos feudos.Contam alguns textos, inclusive, que os padres, depois de pregarem em vão contra o carnaval, acabavam convidando os fiéis a concentrarem as comemorações na praça da igreja, para que tal logradouro não ficasse desvalorizado... A Renascença viria libertar os europeus da sensação de culpa que a religião procurava insistentemente associar ao prazer e à alegria. Os distantes e etéreos paraísos prometidos nos púlpitos, bem como as dantescas descrições do inferno que esperava os pecadores, tornaram-se insuficientes para afastar o povo da folia. A grande festa pagã renascia em todo o seu esplendor. O medonho entrudo português ˆ Para nós interessa, sobretudo, o carnaval português, conhecido como entrudo. Até fins do século 19, o nosso carnaval teria as mesmas características do „medonho entrudo português, porco e brutal", a que se refere uma historiadora, assim descrevendo-o: „pelas ruas de Lisboa, generalizava-se uma verdadeira luta em que as armas eram os ovos de gema, ou suas cascas contendo farinha ou gesso, cartuchos de pó de goma, cabaças de cera com águas de cheiro, tremoços, tubos de vidro ou de cartão para soprar com violência, milho e feijão que se despejam aos alqueires sobre as cabeças dos transeuntes..."A pesquisadora Eneida, em sua História do Carnaval Carioca, relaciona diversos casos para comprovar que, a exemplo do que ocorria na Roma de Suetônio, o carnaval aqui também se constituía no único período em que os escravos desfrutavam de uma certa liberdade. E conclui: „Parece que uma das características do carnaval é dar aos escravos de qualquer época o direito de criticar e zombar de seus senhores".Os limites da democracia, entretanto, sempre foram muito exíguos no Brasil, então houve também medidas caracteristicamente discricionárias. Em 1857, o chefe de polícia do Rio de Janeiro lançou um edital proibindo „o jogo do entrudo dentro do município. Qualquer pessoa que o jogar incorrerá na pena de 4$ a 12$ e não tendo com que satisfazer, sofrerá oito dias de cadeia, caso o seu senhor não o mande castigar no calabouço com cem açoites". Ou seja, multa para os brancos proprietários, xilindró e chicotadas para os escravos. A relatividade vem de longe... A agressividade igualmente se evidencia em todos os textos da época. Sabe-se, p. ex., que o único objeto de divertimento do carnaval brasileiro era o limão de cheiro, uma imitação de laranja, com invólucro de cera e água fétida por dentro.O pintor e engenheiro Jean-Baptiste Debret, que aqui veio com a Missão Artística Francesa em 1818, ficou estarrecido com a selvageria explícita: „Vi jovens negociantes ingleses passearem, com orgulho e arrogância, acompanhados por um negro vendedor de limões cujo tabuleiro esvaziavam pouco a pouco, jogando os limões às ventas de pessoas que nem sequer conheciam".Episódios deste tipo o marcaram tanto que um de seus desenhos mais famosos, Cena de Carnaval, mostra uma negra atacada na rua por um crioulo de cartola, que lhe esfrega no rosto um bocado de goma, enquanto o outro negro ensopa o primeiro com água de uma longa seringa.Apenas no final daquele século a agressividade foi se atenuando e as bisnagas passaram a conter, ao invés de água suja, líquidos menos repugnantes, como vinagre, groselha e vinho; idem os limões de cheiro, cujas águas fétidas e até urina foram trocadas por inofensivos perfumes.Zé Pereira! Bum, bum, bum! ˆ O personagem mais característico do carnaval brasileiro surgiu em meados do século 19 e logo se tornou uma instituição popular. Trata-se do Zé Pereira, calcado na figura do sapateiro José Nogueira de Azevedo Pereira.Português de nascimento, ele um dia entretinha-se com outros patrícios, recordando as romarias, estúrdias e estrondos da pátria distante. A saudade era tanta que eles resolveram sair à rua, ao som de zabumbas e tambores alugados às pressas, para fazer uma passeata pela cidade.Foi um enorme sucesso, logo copiado por dezenas de grupos semelhantes, fazendo com que o Zé Pereira se transformasse num personagem mística, identificado com o próprio carnaval („E viva o Zé Pereira/ Pois que a ninguém faz mal/ E viva a bebedeira/ Nos dias de carnaval").Para a historiadora Eneida, o Zé Pereira „foi essencialmente o carnaval do pobre. Tão fácil, no meio da miséria reinante, sair à rua com bumbos e tambores, uma camisa qualquer, uma calça de qualquer espécie e fazer barulho, alegrar com um ritmo efusivo as ruas e os bairros!".Seu desaparecimento, no começo do século passado, é indício de que o carnaval perdia espontaneidade, tornando-se festa opulenta e regulamentada, sem espaço para os improvisos populares. Mas, a alma do Zé Pereira sobrevive nos blocos dos sujos, que insistem em se formar sem ensaios e mensalidades, para existir num momento e viver intensamente esse momento, na melhor tradição do carnaval.Samba e umbigada ˆ Até o início do século passado samba e carnaval tiveram trajetórias distintas, que foram convergindo no sentido de uma perfeita complementação.O samba remonta à chegada no Brasil de escravos negros, que logo foram introduzindo seus ritmos, danças, cantigas, costumes e crenças. Assim, após o trabalho exaustivo (ou nos raros dias de folga), eles dançavam e batucavam com seus instrumentos rudes, nos terrenos das fazendas, engenhos e canaviais. Alegria sofrida, ritmo de quem esforçava-se por esquecer a tristeza, as privações e os maus tratos.O batuque tipicamente africano foi caindo em desuso com o desaparecimento dos nativos daquele continente. Uma variação abrasileirada espalhou-se por todo o País, já com a denominação de samba. E, na zona rural, o encontro de culturas deu origem a uma derivação pitoresca, os chamados sambas sertanejos, em que homens e mulheres participavam da roda cantando em coro, ao som de instrumentos de percussão e da viola de arame.Segundo um cronista da época, „os dançadores formam roda e, ao compasso de uma viola, move-se o dançador do centro, avança e bate com a barriga de outro da roda, uma pessoa de outro sexo. Não se pode imaginar uma dança mais lasciva do que esta, razão por que tem muitos inimigos, principalmente entre os padres". Lenço no pescoço ˆ A fase heróica do samba foi a da pernada carioca, diversão a que se entregavam os remanescentes dos inúmeros grupos de capoeiristas existentes no Rio de Janeiro em fins do século 19. Tratava-se de uma batucada braba, na base da pernada e cabeçada, regada com doses cavalares de cachaça („Samba de negro/ Não se pode frequentá/ Só tem cachaça/ Pra gente se embriagá").Os conflitos eram corriqueiros e a presença da polícia, também, dando origem a verdadeiras batalhas campais, em que instrumentos musicais serviam como armas e algumas cabeças acabavam sempre rachadas („Tava num samba/ Lá no Sarguero/ Veio a polícia/ Me jogou no tintureiro").O samba era tido como coisa de pretos, malandros e marginais. A posse de um violão ou qualquer outro instrumento de samba bastava como prova de que o indivíduo era vadio e merecia ser preso. E a brutalidade da polícia tinha resposta à altura por parte dos bambas. Mortes ocorriam de lado a lado.Foi a época do tipo celebrizado por Wilson Batista, com seu andar gingado, chapéu tombado, olhar dormente, fala cheia de gírias, lenço de seda no pescoço (para proteger-se das navalhadas), camisa listrada, calças largas (boca-de-sino) ou balão (bombacha) caídas sobre os sapatos de bico fino com salto carrapeta (mais tarde, tamancos) e, evidentemente, a inseparável navalha.Os versos do sambista da Lapa o descreve admiravelmente: „Meu chapéu de lado/ Tamanco arrastando/ Lenço no pescoço/ Navalha no bolso/ Eu passo gingando/ Provoco desafio/ Eu tenho orgulho de ser vadio".Trata-se de uma figura que, como o verdadeiro carnaval, sairia de cena entre as décadas de 1930 e 1940.O Pinto e os índios ˆ O carnaval era uma pedra no sapato dos autoritários de todos os matizes. Os chefes de polícia, desde meados do século 19, lançaram uma interminável série de editais, ora proibindo, ora regulamentando os festejos.No carnaval carioca de 1888, entre as muitas determinações draconianas, figurava a de que, „sem a autorização do Chefe de Polícia, não podem aparecer críticas, principalmente ao Governo".Episódios anedóticos ocorreram aos montes. Um delegado carioca chamado Alfredo Pinto, p. ex., notabilizou-se pela perseguição aos foliões. Em 1909, tentou proibir as passeatas e o Zé Pereira, sendo obrigado a voltar atrás por causa dos protestos da população e da imprensa. Furioso, voltou à carga proibindo as fantasias de índio, sob a alegação de que os tacapes poderiam ser utilizados como armas. Os blocos contra-atacaram com refrões provocativos que difundiram por toda a cidade, tipo „Eu vou beber/ Eu vou me embriagar/ Eu vou sair de índio/ Pra polícia me pegar". Em outros, houve até alusões picarescas ao sobrenome do delegado...Domesticação e turistização ˆ Nem a polícia do terrível Filinto Müller, durante a ditadura getulista, conseguiu pôr fim aos festejos de Momo. De repente, entretanto, o povo perdeu seu carnaval, que virou um próspero negócio para as escolas de samba e foi alçado a item prioritário da promoção do turismo.Comemorações rigorosamente planejadas substituíram as iniciativas espontâneas do povão. Os foliões se tornaram passivos espectadores dos suntuosos e multicoloridos desfiles. Sambistas passaram a competir encarniçadamente por classificações espúrias.Enfim, a festa do congraçamento cedeu lugar à disputa calculista. O que a polícia não conseguiu com seus cassetetes, conseguiram os negociantes com seus talões de cheque. Como explicar essa transição negativa? Dizer que, com a industrialização, fecharam-se os espaços para a desordem remanescente da sociedade rural? Que o carnaval morreu ao se institucionalizar? Que nosso povo já não tem humor nem revolta? Explicações podem ser alinhavadas às dezenas. Mas, nenhuma servirá como consolo. O certo é que uma genuína explosão de vida se tornou ritual de repetição. E o povo se conformou em não inventar mais seus festejos nem improvisar seus itinerários, recebendo como contrapartida lugares confortáveis nas arquibancadas dos sambódromos e o direito à licenciosidade em salões sufocantes.Enfim, foi expulso das ruas e não se dispõe mais a lutar mais por elas. Obs: escrevi este texto em 1980, para a edição de carnaval de uma revista masculina, assinando-o com o pseudônimo de André Mauro. Por considerá-lo ainda atual, decidi manter a redação original. Alguns trechos dispensáveis foram deletados.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Vejam entrevista com Roberto Romano

Julgamento do mensalão resgata a confiança no STF, diz Roberto Romano
Veja a entrevista em vídeo da Redação O Supremo Tribunal Federal decidiu abrir processo criminal contra todos os 40 denunciados de envolvimento no esquema do mensalão. Entre os réus, estão o ex-ministro José Dirceu e três ex-dirigentes do PT, José Genoino, Delúbio Soares e Silvio Pereira. O desfecho do julgamento das denúncias surpreendeu agradavelmente o professor de ética e política da Unicamp, Roberto Romano. "Boa parte a opinião pública brasileira se sentiu justiçada", diz. Para ele, o ponto mais importante do acolhimento das denúncias foi provar que não havia qualquer complô contra o governo, conforme este apregoava, e que as acusações baseavam-se em fatos concretos.
O professor atribui boa parte do sucesso do julgamento ao trabalho do relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, cuja peça acusatória foi isenta e muito bem feita. "Será muito difícil o trabalho da defesa", acredita.
E, na opinião dele, se a investigação também for bem feita, há grandes chances de os réus se transformarem em culpados. "Parece-me que o caminho é sem volta", afirma. Como "cabeça" do esquema de corrupção, Romano acredita que o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, será o mais penalizado na aplicação da sentença.
O grande legado desse julgamento, para Romano, é o "resgate da confiança da população em uma instituição que não era bem vista". Embora o STF nem sempre tenha julgado a favor do governo, ele lembra de experiências amargas que abalaram a imagem da instituição e o passado quase nulo de condenações. "Somos muito castigados em termos institucionais no Brasil", lamenta.Se esse é um passo rumo ao fim da corrupção? O professor acredita que não. Primeiro, devido a existência do foro privilegiado, que Romano classifica como um "passaporte para a delinqüência política". E, segundo, devido à centralização por parte da União da maior parte dos tributos brasileiros. É nesse ponto que começa a "feira de apoio ao governo", nas palavras de Romano. Isso porque, para receber verbas, Estados e municípios devem votar a favor do governo, explica. Na opinião do professor, é assim que muitos políticos se mantêm no poder: ao levar recursos para sua região, o que é algo difícil e realmente "surpreendente" dada a centralização do Estado, diz o professor, a população acaba votando no político, ainda que ele seja corrupto. Para ele, essa situação só será alterada quando ocorrer uma mudança na forma como são distribuídos os impostos no Brasil.
Postado por Roberto Romano
Entrevista de Roberto Romano a Herodoto Barbeiro CBN nacional
Conselho de Ética deve votar amanhã dois pareceres contra o presidente da Casa, Renan Calheiros. O voto pode ser secreto, mesmo sob protestos
Entrevista com Roberto Romano, professor de Ética e Política da Unicamp
Postado por Roberto Romano

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