TUCA PUC 1977
EU QUASE QUE NADA SEI. MAS DESCONFIO DE MUITA COISA. GUIMARÃES ROSA.
Mostrando postagens com marcador texto de José Augusto carvalho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador texto de José Augusto carvalho. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Muito bom....


ANÁLISE DE TRÊS EXPRESSÕES
José Augusto Carvalho, Professor Dr da Universidade Federal do Espírito Santo
1. Correr atrás do prejuízo – Não poucos gramáticos se têm dedicado a atacar essa expressão, acreditando que “correr atrás do prejuízo” só pode significar a intenção de alcançar o prejuízo ou almejá-lo.
“Ir ao encalço de” ou “ir à procura de”, com o objetivo de alcançar, é apenas um dos sentidos da expressão “correr atrás de”, como está no Aurélio, no verbete “atrás”. Esse é o sentido usual, digamos “normativo”, da expressão.
O Dicionário de expressões populares portuguesas, de Guilherme Augusto Simões (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1993), o Novo Dicionário da gíria brasileira, de Manuel Viotti (3.ed. Rio de Janeiro, Tupã, 1957), e o Tesouro da fraseologia brasileira, de Antenor Nascentes (3.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986), são omissos, porque a expressão é recente e se teria originado da gíria esportiva.
Se uma pessoa que está em segundo lugar pretende vencer uma corrida, tem de correr atrás de quem está em primeiro lugar, não para alcançá-lo, mas para ultrapassá-lo. Da mesma forma, quem corre atrás de um prejuízo não pretende alcançá-lo, por já estar em desvantagem, mas ultrapassá-lo ou vencê-lo.
As gírias, freqüentemente, expressam até mesmo o contrário do que dizem seus termos, numa leitura normativa. Assim, “entrar bem” significa “sair-se mal”; “entrar pelo cano” não significa “ficar dentro de uma tubulação”; “dar um tapa”, na gíria do futebol, não significa “dar uma bofetada na bola”, mas chutá-la com pouca força, como se fosse um tapinha e não um pontapé. Analisar a gíria com visão denotativa ou normativa é desconhecer o fato de que gíria é uma linguagem especial. Basta ler o glossário do maravilhoso livro Desabrigo e outros trecos, de Antônio Fraga (3.ed. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999), para verificar que a gíria tem sua lógica própria.
Se o leitor disser “correr atrás do prejuízo”, estará usando acertadamente uma expressão da gíria brasileira. A gíria não tem a obrigação de seguir padrões normativos.
2. Risco de vida / risco de morte – Muita gente pensa que é incorreto dizer “risco de vida”, uma vez que o risco é que leva ou pode levar à morte.
O raciocínio é unilateral. Não leva em conta um fato sintático: em “risco de vida”, o termo “de vida” é complemento nominal de “risco”, isto é, se “risco” fosse verbo, “de vida” seria objeto. “Arrisco a vida” significa “ponho a vida em risco”, “assumo risco de vida”.
A expressão “risco de morte” também é correta, e leva em conta outro fato sintático: em “risco de morte”, “de morte” é uma locução adjetiva que aí exerce função de adjunto adnominal, isto é, “de morte” significa “mortal”. “Risco de morte” é sinônimo de “risco mortal”.
Portanto ambas as expressões são absolutamente corretas: risco de vida (“de vida” é complemento nominal de “risco”) e risco de morte (“de morte” é adjunto adnominal de “risco”).
Um reforço no estudo da análise sintática seria importante para um melhor entendimento de questões como essas.
3. A olhos vistos – Construção clássica da língua que se explica pela voz depoente: o particípio parece indicar que o verbo está na voz passiva, mas o significado é ativo: a olhos que vêem. Ex.: “O menino crescia a olhos vistos.” O mesmo caso de voz depoente ocorre em “homem lido” (que lê), “Ele chegou aqui almoçado” (ele almoçou), etc. Falta um estudo mais profundo da diátese (vozes verbais) nas nossas gramáticas...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Linguagens...


COLONIALISMO CULTURAL

Enviado pelo Professor José Augusto Carvalho
Professora Dr da Universidade Federal do Espírito Santo.


Não sou purista, mas há certos vícios lingüísticos que devem ser evitados, não por serem erros e ainda menos por serem vícios, mas por serem uma forma de subserviência à dominação cultural estrangeira, uma forma de colonialismo cultural.
É admissível e até necessário que a linguagem específica da tecnologia, da ciência ou de uma profissão, como a terminologia dos computadores, por exemplo, mantenha o uso de empréstimos (como deletar), de decalques (como salvar, em lugar de “guardar”) ou de estrangeirismos (como e-mail, download, backspace, shift, etc.), até porque sua universalidade os torna cômodos. Mas a existência de equivalentes semânticos no nosso léxico deveria inibir o uso ou o abuso desses recursos lingüísticos ou metalinguísticos estranhos ao nosso idioma, sobretudo quando não se trata de linguagem técnica, nem específica de uma área do conhecimento humano.
O sufixo –ância ou –ança , legitimamente português, exprime ação, vigilância, e não raro forma substantivos a partir de verbos, como matança (matar), governança (governar), esquivança (esquivar), usança (usar), criança (criar), poupança (poupar), gastança (gastar), esperança (esperar), confiança (confiar), ignorância (ignorar), observância (observar), constância (constar), distância (distar), militância (militar) instância (instar), predominância (predominar), etc. Também exprime porção, coletividade, como em: vizinhança (vizinho), molhança (molho); e aumento, como em: carrança (que designa pessoa presa às tradições), festança (festa), etc.
Privança é um substantivo de uso clássico na língua, formado a partir do verbo privar. Por uma questão de colonialismo cultural, acabou sendo substituído por privacidade, neologismo recentemente incorporado à língua a partir do inglês privacy. Ora, os substantivos formados com o sufixo –(i)dade se originam basicamente de adjetivos, como realidade (real), elasticidade (elástico), agilidade (ágil), felicidade (feliz), humanidade (humano), crueldade (cruel), lealdade (leal), etc. Raramente um substantivo é a base da formação de outro substantivo em –dade, como irmão (irmandade). Privacidade teoricamente, se não fosse um anglicismo, deveria ter sido formado a partir de um hipotético adjetivo terminado em –z ou em –ico, à semelhança de vivaz (vivacidade) ou elétrico (eletricidade). Como esse adjetivo (privaz ou prívaco) não existe, a má-formação do nome privacidade denuncia a bastardia do empréstimo. O ideal seria retomar a forma vernácula privança ou adotar o nome também já existente na língua, dicionarizado e mais adequado, formado a partir de privativo: privatividade.
Outro neologismo formado desnecessariamente a partir do inglês é o verbo internalizar e seu particípio internalizado, de uso generalizado na literatura linguística, sobretudo depois do advento da gramática transformacional. Ora, esse sufixo –izar forma verbos a partir de substantivos, como horrorizar (horror), atemorizar (temor), aromatizar (aroma), martirizar (mártir); ou de adjetivos, como realizar (real), suavizar (suave), vulgarizar (vulgar), finalizar (final), formalizar (formal), etc. Como não existe nenhum adjetivo “internal” em português, o verbo adequado, em lugar de internalizar, deveria ser interiorizar (de interior).
Também marca de subserviência cultural, parece-me, é a grafia híbrida do nome da maior cidade norte-americana: Nova York.
Hibridismo é o nome que se dá a uma palavra composta de formas de línguas diferentes. Assim, goleiro, por exemplo, é formado por elementos de duas línguas distintas: do inglês goal mais o sufixo português –eiro (que aparece em brasileiro, açucareiro, cajueiro). Além desse hibridismo vocabular, há o hibridismo gráfico. A grafia preferida e divulgada pela mídia do nome dessa cidade americana é “Nova York”, em que se mistura a grafia portuguesa (Nova) com a grafia inglesa (York). Esse hibridismo é tão deplorável quanto “New Iorque”. Ou se escreva à americana “New York” ou se escreva à portuguesa “Nova Iorque”. Misturar as grafias é profundamente lastimável. Sobretudo porque quem nasce lá é nova-iorquino, com i, e não “nova-yorkino”, com y, apesar da absurda aceitação recente de “nova-yorkino” pelos “donos” da língua, os autores do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa... A nova ortografia aceita o y para antropônimos e topônimos originários de outras línguas e em seus derivados, mas a forma “nova-iorquino” é legitimamente vernácula. A forma “nova-yorkino” não existe em nenhum dicionário anterior a essa reforma ortográfica inútil, burra e inoportuna.
Como disse, não sou purista. Mas parece-me de mau gosto usar estrangeirismos desnecessários, em detrimento de expressões ou de grafias legitimamente vernáculas.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A vírgula, por José Augusto Carvalho

José Augusto Carvalho, professor Dr da Universidade Federal do Espírito Santo. Mestre em Linguística pela Unicamp. Dr em Letras pela USP.

As gramáticas costumam ensinar que a pontuação representa pausa de maior ou menor duração, segundo se usa ponto final, ponto-e-vírgula e vírgula. A pontuação, contudo, ainda que se tenha originado da entoação, transformou-se num problema exclusivamente sintático, independente de pausas ou de inflexões de voz. Assim, uma regra básica para o emprego da vírgula é de cunho negativo: não se usa a vírgula nunca entre os elementos constitutivos de um sintagma (sintagma é todo conjunto formado por um determinado e um determinante; assim, o adjetivo e o substantivo formam um sintagma; o verbo e o seu objeto formam um sintagma; o sujeito e o predicado formam um sintagma, etc.). O que se deve virgular, além dos termos coordenados entre si, é todo encaixe que estiver situado entre os elementos do sintagma ou todo termo que estiver deslocado. E só.
No exemplo seguinte, as vírgulas (algumas dispensáveis) ou separam encaixes ou separam termos coordenados: “Paulo, Maria e José, irmãos de Antônio, ontem, às 3 horas, foram, sem a ajuda de nenhum guia, ao centro da cidade.” A frase “nua”, sem encaixes, seria a seguinte: “Paulo, Maria e José foram ao centro da cidade.” A vírgula, na frase “nua”, apenas separa termos coordenados (na enumeração). Circulou pela Internet um texto formado por vários pares de frases construídas de modo que a posição da vírgula é suficiente para alterar o sentido de cada frase em cada par, como “Não, espere! / Não espere.”, “Aceito, obrigado./ Aceito obrigado.” “Esse, juiz, é corrupto./Esse juiz é corrupto.” “Não queremos saber. / Não, queremos saber.” Um dos pares de frases, contudo, contém um erro: “Isso, só ele resolve./ Isso só ele resolve.” Não existe vírgula nenhuma nem na primeira, nem na segunda frase, porque não se separa o verbo do seu objeto. A entoação ou a posição da palavra “só” é que vai ditar o sentido, não a vírgula. Othon M. Garcia, em Comunicação em prosa moderna (Rio de Janeiro: FGV, 1967, terceira parte, cap. 4, item 4.3.1, p. 268-9), mostra em frases desse tipo que é a posição da palavra “só” que determina o sentido. O exemplo dele é: “Só ele ganhou mil cruzeiros pela remoção do lixo acumulado durante duas semanas.” Eis um exemplo mais curto para ilustrar que é a posição da palavra “só” e não a pontuação que responde pelo sentido: “Só ele chorou” (ele foi o único a chorar); “Ele só chorou” (ele não fez outra coisa a não ser chorar); “Ele chorou só” (ele chorou sozinho). Assim, em lugar da vírgula que não existe, o par de frases da Internet deveria ser: “Só ele resolve isso” (ele é o único que pode resolver isso); “Ele resolve só isso” (a única coisa que ele resolve é isso). Poderia haver vírgula em “Ele, só, resolve isso”, em que “só”, significando “sozinho”, “sem a companhia de outra pessoa”, funciona como um “encaixe”, como um aposto (e não como um predicativo).
Mais interessante para o uso da pontuação (não apenas da vírgula) é a seguinte estrofe cuja autoria, infelizmente, ignoro, e que se encontra na p. 86 do livro de M. Cavalcanti Proença, Exercícios de português (5.ed. Rio de Janeiro: Ed. Distribuidora de Livros Escolares Ltda, 1966): “Três belas que belas são / Querem que por minha fé / Eu diga qual delas é / Que adora o meu coração / Se consultar a razão / Penso que amo Soledade / Não Lia cuja bondade / Ser humano não teria / Não aspiro a mão de Iria / Que não tem pouca beldade.” – Exceto pelo ponto final, não há outra pontuação nessa décima. O sentido muda de acordo com a colocação de vírgula, de ponto-e-vírgula, de ponto de interrogação e de ponto de exclamação: o “eu” da estrofe pode afirmar que ama qualquer uma das três moças, excluindo as demais, ou amar a todas três, sem excluir nenhuma, ou afirmar que não ama a nenhuma delas. Vimos que a vírgula só se usa para separar termos coordenados, termos encaixados ou termos deslocados. Exemplo: “O menino, filho da lavadeira, ofereceu, com alegria, à mãe, pelo aniversário dela, um rico presente, certamente comprado com sacrifício no dia anterior.” A frase “nua”, sem os encaixes e deslocamentos, é a seguinte: “O menino ofereceu à mãe um rico presente.” É claro que há outros usos da vírgula, como separar o local e a data, nas cartas (Vitória, 08 de setembro de 2009), assinalar os pleonasmos gramaticais (Esse dinheiro, ganhei-o com sacrifício.), marcar as elipses (Ele foi ao cinema; e eu, ao teatro.), isolar as expressões explicativas (como “isto é”, “aliás”, “ou seja”) e separar orações (embora nem todas).
A vírgula também distingue uma oração adjetiva explicativa de uma restritiva. A idéia básica, contudo, é a de que nunca se usa a vírgula para separar os elementos constitutivos de um sintagma, isto é, não se separa o termo determinante do termo determinado. O uso da vírgula separa do fundamental o aposto explicativo, o aposto distributivo, o aposto enumerativo e o aposto circunstancial.
A frase “O motorista, cansado, dormiu” difere da frase “O motorista cansado dormiu” e da frase “O motorista dormiu cansado”. Na primeira frase, “cansado” é aposto circunstancial: a causa de o motorista ter dormido é o fato de que ele estava cansado. Na segunda frase, “cansado” é adjunto adnominal, apenas determina o substantivo “motorista”. Na terceira frase, “cansado” é predicativo do sujeito, no predicado verbo-nominal, isto é, cansado é o estado em que ele se encontrava quando dormiu. As brincadeiras com a vírgula servem como motivação para a aprendizagem do seu emprego. Melhores que as frases da Internet que vimos acima são as já conhecidas de longa data pelos professores de português, como esta de Gonçalves Dias, do poema Y-Juca Pirama: “Tu, covarde, meu filho não és” (Tu não és meu filho e és covarde). A mudança de posição de uma vírgula dá sentido oposto à frase: “Tu covarde, meu filho, não és” (Tu és meu filho e não és covarde). O primeiro verso da estrofe 120, de Os Lus. canto III: “Estavas linda Inês posta em sossego” (Estavas linda, Inês, posta em sossego/ Estavas, linda Inês, posta em sossego.) Interessante também é uma frase recentemente divulgada também pela Internet: “Se o homem soubesse o valor que tem a mulher ficaria de joelhos a seus pés.”Um machista poria a vírgula depois de “tem”; uma feminista poria a vírgula depois de “mulher”. Outra frase em que se pede o emprego da vírgula é uma pegadinha: “Um navio brasileiro entrava no porto um navio português.” As vírgulas seriam usadas para separar o adjunto adverbial de lugar “no porto”. O problema é que “entrava” não é forma do verbo “entrar”, mas forma do verbo “entravar”, que significa “obstruir”. Outra pegadinha é uma frase com inversão sintática que se apresenta a alguém com o pedido de assinalar o lugar e o sinal de pontuação que se deve pôr: “Um fazendeiro tinha um carneiro e a mãe do fazendeiro era também o pai do carneiro.” Um ponto ou um ponto-e-vírgula depois de “mãe” torna a frase compreensível: “Um fazendeiro tinha um carneiro e a mãe. Do fazendeiro era também o pai do carneiro.” O ponto-e-vírgula, por sua vez, usa-se basicamente para separar termos coordenados em cujo interior já exista vírgula. Ex.: Maria saiu, porém não voltou / Maria saiu; não voltou, porém.” (O ponto-e-vírgula é usado na segunda frase do par porque a segunda oração, coordenada à primeira, está com vírgula internamente. A vírgula dessa segunda oração se justifica porque a conjunção está deslocada.)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Erros comuns


texto enviado pelo Professor José Augusto Carvalho
ERROS MAIS COMUNS
José Augusto Carvalho
Professor Dr da Universidade Federal do Espírito Santo
Há alguns poucos erros que se cometem no dia-a-dia e que, por não soarem mal, são encontradiços até mesmo em textos de bons usuários da língua.
1. Face a, frente a. – As locuções prepositivas que têm por núcleo um substantivo têm sempre duas preposições: uma antes e outra depois do substantivo (exceto “graças a” e “mercê de”, exceções que expliquei no meu artigo “Dicas para quem escreve (I)”, publicada neste espaço no dia 17-04-06): a favor de, em nível de, com respeito a, em atenção a, em função de, a fim de, por causa de etc. Como face e frente são substantivos, temos: à frente de, em frente a, em frente de. Vale dizer: “frente a” e “face a” não existem.
2. Um óculos – As lentes que se usam diante dos olhos para corrigir defeitos visuais ou proteger o usuário da luz forte se chamam óculos, sempre no plural: meus óculos se quebraram, comprei outros óculos, etc. Não se deve usar nunca o determinante de óculos no singular. Não se diga, pois, “o meu óculos” ou “comprei um óculos”, por exemplo, mas “os meus óculos”, “comprei óculos”
3. Ele foi perguntado se daria entrevista – A frase é duplamente incorreta. Não existe objeto direto na voz passiva em português, porque o objeto direto da voz ativa se transforma em sujeito da voz passiva. Por exemplo: a) Ele viu a rosa (voz ativa) – b) A rosa foi vista por ele (voz passiva). O objeto direto “a rosa”, da oração a) passou a sujeito da oração b). A oração começada pelo SE, no exemplo inicial, é objeto direto de “daria”, mas “perguntado” está na voz passiva, o que não é aceitável. Corrija-se: Ele foi inquirido sobre se daria entrevista. Note-se que “perguntado” foi substituído por “inquirido”, porque “perguntar” é transitivo direto de coisas e indireto de pessoas: perguntar alguma coisa a alguém. O objeto direto da ativa se transforma em sujeito da passiva, como vimos, mas o objeto indireto permanece objeto indireto quando se faz a transformação da ativa em passiva: “Dei um emprego a ele” – “Um emprego foi dado a ele” (A ele, objeto indireto, permanece inalterado, na mesma função.) Coisas, portanto, podem ser perguntadas, não pessoas. Como na voz passiva o objeto indireto permanece nessa função, os verbos transitivos indiretos, a rigor, não podem ser usados na voz passiva. Muitos gramáticos condenam adequadamente frases como “a pergunta foi respondida”, “o filme foi assistido”, “a ordem foi obedecida”, porque os verbos perguntar, assistir (com o sentido de ver) e obedecer não têm objeto direto, mas apenas objeto indireto. Verbos transitivos indiretos, intransitivos e reflexivos estão no que se chama “voz medial”, e a única voz verbal que pode ser transformada em voz passiva é a voz ativa. (Falaremos oportunamente na voz depoente, em que verbos passivos têm significado ativo, como em “Ele é um homem lido”, isto é, um homem que lê, e não um homem que é lido... Também falaremos, oportunamente, em verbos formalmente ativos, mas semanticamente passivos, como em “Ele levou um soco”, “Ela pegou gripe”.)
4. Preferir mais do que – O verbo preferir é transitivo direto e indireto, isto é, tem dois complementos: preferir alguma coisa ou pessoa a outra coisa ou pessoa. Ex.: Prefiro o Vasco ao Flamengo, as loiras às morenas, o sorvete ao refrigerante. Também é possível usar o verbo preferir apenas como transitivo indireto, com o sentido de ser preferível: “Um livro prefere ao filme”. Não se deve, portanto, dizer “Prefiro mais uma coisa que outra”, pois preferir, obviamente, indica preferência, numa comparação implícita que descarta o emprego de “mais... do que”.
5. “A você, amigo José, ao assumir essa importante missão, fazemos uma homenagem pelo seu sucesso.” (Texto extraído de jornal) – Essa frase não tem erros gramaticais, mas apresenta erros semânticos, isto é, erros de significação e de sentido. O texto pretendia dizer que José assume uma importante missão e é, portanto, digno da homenagem que nós lhe fazemos. No entanto, o que o texto diz é que, quando assumimos essa importante missão, fazemos uma homenagem ao José pelo seu sucesso. Se o sucesso é de José, por que nós é que assumimos a missão importante?
O problema reside numa regra simples que nem sempre é respeitada: se o sujeito do infinitivo ou do gerúndio não está expresso na frase, então ele será o mesmo da oração principal. No texto citado, o sujeito de “assumir”, que não está explícito, é o mesmo de “fazemos”, nós: “ao assumir(mos)... fazemos uma homenagem”. Para que a frase fique adequada à idéia que a originou, ou acrescentamos o sujeito de “assumir”, ou — melhor ainda — alteramos a construção, suprimindo o infinitivo: “A você, amigo José, ao assumir você essa importante missão, fazemos uma homenagem...” OU: “A você, amigo José, que assume essa importante missão, fazemos uma homenagem...”
O mesmo problema ocorre com o gerúndio: se o gerúndio não tem seu sujeito expresso, o leitor entenderá que o sujeito do gerúndio é o mesmo da oração principal. Na frase “Saindo (ao sair) da fábrica, o cão mordeu o operário”, o que se pretendeu dizer é que o operário saía da fábrica, mas o que efetivamente se disse é que o cão é que saía da fábrica. Para assinalar que o operário saía, temos de dizer: “Saindo da fábrica, o operário foi mordido pelo cão”. Ou evitamos o gerúndio: “O cão mordeu o operário que saía da fábrica” OU: “O operário que saía da fábrica foi mordido pelo cão”.
6. Aluga-se casas. – Sempre que, numa oração, houver o pronome SE, o sujeito dessa oração será sempre o primeiro substantivo ou pronome que aparecer SEM preposição. Vejamos as seguintes frases: a) Precisa-se de empregados. b) Vive-se bem aqui. c) Nunca se é feliz em terra estranha. d) Aluga-se esta casa. Nesses quatro exemplos, todos com o pronome SE, o único que tem um substantivo sem preposição é o último: esta casa, que é o sujeito simples. Nos outros exemplos, o sujeito é indeterminado (isto é, não tem núcleo): o verbo fica sempre no singular. Na última frase, em que o sujeito é simples (esta casa), se o substantivo (sujeito) for pluralizado, o verbo terá de ir para o plural: alugam-se estas casas. Como o sujeito pronominal de 3ª pessoa é ele/ela, se substituirmos “estas casas” por um pronome pessoal, teremos: “Alugam-se elas”. Isso pode parecer estranho, mas é o correto.
7.Sequer – O advérbio “sequer” significa “ao menos”, “pelo menos”. Não tem valor negativo por si só: “Ele foi ao cinema porque sequer tinha algum dinheiro” (isto é: “ele foi ao cinema porque ao menos tinha algum dinheiro). “Ele nem sequer abriu o livro, mas sabia a lição.” (Para que “sequer” tenha valor negativo, é necessário explicitar a negação: nem, não, nunca, etc.)
8. Ele não tinha qualquer dúvida. – O pronome indefinido “qualquer” só deve ser usado em frases afirmativas. Se a frase for negativa, use “nenhum/nenhuma”. No exemplo acima, não ter qualquer dúvida significa ter uma dúvida especial, não uma qualquer. Vale dizer: “Qualquer” não tem valor negativo.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Pronunciando...

Imagem: Ademir Martins
PROBLEMAS DE PRONÚNCIA
José Augusto Carvalho, Professor Dr da Universidade Federal do Espírito santo
1. Xérox/xerox – O Aurélio registra “xérox” de preferência a “xerox”, mas o Houaiss registra a forma oxítona em primeiro lugar, remetendo o consulente à forma paralela com acento tônico no E. O Houaiss, a meu ver, tem razão: a pronúncia mais adequada deve ser “xerox” e não “xérox”, embora ambas as pronúncias sejam aceitáveis. As palavras mais antigas na língua, terminadas por x, são paroxítonas, como tórax, fênix, cóccix, hálux, por exemplo. Mas as que se incorporaram mais recentemente ao nosso léxico são todas oxítonas: inox, botox, durex, eucatex, entre outras, referentes a produtos ou marcas industriais, exatamente como “xerox”. Portanto a pronúncia preferível, dentro das normas da língua, é “xerox” e não “xérox”. Argumentar que em inglês a palavra é paroxítona (pronuncia-se, aproximadamente, como “zírocs”), para justificar a pronúncia “xérox”, é mostrar desconhecimento do fato de que não é raro o hiperbibasmo, isto é, a deslocação do acento tônico, na passagem de uma palavra de uma língua para outra. “Futebol” é oxítono em português, mas é paroxítono (por só ter duas sílabas), em inglês (Foot ball) e em espanhol (fútbol), exatamente como “xerox”, que é paroxítono em inglês. O inverso também é verdadeiro: palavras de origem latina também mudam o acento tônico ao serem transpostas para o inglês. Assim, o inglês “garden” é vocábulo paroxítono que se origina do romance *gardino (com pronúncia forte no i), por intermédio do francês (embora a protoforma seja possivelmente germânica), em que a pronúncia é oxítona: jardin. Quanto ao gênero, a palavra “xerox” é masculina. Dizer que ela deva ser feminina porque subentende a palavra “cópia”, é dizer que “pirex” deve ser feminino, quando subentende a palavra “travessa”; ou masculino, quando subentende a palavra “prato”. Na verdade, em “cópia xerox”, “xerox” não é adjetivo, mas um aposto especificativo. Portanto “xerox” é masculino, mesmo que se pretenda subentender a palavra “cópia”, como “durex”, que é sempre masculino, ainda que se queira subentender a palavra “fita”.
2. A pronúncia de “subsídio” – Nas palavras em cuja grafia há uma consoante seguida de S, esse S tem sempre o som de C, como em farsa, falso, canso, lapso, subserviente, subsecretário, subsídio, subsistência, etc. A única exceção é “obséquio” (e derivados), em que o S tem o som de Z, por questões etimológicas. O francês “obsèques” , no plural, tem o sentido de “serviço fúnebre”. Origina-se de “obsequiae”, plural neutro de “obsequium” (serviço), do verbo “obsequi” (ceder a, obedecer), composto de “sequi” (seguir). Em português, como em francês, houve confusão com a forma latina “exsequiae” (funerais, pompa fúnebre, obséquios). Ainda hoje, em francês, “obsèques” tem o sentido de “exéquias” (préstito fúnebre). A pronúncia de “obséquio”, em que o S soa Z, se deve, portanto, a um cruzamento com “exéquias”. Portanto, embora perceptíveis entre pessoas de boa escolaridade, as pronúncias “subzídio” ou “subzistência”, para “subsídio” e “subsistência”, são condenadas pelos gramáticos e dicionaristas e devem ser evitadas.
3. O plural de “troco” – Normalmente, quando temos uma palavra paroxítona do gênero masculino em que a vogal tônica é um O, devemos procurar uma palavra feminina formalmente equivalente: se esse feminino tem a vogal tônica aberta, há grande probabilidade de a vogal também ser aberta no plural; se esse feminino tem a vogal tônica fechada, possivelmente a vogal no plural também será fechada. Assim, têm o plural com a vogal fechada os seguintes vocábulos: bolso (uma bolsa), moço (moça), etc. Têm a vogal aberta no plural as seguintes palavras: posto (uma posta), troco (uma troca), ovo (uma ova), porto (uma porta), etc. Normalmente, se não há um feminino formal equivalente, a palavra tem a vogal aberta no plural: socorro, tijolo, etc. Em caso de dúvida, no entanto, o melhor é consultar o único dicionário do gênero, feito por um capixaba: Vocabulário ortoépico do “E” e “O” tônicos inacentuados, de Carlos Laet de Oliveira, Vitória: Edição do Autor, 2002. Afinal, não estamos dando aqui uma regra do português, mas uma “dica” que talvez possa ser útil...

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Gramática...



O ARTIGO – GÊNERO E CONCORDÂNCIA

José Augusto Carvalho Professor de Linguística da Universidade Federal do Espírito Santo

Bons gramáticos, como Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova gramática do português contemporâneo) e Rocha Lima (Gramática normativa da língua portuguesa) afirmam que o nome próprio oriundo de um nome comum se constrói com o artigo: o Porto, o Cairo (de El-Kahira, a vitoriosa), o Rio de Janeiro, o Havre (que significa “o porto”). O problema é que todos os nomes próprios (de lugar ou de pessoa) de alguma forma se originaram de adjetivos ou de nomes comuns, como Cláudio (o capenga; daí vem o verbo “claudicar”), Honório (que recebe honras), Ricardo (príncipe forte), Lituânia (terra chuvosa), Sagres (sagrado), etc. Muitos nomes de lugar no ES vêm de nomes comuns e se usam sem artigo: Vitória, Castelo, Cachoeiro, Guarapari (“curral das garças”), etc.
As gramáticas são omissas quanto ao gênero de substantivos que se tornaram próprios no plural e que, portanto, perderam a idéia de pluralidade. Alagoas, por exemplo, pode ser usado facultativamente com o artigo feminino (as Alagoas), mas Amazonas só admite o artigo masculino, que Drummond usa no plural, no poema “Hino Nacional”, do livro Brejo das Almas (p. 45 da edição de suas obras completas – Poesia e Prosa ­­__,da Ed. Aguilar, de 1988, de onde tiro todos os exemplos; o número entre parênteses, após cada citação, indica a página em que o exemplo se encontra).
Não é a origem feminina do nome que determina o uso do artigo ou de um adjetivo no feminino. Belo Horizonte, embora masculino na origem, é feminino como nome próprio: a desprevenida Belô (p. 718; note-se o hiperbibasmo do tipo diástole, isto é, o deslocamento do acento tônico de “Belo” para a frente). Não se pode dizer que está subentendida a palavra “cidade”, porque em “Minas orgulhosa” (431), ou em “pura Minas” (711), por exemplo, não está subentendida a palavra “estado”. Além disso, só há elipse quando o termo subentendido pode ser recuperado no texto ou contexto anterior (por anáfora), o que elimina a possibilidade de se chamar “elíptico” ao sujeito de uma oração em que se suprimiu o pronome reto, como em “Vamos embora”, por exemplo, já que “eu”, (“nós”) ou “tu” (“você”, “vós”, “vocês”) são pronomes exofóricos, isto é, são dêiticos, que remetem sua significação a agentes fora do texto, à situação do discurso.
Não há razão específica para que Londres seja do gênero feminino, e Paris seja do gênero masculino. Não há razão para que Alagoas possa ter diante de si o artigo feminino plural, e não o singular, como o Amazonas. Nem há razão para que nomes como Ásia, Holanda, Europa, França, Espanha, Inglaterra e África (que formam a frase mnemônica “Ah, é feia!”) sejam articulados facultativamente. Drummond escreve “Europa” sem artigo: “Cai neve em Parnaíba (...) seus filhos que jamais viram Europa” (784). Rui Barbosa escreveu “Inglaterra”, sem artigo, no título de seu livro de 1896: Cartas de Inglaterra.
Uma coisa é certa: há nomes que rejeitam obrigatoriamente o artigo, exceto quando seguidos ou precedidos de outro(s) determinante(s), como Portugal, Lisboa, Paris, Cabo Verde, Salvador e outros; há os que podem ser precedidos ou não, facultativamente, do artigo, como (o) Recife, (o) Marrocos, (a) Serra e os nomes que formam o acrônimo “Ah, é feia!”, acima citado; e há os que exigem obrigatoriamente o artigo, como Estados Unidos, Brasil, Rússia (exceto nas enumerações, como aqui, ou em manchetes de Jornal). Assim, uma frase como “Estados Unidos invadem o Iraque” é admissível como manchete de periódico, em que a ausência do artigo se permite talvez por economia de espaço; mas a concordância verbal se faz como se o artigo estivesse lá, isto é, a ausência eventual do artigo diante de nomes próprios que o exigem não implica mudança nas regras de concordância. Em títulos, contudo, a concordância verbal se faz com o artigo: “Os Sertões constituem uma obra-prima de Euclides da Cunha.” Se o título não tem artigo, a concordância se faz no singular: “Locuções tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo, presta bons serviços ao estudioso.” Se o título original tem artigo, não se deve suprimi-lo nunca. Euclides da Cunha escreveu Os Sertões, e não “Sertões”; Luís de Camões escreveu Os Lusíadas e não “Lusíadas”. A concordância verbal no singular com títulos articulados no plural só é admissível com o verbo “ser”, se o predicativo é singular: “Os Lusíadas (são) é um belo poema.”
O artigo pode usar-se facultativamente diante de nomes próprios de pessoas e diante de possessivo, mas é omitido obrigatoriamente diante de vocativo, de demonstrativo ou de pronome de tratamento formado por possessivo + substantivo abstrato, incluindo você. É por não ser articulado o vocativo que fica estranha a frase “Vinde a mim as criancinhas”, que encerra a letra de uma música popular antiga. O correto seria “Vinde a mim, criancinhas” ou “Venham a mim as criancinhas”. O artigo definido e os pronomes pessoais de 3ª pessoa originaram-se do demonstrativo latino ille, illa, illud. Já por isso o artigo definido e o demonstrativo se excluem mutuamente, isto é, não podem coocorrer diante do mesmo nome.
Quando há elipse nominal, um elemento periférico (adjunto) passa a exercer a função de núcleo. Assim, em “Vejo ali duas senhoras: a da esquerda é recém-casada”, o “a” é artigo definido e não pronome demonstrativo; a locução “da esquerda”, originalmente adjetiva, passou a ser substantiva, ao tornar-se núcleo do sintagma em que houve elipse. Demonstremos: em “Comprei a camisa de duas cores; e ele comprou a de bolinhas”, se é possível dizer “ele comprou aquela de bolinhas”, também é possível dizer “ele comprou UMA de bolinhas”, e seria absurdo dizer que “uma” é pronome demonstrativo. Em “Ele gosta de camisas azuis, mas eu prefiro as brancas”, “brancas” assume a função nuclear, graças à omissão do substantivo “camisas”, recuperável por anáfora. Ora, se, na frase “Vejo duas senhoras: a da esquerda é recém-casada”, o “a” fosse demonstrativo, também seria o “as” de “as brancas”, na elipse citada. A identidade semântica entre “a” e “aquela” nas frases em análise não implica identidade sintática ou funcional, e ainda menos gramatical.
Da mesma forma, o “a” ou o “o”, complemento verbal, é pronome pessoal e não demonstrativo, embora semanticamente se identifique com ele em: “Que ele era bobo, eu já o sabia”. Esse “o” equivale a “isso”, mas é um pronome pessoal, ainda que se possa dizer que se trata de um pronome pessoal “neutro”, nunca de um demonstrativo. Cf. fr.: “Qu’il était dingo, je LE savais déjà”, em que se usa o pronome pessoal, e não o demonstrativo. Quando o “o” substitui um adjetivo em função predicativa, também é “neutro”: “Eles são felizes, mas eu não o sou”, porque o “o” predicativo não tem o mesmo estatuto do “o” pronome objetivo. A uma mulher a quem se pergunta se é professora, poderá responder “Eu o sou”, nunca “Eu a sou”. Já o pronome pessoal “o” concorda com o seu referente: “Ela chegou tarde, por isso não a vi entrar”. Na frase “Que ele era louco, eu já o sabia”, esse “o” substitui pleonasticamente a oração anterior, por isso está no masculino, que é a ausência de gênero. O “o” ou “a” só é demonstrativo diante de pronome relativo: “Das mulheres, ela é a que eu mais amo”. Ainda que se possa pensar em elipse da palavra “mulher”, o artigo não pode exercer função nuclear. O antecedente de um pronome relativo é sempre um substantivo ou um pronome (um sintagma nominal).
É improcedente, portanto, aludir à semelhança de formas ou à identidade semântica para justificar uma pretensa identidade de funções.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A gramática esquecida


A GRAMÁTICA ESQUECIDA
José Augusto Carvalho, Professor Dr da Universidade Federal do Espírito Santo
A revista Istoé nº 2023, de 13 de agosto de 2008, nas páginas 44-5, trouxe uma reportagem intitulada “É faculdade, mas parece colégio”, em que denuncia a imaturidade emocional e o despreparo intelectual dos universitários. As faculdades acabam transmitindo aos seus alunos noções básicas de português e de matemática, porque eles pouco ou nada aprenderam no curso médio. Os universitários acabam aprendendo (quando aprendem) no curso superior o que deveriam ter aprendido no segundo grau.
Tenho insistido na cobrança de gramática, mas até o vestibular aderiu à moda do Enem, formulando questões em todas as disciplinas com base num único tema geral. Em relação à língua portuguesa, o que se nota é que as questões se centralizam na interpretação de texto, em que o candidato é obrigado a escolher a resposta que condiz com o que a banca interpretou empobrecendo o texto, por reduzir à paráfrase denotativa o que é rico em conotações e em leituras múltiplas.
Soube por um amigo que, numa escola reputada como excelente, uma coordenadora entrou numa sala de aula de cursinho onde um professor ministrava lições de gramática portuguesa e disse, na frente do professor, desautorizando-o, que os alunos não precisavam estudar nada daquilo, porque as questões de português, no vestibular, eram todas de interpretação de texto. Felizmente, naquele ano, fiz parte da banca, e insisti em gramática, na maioria das questões. Os cursinhos reagiram chamando de “traição” o fato de se terem exigido questões gramaticais!
O desconhecimento da gramática, por conta de um ensino deficiente, produziu uma consequência desastrosa: até mesmo professores formados desconhecem regras básicas de concordância e de coesão textual. Os universitários, por sua vez, aprendem toda a difícil metalinguagem linguística, mas não sabem distinguir o sujeito de uma oração. Linguistas sem preparo filológico ou sem maturidade atacam a gramática em livros demagógicos e cheios de erros doutrinários, inclusive linguísticos, como os de Marcos Bagno (A língua de Eulália, Preconceito lingüístico, Dramática da língua portuguesa, entre outros), que dizem aquilo que os professores querem ler e ouvir, mas não aquilo que deveriam saber. E tais livros são adotados não por terem algum mérito, que certamente têm, mas por fornecerem ao docente os argumentos de que precisa para justificar suas ideias preconcebidas.
Duas das soluções que preconizo mas que certamente não serão levadas em conta são: a primeira é a de que o vestibular deva ser por área ou, se se mantiver o vestibular unificado, a de que as provas sejam sequer (isto é, pelo menos) discriminadas por disciplina; e a segunda é a de que as redações dos vestibulandos devam ser corrigidas por professores de português que efetivamente entendam do riscado. Sei de pelo menos um professor que tem a audácia de participar da banca de correção das redações de vestibular e que não só manifesta de público sua ojeriza à gramática, mas também escreve mal, cometendo erros grosseiros de português em quase tudo que escreve, de tal forma que mal consegue redigir uma lauda sem cometer pelo menos um erro crasso.
Não entendo por que se devam pedir noções de química, de biologia, de física ou de geografia a um vestibulando que pretende fazer Direito ou Letras. Antes dessa aberração que é o vestibular unificado, cada faculdade tinha seu próprio vestibular e exigia conhecimentos pertinentes à área profissionalizante de sua especialidade. Não é por saudosismo que preconizo o retorno ao vestibular por área, mas por amor a um ensino mais eficiente e a um curso superior mais adequado às necessidades do aluno que o procura.
O resto é demagogia ou garantia de fracasso acadêmico.
************************************************************

Concordo, professor!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Linda língua


A NOITE, O INFINITO E ALGUNS ÉTIMOS
José Augusto Carvalho, Professor Dr da Universidade Fedderal do Espírito Santo
Diziam os gregos que a noite é a mãe dos deuses e que suas trevas precederam a formação de todas as coisas. As primeiras linhas da Bíblia dizem que Deus criou o céu e a terra e que a terra era vazia, e que as trevas cobriam o abismo.... Por isso, a noite tem uma significação de fertilidade: a partir dela é que as coisas se formaram. Em certas religiões, na doutrina tradicional, a noite e a morte se confundem, e a morte seria uma passagem para uma vida melhor... (Cf. Diccionario de símbolos, de Juan Eduardo Cirlot, Barcelona: Editorial Labor, 1981, s.v. noche.)
O número oito tem uma significação cabalística especial que o aproxima da simbologia da noite: o oitavo dia é o dia após a criação, é o símbolo da ressurreição, da transfiguração e anuncia a era futura eterna. No bojo dessa significação está a ressurreição de Cristo e a do homem. O oito deitado, na matemática, é o ideograma do infinito (Cf. Dictionnaire des symboles, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, edição revista e aumentada, Paris: Robert Laffont/Júpiter, 1982, s.v. huit.)
Imagino que essa aproximação da simbologia do oito e da noite se tenha refletido em muitas culturas ocidentais, pois o oito “compõe” o signo linguístico que representa a noite em muitas línguas conhecidas: em latim, nocte-octo; em alemão, nacht-acht; em inglês, night-eight; em português e em galego, noite-oito; em francês, nuit, huit; em espanhol, noche-ocho, em italiano, notte-otto...
Quem se debruçar sobre o significado primitivo da palavra sequestro terá algumas surpresas. O substantivo latino sequester, -tri (da 2ª declinação) ou sequester, -tris (da 3ª) significa “árbitro, medianeiro”. A frase Pacis sequestrem mittere significa literalmente “enviar um árbitro de paz”, isto é, “enviar alguém para tratar de paz”. Sequestro tem a mesma raiz do verbo depoente sequor, “seguir”, donde: sequência, séquito, consequência, obséquio, etc. Além disso, o verbo sequestrare, em latim, significa “depositar”, e o particípio sequestratus significa “exilado, banido”.
Embora designe o demônio por um erro dos doutores da Igreja, Lúcifer, de origem latina, significa “o que leva (ferre) a luz (lux)”, equivalente ao termo “fósforo”, pelo étimo grego. Lúcifer passou a designar o demônio por causa da má interpretação de duas passagens de Isaías, cap. XIV, versículo 4, em que se fala do rei da Babilônia, e versículo 12, em que o rei caiu do céu e é chamado Lúcifer, tradução do hebraico ben-xabar (filho da aurora), designativo da estrela da manhã ou estrela dalva. Os doutores da Igreja viram semelhança entre o que Isaías dizia e a queda do anjo mau, na mitologia bíblica. E Lúcifer, apesar da etimologia, passou a designar o anjo mau, o primeiro Arcanjo.
Alguns gramáticos condenam a expressão “bela caligrafia” sob a alegação de que “cali”, em grego, já significa “belo” e, portanto, “bela caligrafia” seria redundância. Ninguém pensa na formação etimológica de “caligrafia” quando usa essa palavra. Da mesma forma, os gramáticos condenam o artigo O antes de “Alcorão”, sob a alegação de que “al” em árabe já significa O. Assim, em lugar de “o Alcorão”, dever-se-ia dizer apenas “O Corão”, para evitar a redundância. Ora, ninguém sente mais esse “al” como artigo já que dizemos “a almôndega”, “a alface”, “o algodão”. Para mostrar que a etimologia é má conselheira e que não se deve alegar o étimo para justificar certas expressões, porque ninguém pensa no étimo quando fala, poderíamos chamar Jesus de Lúcifer, já que o étimo significa “o que leva a luz”. E isso, certamente, seria blasfêmia das grandes...

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Língua dinâmica


A REDUPLICAÇÃO
José Augusto Carvalho, Professor Dr da Universidade Federal do Espírito Santo
Um dos processos mais interessantes de formação de palavras, a reduplicação, não é tão pouco produtivo quanto sugerem as gramáticas. Chama-se reduplicação o processo pelo qual uma sílaba se repete total ou parcialmente para formar um novo vocábulo de sentido igual ao do vocábulo primitivo ou dele diferente. Não se trata exatamente de uma composição, já que é apenas uma sílaba que se repete, mas os estudiosos que analisaram a reduplicação incluem-na entre os processos de composição vocabular. Do verbo saltar, por exemplo, por reduplicação da sílaba tônica, forma-se saltitar; de pular forma-se pulular. Esse processo, contudo, parece pouco produtivo, porque se restringe basicamente à formação de hipocorísticos ou de onomatopéias. Hipocorístico é o nome que se dá a qualquer palavra criada para denotar carinho ou afetividade, sobretudo no âmbito familiar, como Zezinho, Didi, etc.
A reduplicação nos hipocorísticos se forma a partir da sílaba tônica, mas de maneira curiosa: tudo o que vem antes da sílaba tônica ou depois da vogal tônica é suprimido para dar lugar à sílaba repetida, e a repetição da sílaba se faz para a esquerda da palavra. Assim, para formar Lili, do nome Alice, suprime-se tudo o que vem antes da sílaba tônica –LI- (a vogal A) e também o que vem depois da vogal tônica (a sílaba CE), e acrescenta-se, para trás, a silaba Li. Por que para trás? Expliquemos: na palavra “pai”, por exemplo, suprimimos a semivogal –i- que vem depois da vogal tônica, e temos “pa”, que escrevemos à esquerda de “pai” para formarmos “papai”. Se a reduplicação se fizesse para a frente, teríamos “paipá” ou “paipai”, e não “papai”.
Para formarmos “Didi” utilizamos a sílaba tônica de Benedita ou de Waldir, por exemplo, repetindo-se ela para a esquerda, desprezando-se os sons anteriores à sílaba tônica ou posteriores à vogal da sílaba tônica. Da mesma forma, de José se forma Zezé; de mãe, mamãe; de tio, titio (sempre desprezando o que está à direita da vogal tônica para termos a sílaba que se repete). Outros exemplos: vovô (avô), Vavá (de Valter), Janjão (de João, a partir da pronúncia “Jão” e, portanto, de “Jã”, desprezada a semivogal do ditongo –ão), Cacá (de Carlos), Mimi (de Emília), Cici (de Cecília), etc.
Na linguagem infantil, são comuns os nomes com sílabas reduplicadas, não apenas com relação a parentes (pai, mãe, tios, avós...): xixi, mimi (dormir), cocô, dodói, naná, papá (de papar, com o sentido de “comer”), etc.
Às vezes, a reduplicação incide na sílaba tônica de um nome reduzido ou de um outro hipocorístico. De Eduardo, por exemplo, temos, primeiramente, Edu, a partir do qual se forma Dudu; de Luís, temos Lu, primeiro, para depois termos Lulu.
É pela reduplicação que se explicam formas como nhonhô (de senhor), nhanhá (de sinhá, feminino formado a partir de “sinhô”), iaiá, ioiô, etc.
Algumas onomatopéias se formam a partir de reduplicações: pingue-pongue, tique-taque, ziguezague (originalmente: ping-pong, tic-tac, zig-zag, respectivamente), zunzum, etc.
Por extensão, chama-se reduplicação também à repetição de nomes inteiros na formação de vocábulos: ruge-ruge, tico-tico, teco-teco, corre-corre, pula-pula, bate-bate, etc. Quando a reduplicação de nomes inteiros é de ordem sintática e não forma palavras novas, recebe o nome de epizeuxe e pode ser usada como superlativo: Ele é rico, rico (riquíssimo), Ele fez um gol lindo, lindo (lindíssimo), Logo, logo ele vai sair, etc.
Vê-se que a reduplicação não é tão pouco produtiva assim...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Forrobodó


FALSAS ETIMOLOGIAS

José Augusto Carvalho, Professor de Linguística da Universidade do Espírito Santo, Mestre em Linguística pela Unicam e Dr pela USP.

Há algum tempo, Pasquale Cipro Neto divulgou na Internet explicações incorretas de expressões populares, como “batatinha quando nasce espalha a rama pelo chão” (o correto mesmo é “se esparrama pelo chão”), “esculpido e encarnado” (o correto é realmente “cuspido e escarrado”; a expressão veio do francês, em que o verbo “cracher”, escarrar, também significa identidade, donde a palavra “crachat”, escarro, que deu origem ao português “crachá”, designativo da plaquinha de identificação que as pessoas trazem no peito; em inglês, “spit”, cuspo, também é usado como identificação); “corre de burro quando foge” (forma que Castro Lopes sugeriu para corrigir a expressão adequada “cor de burro quando foge”, em que “burro” designa a cor vermelha que um fujão apresenta, e não o animal; de “burro”, cor, temos palavras como “borro”, designativa do carneiro entre um e dois anos, e “borracho”, que designa o pombo sem penas, por sua coloração avermelhada, e possivelmente “borrega”, ovelha de um ano); “quem tem boca vaia – verbo vaiar – Roma” (o correto é exatamente “quem tem boca vai – verbo ir – a Roma”, frase originada das peregrinações a Roma, donde palavras como “romaria” e “romeiro”, associadas à peregrinação); “ ter bicho no corpo inteiro” (o correto é “ter bicho-carpinteiro”, referência, segundo Leite de Vasconcelos, ao oxiuro que provoca pruridos anais e movimentos sacudidos); “quem não tem cão caça como gato”, isto é, “sozinho” (o correto é mesmo “quem não tem cão caça com gato”). Essas explicações são anticientíficas, sem respaldo documental, e devem ser desprezadas.
A prática de inventar explicações não é nova. Fernão de Oliveira, no séc. XVI, alertava contra as adivinhações que tentassem explicar as dicções portuguesas, como: homem, porque está no meio; mulher, porque é mole; tempo, porque tempera as coisas; pássaro, porque passa voando, etc. (Ver A gramática da linguagem portuguesa. Ed. de Maria Leonor Carvalhão Buescu. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1975, p. 83.). No séc. XVII, Ménage fazia de faba o étimo de haricot, e o nosso Castro Lopes explicava carnaval como oriundo de lupercália, ou, então, de canto arval (informação de Machado de Assis, citado por Izidoro Blikstein, no artigo “As etimologias de Ménage”, publicado em Língua e literatura, v. 6, n. 6, 1977, p. 100).
Reinaldo Pimenta, no livro A casa de Mãe Joana (8.ed. Rio de Janeiro: Campus, 2002, p. 56), comete a ingenuidade de dizer que o nome “bissexto” se chama assim “porque o ano de 366 dias tem duas vezes o número seis” . O calendário romano tinha três datas com nome próprio: Kalendae ou Calendas (o primeiro dia de cada mês), Nonae ou Nonas (o dia 5 de todos os meses, exceto março, maio, julho e outubro, em que Nonae designava o dia 7) e Idus ou Idos (o dia 15 para aqueles quatro meses e o dia 13 para os outros meses). Os outros dias de cada mês eram citados a partir daqueles três nomes. Exemplifiquemos: o dia 3 de abril era chamado “o terceiro dia antes das nonas de abril” (“ante diem tertium nonas Apriles”); a expressão “desde 3 de junho até 31 de agosto” se dizia em latim como “terceiro dia antes das nonas de junho até o primeiro das calendas de setembro” (“ante diem III Nonas Junias usque ad pridie Kalendas Septembres”).
O dia 24 de fevereiro era chamado “o sexto das calendas de março”. No nosso calendário, o gregoriano, no ano bissexto, temos um dia a mais, acrescentado ao último dia do mês de fevereiro. Mas, no calendário juliano, o dia a mais era acrescentado ao dia 24. Ou melhor: havia dois dias de número 24. Portanto, havia duas vezes o sextus dies (bis sextus) antes das calendas de março. Desses dois sextos é que se originou a expressão “ano bissexto”.
A palavra “gringo”, segundo informação também indevida de Silveira Bueno, no livro Tratado de semântica brasileira (4.ed. São Paulo: Saraiva, 1965, p. 115), teria vindo das primeiras palavras de uma canção americana utilizada pela cavalaria dos Estados Unidos, na guerra contra o México, no séc. XIX: “Green go the rashes O / the happiest hours that here I spent / were spent among the lasses O.” Os dicionários etimológicos de Corominas, de José Pedro Machado e de A.G.Cunha atribuem a gringo uma variação de griego. O dicionário de Corominas, mais informativo e mais preciso, no verbete griego, cita o dicionarista Esteban de Terreros y Pando, do séc. XVIII: “Gringos llaman en Málaga a los estranjeros, que tienen cierta especie de acento, que los priva de una locución fácil y natural Castellana, y en Madrid dan el mismo nombre con particularidad a los irlandeses”. Ora, se gringo já estava dicionarizado no séc. XVIII, não se pode atribuir-lhe origem mexicana no séc. XIX, na época da guerra com os Estados Unidos.
A etimologia popular ensina que “forró” se origina do inglês “for all”. Mas “forró” é apenas a forma abreviada de “forrobodó”. O problema está, portanto, em explicar a origem de “forrobodó”, que “for all”, obviamente, não explica.
É possível que “forrobodó” tenha nascido no Nordeste, segundo se depreende da lição de Câmara Cascudo (Dicionário do Folclore Brasileiro, 5.ed. rev. e aum. São Paulo: Nacional, 1967, s.v.) e tinha uma conotação original de desprestígio social, porque “nele tomam parte indivíduos de baixa esfera social” e, no Ceará, era um “baile de canalha”, ainda segundo Câmara Cascudo, que informa que a primeira atestação de “forrobodó” parece ser de 1882.
Macedo Soares, no seu Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa (MEC/INL, 1954, vol. I – 1955, vol. II), acredita que “forrobodó” seja uma corruptela de “farrobodó”, de mesma raiz “far-“ de “farrundu” (variante: furrundu), que designa “dança rasgada, ruidosa, sem preceito, desordenada (s.v. furrundu). “Farrundu” seria originário de “far-” (trapo, rasgão, desordem) + “lundu” (dança angolesa). Como membros da mesma família de “farrobodó”, com a raiz “far-“, Macedo Soares enumera, no verbete “farpela” (designativo de “prostituta reles, meretriz pobre e andrajosa”), os seguintes vocábulos, entre muitos outros: farpa, farrapo, farroupilha, farândula, farfalha, fanfarrão e harpa.
Assim, “forrobodó” seria uma variação de “farrobodó”. Com relação ao primeiro elemento, “far-”, parece-me que é de mesma origem o vocábulo “forró”, ainda em curso no falar alagoano. No “Vocabulário e fraseologia”, glossário que compõe a segunda parte do seu livro Dinâmica de uma Linguagem (sobre o falar de Alagoas) (Maceió: Universidade Federal de Alagoas, 1976), Paulino Santiago registra o verbete “forró”, socialmente estigmatizado, com o significado de “frouxo, lasso, relaxado, com particular referência às prostitutas”. Vê-se que o sentido da raiz “far-” permanece no termo “forró”.
Assim como “farrundu” seria formado de dois elementos, “farrobodó” ou “forrobodó” também teria dois elementos em sua formação. Se não há dúvidas quanto ao primeiro, “forró” (a mudança do a para o seria explicada por assimilação), como explicar o segundo?
No Dicionário do Aurélio, está consignado no verbete “bruxaria” o sinônimo “bozó”, de curso no Ceará, ao lado de “fobó”(s.v. arrasta-pé), possivelmente alteração de “forró”, que, entre outras coisas, significa, como na Bahia, além de “bruxaria” (s.v.), “despacho”, “macumba”. É possível, portanto, que “forrobodó” seja a junção de “forró”, desordem, com “bozó”, macumba. O Houaiss cita explicação de Bechara, segundo a qual “forrobodó” seria oriundo do galego forbodó, pelo francês “faux-bourdon”, o que não me parece muito provável, primeiro porque “faux-bourdon” designa um processo de escrita musical oriunda da Inglaterra ou um canto religioso, e não um baile de gente humilde; segundo, porque forbodó é originalmente um regionalismo, e se pronuncia “forbodo”, paroxítono, em galego, e não oxítono; terceiro: não sei se o termo é realmente comum em Portugal, como assevera o Dicionário; e quarto: forrobodó poderia ser, originalmente, “macumba ruidosa e desordenada”, a julgar pelo que diz Renato Mendonça (A Influência Africana no Português do Brasil, Rio: MEC/ Civilização Brasileira, 1973, p. 76 e 80), isto é, talvez “forrobodó” não designasse originariamente a dança, mas apenas a macumba. Câmara Cascudo fala em forrobodança, no seu Dicionário (s.v.). Forrobodança seria forrobodó-dança, com redução haplológica, donde “forrobodó”.
Si non è vero...

sábado, 11 de abril de 2009

Gramática boa!

Picasso

O PAPEL DOS GRAMÁTICOS
José Augusto Carvalho, Professor de Linguística da Universidade Federal do Espírito Santo, Dr pela Unicamp
Há uma crença generalizada de que os atos de fala individuais explicam as mudanças históricas das formas linguísticas. Em outras palavras: cada falante de uma língua contribuiria para a evolução dessa língua. É certo que a repetição de uma forma diferente pode ser adotada por outros falantes e generalizar-se, contribuindo para que a língua sofra mudanças. Por exemplo: Castro Lopes propôs muitas palavras novas, como “convescote” ou “protofonia”, por exemplo, para substituir estrangeirismos, como o inglês “picnic” e o francês “ouverture”, respectivamente, e Cândido de Figueiredo propôs frases pretensamente mais vernáculas, como, v.g., “galinha em molho pardo”, para substituir construções estrangeiras, como o galicismo “galinha ao molho pardo”.
Algumas dessas propostas tiveram acolhida, mas o falante não é o único fator de mudança linguística. Há outros fatores, como o grupo social e a área geográfica, que contribuem para a evolução e estratificação de uma língua. Assim, o português formou-se a partir do uso popular da soldadesca inculta, em princípio condenável pelos gramáticos latinos de então, e apenas em parte da Península Ibérica. Além dos Alpes e dos Pirineus formaram-se do latim outras línguas, como o francês, o ocitânico, o provençal, o rético, o romeno... Entregue a si mesma, sem o freio da educação linguística formal de seus usuários, o latim só poderia seguir as suas diversas derivas regionais e esfacelar-se em romanços vários que evoluíram para as línguas neolatinas atuais. Havia o perigo das invasões bárbaras e a preocupação com a própria sobrevivência, acima dos interesses, hoje bastante fortes, da preservação da cultura e da unidade linguística e territorial.
O ensino sistemático da gramática como instrumento de imposição de um dialeto prestigioso talvez não impedisse, mas certamente retardaria a permanente (e lenta) mutabilidade das línguas, com um resultado possível: ao lado do dialeto culto, haveria (como há hoje) os dialetos populares. Isto é: se a gramática da norma culta latina tivesse sido permanentemente ensinada, sem interrupções, o latim dos escritores e dos patrícios romanos teria possivelmente sobrevivido (com alterações pouco substanciais) ao lado das atuais línguas neolatinas, e estaríamos vivendo hoje um caso especial de diglossia: o latim usado nos textos oficiais ou em público e o português usado entre amigos ou no lar, como ocorre atualmente com o árabe clássico e o árabe popular, em alguns países árabes.
É só parcialmente verdadeira a crença de que o uso faz a língua, porque é à própria língua que cabe permitir o uso que vai atuar sobre ela. O gramático consciente (o que não é apenas repetidor dos outros gramáticos, nem inventor de regras sem respaldo científico) apenas entra como intérprete da índole lingüística. Quando corrige a frase “Ele saiu para mim ficar” para “Ele saiu para eu ficar”, o professor está apenas sendo coerente com outras estruturas semelhantes da língua em que é impossível usar “mim” como sujeito. É a própria língua que impede esse uso generalizado de “mim” como sujeito do infinitivo em construção com a preposição “para”, que nenhuma outra preposição admite. Se fosse possível dizer “Ele saiu sem mim ficar”, então a correção do professor seria inadequada, porque a língua estaria aceitando esse uso. O professor corrige o falante que diz “Eu te vi porque você estava lá”, porque a própria língua recusa a coocorrência do pronome “te” com o sujeito “você”, do contrário seria possível dizer “você” com “te” na mesma oração, como em “Você te viu no espelho”. O objetivo do gramático é exatamente o de interpretar as estruturas da língua e, a partir daí, sugerir as formas a serem usadas. Nem todo uso, portanto, consegue fazer a língua. Nem todo gramático é apenas um arbitrário “legislador” da língua.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Língua portuguesa


PALAVRAS CASADAS
José Augusto Carvalho, Professor de Linguísticada Universidade Federal do Espírito Santo.
Existem pares de substantivos comuns, semanticamente relacionados, em que o feminino e o masculino se usam diferentemente pelos falantes, guiados pela intuição. Pergunte-se a um brasileiro se ele põe uma jarra dágua ou um jarro dágua na mesa, se ele compra um saco de café ou uma saca de café, se ele pegava a barca ou o barco para ir do Rio a Niterói... A todas essas perguntas, ele responderá sem hesitação, de acordo com a própria intuição, sem que lhe tivessem ensinado o porquê da preferência pelo masculino ou pelo feminino, em cada situação...
Tentando explicar o porquê do masculino ou do feminino, nesses pares de palavras, Mattoso Câmara Jr., em sua Estrutura da Língua Portuguesa (Petrópolis: Vozes, 1970, p. 78), ensina: o feminino representa quase sempre um tipo marcado ou uma especialização da correspondente forma masculina, de sentido geral, não-marcado. Assim: o saco/ a saca; o jarro/a jarra; o barco/a barca; o buraco/a buraca; o poço/ a poça; o melão/ a meloa; o cesta/ a cesta; o mato/a mata, etc.
Rodrigues Lapa, em sua Estilística da Língua Portuguesa (3.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1959, p. 109), considera, nessas parelhas, que “o masculino representa maior grandeza no sentido de comprimento, o feminino maior grandeza no sentido da largura. O português viu nos objetos a imagem do homem e da mulher: o homem, mais forte, mais alto e esbelto; a mulher, mais baixa, mais larga, de curvas mais arredondadas.”
A explicação, talvez simplista demais por ser impressionista, não convence. Não me parece que “porta” tenha curvas arredondadas, nem que seja mais larga que “porto” (o sentido comum em porto/porta é o de “passagem”). A explicação de Mattoso Câmara, acima apontada, parece mais adequada, por apoiar-se basicamente nas noções linguísticas de não-marcado (masculino) e marcado (feminino), em oposição. De fato, o feminino é o único gênero em português, porque é marcado; o masculino é a própria ausência de gênero (o que vai de encontro às idéias feministas de que a nossa língua é machista). Assim “Deus” é masculino porque não tem o “a” do feminino. Isto, isso, aquilo, quem, tudo, etc. exigem concordância no masculino porque são formas sem gênero. Não existe marca para o masculino, como existe para o feminino; assim como não existe marca para o singular, como existe para o plural. Sei que “prato” é singular porque não tem o “s” de plural. Assim, a explicação de Mattoso Câmara parece a melhor, porque segue uma orientação linguística.
Não sei até que ponto, no entanto, a explicação de Mattoso Câmara cobre esses pares de substantivos. Não sei se o nome “cesta” é marcado, por oposição a “cesto”, por exemplo. Há parelhas homeomórficas (isto é, pares de mesma forma) que, embora semanticamente próximas nos seus étimos ou em suas origens, já não são mais tão próximas assim ou não são sentidas pelo falante como semanticamente próximas, como: o braço (membro superior) / a braça (medida); o ponto/ a ponta; o bico (proeminência córnea da boca das aves)/a bica (tubo de onde escorre água); o bolo (guloseima) / a bola (o feitio arredondado da bola é que “batizou” a guloseima).
Além disso, há outros substantivos que, embora morficamente idênticos, têm origem e significação diversas, como: o milho (cereal) / a milha (medida itinerária); o selo (estampilha)/ a sela (arreio de montaria); o tiro (disparo) / a tira (faixa); o prato (utensílio doméstico)/ a prata (metal); o boto (mamífero aquático)/ a bota (calçado); o malho (o martelo, como em “descer o malho”)/ a malha (o tecido ou o coletivo, como malha rodoviária, malha telefônica); etc.
Eis um bom tema para tese. Com a palavra os mestrandos em língua portuguesa...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

CURIOSIDADES LINGÜÍSTICAS


SEIS CURIOSIDADES LINGÜÍSTICAS
José Augusto Carvalho
1 . Por que se diz “fazer ouvidos de mercador”? Na pesquisa das origens de frases feitas (Origens de anexins, proloquios, locuções populares, siglas etc. 2.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1909), Castro Lopes deu asas à imaginação, e muitas de suas hipóteses devem ser descartadas, por carecerem de explicação convincente. Tal é o caso da expressão “lé com lé, cré com cré” que ele diz ter vindo de “leigo com leigo, clérigo com clérigo”, mas não explica como o ditongo fechado da sílaba “lei” poderia ter dado ”lé”, com a vogal aberta.

Há casos de monotongação e de mudança de timbre em verbos, na pronúncia popular dos nomes homógrafos, como “róbo” (verbo roubar), a distinguir-se de “rôbo” (roubo, substantivo). Não é esse o caso de “leigo com leigo”. Castro Lopes também não explica o rotacismo (mudança de l para r) na sílaba inicial de “clérigo” (cré). Melhor hipótese é a de João Ribeiro, ao propor “lei com lei, credo com credo” (RIBEIRO, João. Frazes feitas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1908): pode ter faltado a explicação da mudança de “lei” para “lé”, mas, pelo menos, não foi preciso explicar a evolução de “credo” para “cré”. Vasco Botelho do Amaral, em Meditações críticas sobre a língua portuguesa (Lisboa: Edições Gama, 1945, p.120-l), cita, sem explicar, a locução “da mesma lé”. Seria sinônimo de “laia”?
Qualquer hipótese, nesse terreno, poderia ser tão ruim quanto as de Castro Lopes e João Ribeiro. Por que não “léu com léu, crepe com crepe” (por “nudez com nudez, roupa com roupa”)? Pelo menos nesta hipótese (que aqui apresento como contestação) não é preciso explicar a mudança de timbre. É arriscado, senão leviano, fazer conjeturas sem respaldo científico.
Está neste caso a expressão “fazer ouvidos de mercador”, que Castro Lopes explicou como corruptela de “fazer ouvidos de mau credor”, sem explicar como se deu a confusão entre “mau credor” e “mercador”, ou como se processaram as alterações fônicas. João Ribeiro acha que, na expressão, mercador é mercador mesmo, que, por gritar a plenos pulmões suas mercadorias em via pública, fez crer aos que o ouviam sua condição de mouco.
Melhor explicação, dá-no-la Orlando Neves (Dicionário das origens das frases feitas. Porto: Lello & Irmão, 1992, s.v. “Fazer ouvidos de mercador”), que atribui à palavra “mercador” uma corruptela de “marcador”, nome que se dava ao carrasco que marcava os ladrões com ferro em brasa, indiferente aos seus gritos de dor. O Diccionario do Moraes não consigna o termo marcador, mas, no verbete marcar, dá a seguinte explicação: “Pôr marca, sinal; v.g. marcar o gado com ferro quente; marcar o ladrão na testa;” o que confirma a existência da pena cruel e, conseqüentemente, a daquele que a aplicava.
Assim, o “mercador” da frase feita é corruptela de “marcador”, o carrasco surdo às súplicas alheias.
2. Por que o homem brasileiro simples chama a esposa de “patroa”? A ideia é sutil. Um patrão não é apenas um dono. O patrão é a pessoa para quem se trabalha, aquele que é beneficiado com o produto do trabalho assalariado de alguém que está a seu serviço. Ora, a esposa, que, na sociedade patriarcal, não trabalha fora de casa, é a beneficiária do trabalho do marido assalariado. Em outras palavras, a mulher que é apenas uma dona de casa é a patroa, porque o marido trabalha para ela!
3. Por que velhos são “coroas” ? – Quando houve a proclamação da República, tudo o que era imperial passou a ser sinônimo de coisa antiga. Em seu Novo dicionário da gíria brasileira (3.ed. Rio de Janeiro: Tupã, 1957, s.v. – a 1ª edição é de 1945), Manuel Viotti define coroa como gíria militar, com o sentido de “Antiguidade, a monarquia decaída”. Por força do recrutamento obrigatório dos jovens de 18 anos, que, findo o treinamento, voltam às atividades civis e difundem a linguagem da caserna, muitas palavras da gíria militar acabam adquirindo foro de universalidade. Foi o que ocorreu com “rancho”, que designa o restaurante e, por extensão, a comida ou a refeição, como em “hora do rancho”, ou o que ocorreu com batebute, corruptela do inglês battle boot, “bota de batalha”, que designa o coturno ou o chapim. Assim, tudo o que era antigo ou velho era da coroa ou, simplesmente, por metonímia, era “coroa”. Um homem velho, portanto, é antiguidade, é coroa.
4. Por que se diz “conto do vigário”? – A palavra “vigário” vem do latim vicariu-, que significa “substituto”. Isso quer dizer que o sacerdote é chamado vigário por ser um substituto do bispo, numa paróquia. O Papa é chamado de “vigário de Cristo”, isto é, o substituto de Cristo. É nesse sentido original de substituto que se chama “vicário” (com c, por ter entrado na língua por via erudita) o verbo que, numa oração, substitui outro, da oração precedente, como em “Se ele pergunta é porque não sabe”, onde o É está no lugar de PERGUNTA. A expressão “conto do vigário”, para designar um engodo, relaciona-se com o sentido primitivo do termo latino, e não com o sacerdote. Em outras palavras, “conto do vigário” é a história em que uma pessoa leva o substituto (sem valor) de algo que pretendia adquirir com vantagem. Em termos proverbiais: leva gato por lebre. Também se chama “conto do paco”. Paco veio do latim paccus ou do francês pacque (palavra originária do étimo neerlandês packe), por intermédio do lunfardo, como gíria de ladrões. Pacote é diminutivo de paco.
5. Por que “amigo da onça”? – Alguns autores fantasiam a origem da expressão popular “amigo da onça”. Magalhães Júnior, em seu Dicionário brasileiro de provérbios, locuções e ditos curiosos (4. ed. Rio de Janeiro: Documentário, 1977, s.v. amigo da onça), conta a seguinte história: um caçador mentiroso dizia que fora acuado por uma onça de encontro a uma rocha. Sem armas e sem ter como fugir, escapa dando um grito tão violento que a onça, assustada, fugiu em pânico. Ante o descrédito do ouvinte, o contador de história pergunta: “Você é meu amigo ou amigo da onça?” Antenor Nascentes, no Tesouro da fraseologia brasileira (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, s.v. amigo), conta outra história: um caçador, à beira de um abismo, encontrou uma onça. Tentou matá-la, mas a espingarda falhou. O caçador então pergunta ao ouvinte se ele imagina o que aconteceu em seguida. Este, obviamente, responde que a onça teria devorado o caçador. E o caçador, indignado, pergunta: “Você é meu amigo ou amigo da onça?” São histórias fantasiosas sem respaldo documental.
Ora, “onça”, na expressão em estudo, não designa o felino, porque está no sentido clássico de “miséria”. “Estar na onça”, para João Ribeiro (Frazes feitas, Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1908, p. 125-6) é estar na penúria. A libra tem doze onças. Estar na undécima onça é estar quase na miséria. João Ribeiro refere-se à expressão também em italiano: “su l’undic’once”, isto é, na undécima onça, quase na miséria. Macedo Soares (Dicionário brasileiro da língua portuguesa. Rio de Janeiro: MEC/INL, 1954, vol. I; 1955, vol. II, s.v. onça) explicita que “estar na onça” é “loc. dos estudantes, não ter vintém”. Quem só tinha uma onça procurava guardá-la ou evitava gastá-la, para não ficar a zero. Tornou-se, portanto, compulsoriamente, um “amigo da onça”. Com o tempo, “amigo da onça” passou a sinônimo de “amigo da miséria” alheia, como o personagem que o humorista Péricles de Andrade Maranhão imortalizou nas páginas da revista O Cruzeiro.
6. Por que o mau motorista é barbeiro? – Viterbo afirma que barbeiro era o oficial “que se ocupava de alimpar açacalar, dar esmeril e guarnecer as espadas, adagas, etc.” (VITERBO, Joaquim de Santa Rosa. Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal se usaram e que hoje regularmente se ignoram. Edição crítica de Mário Fiúza. Porto: Civilização, 1965, s.v. Barbeiro das espadas.). O dicionário de Moraes Silva diz que barbeiro é o “Homem que faz as barbas, e as rapa, corta ou apara.” E conclui: “Há barbeiros de lanceta, ou sangradores, outros dantes concertavão as espadas limpando-as, e afiando-as, alias alfagemes” (s.v. Barbeiro). No seu Glossário crítico de dificuldades do idioma português (Porto: Simões Lopes, 1947), Vasco Botelho do Amaral (s.v. Barbeiro) cita Gonçalves Viana, que informa que, “sobretudo, o barbeiro tinha amplas funções de médico de aldeia, aplicando mezinhas e sanguessugas, fazendo sangrias, cortando calos e tirando dentes” e que “os barbeiros da aldeia tinham, além de outras, também funções de sangradores e de cirurgiões”. Vasco B. do Amaral lembra um anexim popular de sua época: “quem lhe dói o dente busca o barbeiro”. Ora, quando um barbeiro era infeliz em alguma missão diferente daquela que lhe garantira o nome da profissão – ater-se à barba e ao cabelo – o povo lembrava que o insucesso da empreitada era “coisa de barbeiro” e não de médico ou de dentista especializado. Por extensão, era chamado barbeiro quem fazia de modo infeliz alguma coisa para a qual não era profissionalmente preparado. Um motorista, consequentemente, é barbeiro quando realiza algum tipo de manobra que denota a sua inabilidade ao volante ou a sua falta de vocação como condutor de veículo

(José Augusto Carvalho é Mestre em Lingüística pela Unicamp e Doutor em Letras pela USP)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A nível de....


A NÍVEL DE, FRENTE A, TV A CORES
José Augusto Carvalho

Professor de Linguística da Universidade Federal do Espírito Santo
Seria correto dizer “a nível de”, “frente a” ou “face a” e “TV a cores”?
Antes de responder, gostaria de fazer duas observações. A primeira diz respeito à construção de locuções prepositivas que têm um substantivo como núcleo. A norma recomenda que, nesses casos, deverá haver sempre duas preposições, uma antes e outra depois do substantivo. Exemplos: com respeito a, a respeito de, a favor de, em relação a, a propósito de, em função de, em atenção a, de acordo com, com referência a, com vistas a, em nível de, em função de, a propósito de, etc. Portanto, as locuções prepositivas “face a” e “frente a” não existem. Como “face” e “frente” são substantivos, a formação das locuções não pode prescindir da preposição antes do núcleo. Portanto as locuções corretas são “em face de” e “em frente de” ou “em frente a”. As únicas locuções prepositivas com núcleo substantivo e apenas uma preposição no fim são, que eu saiba, “graças a” e “mercê de”, que são sinônimas. Esta última, com sentido de “ao capricho de”, tem também duas preposições ladeando o núcleo substantivo: “por mercê de”. A explicação para essas exceções, parece-me, prende-se à mudança de sentido ao longo do tempo. A expressão “graças a” é exceção talvez por causa da alteração semântica do latim “gratia”, agrado, para “favor” e “reconhecimento” (“dar graças a Deus”), que se manteve no sinônimo “mercê”: “mercê de Deus” (“pela mercê de Deus”). Assim “graças a” vem de “graças a Deus”, uma parte da expressão “dar graças a Deus”. As formas “graça” e “mercê” (esta, em sua tradução francesa, “merci”, denota agradecimento) estão na origem das formas respeitosas de tratamento de 2ª pessoa: Vossa Mercê (port.), Vuestra Merced (esp.), Lei (=ela, italiano), Sie (= elas, alemão). Em alemão, a fórmula “Vossa Mercê” era traduzida no plural: Eure (por Euer) Gnaden, isto é, “vossas graças”.
A segunda observação diz respeito ao emprego das preposições. As preposições não têm valor semântico. São palavras relacionais, isto é, apenas estabelecem relações semânticas. Não significam absolutamente nada, sozinhas. Portanto é difícil estabelecer regras para o emprego das preposições. Dizemos “andar a cavalo”, com a, mas “andar de burro”, com de; dizemos “ir a pé”, com a, mas “ir de bicicleta”, com de. Dizemos “à tarde” e “à noite”, e não podemos dizer “à manhã”, mas apenas “de manhã”, com de. O mais que se pode fazer é tentar estabelecer uma padronização. Isto é: assim como dizemos, no Brasil, “tevê em preto e branco”, é melhor dizer “tevê em cores”, e não “a cores”. Isso não significa que se deva condenar a expressão “tevê a cores”, ou que não se possa dizer “tevê a preto e branco”. O poeta alentejano José-Augusto de Carvalho, autor de uma dezena de livros, como Arestas vivas (1980), Sortilégio (1986), Tempos de verbo (1990), Vivo e desnudo (1996), A instante nudez (2005), entre outros, no livro O meu cancioneiro, que tive o privilégio de prefaciar, escreve, no poema Natal (p. 46): “Festejai, que é de bom tom! / Vinte e quatro horas de amor! / Abaixo o mau! Viva o bom! / Depois, novamente a dor, / a preto e branco e sem som.”
No caso de “a nível de”, as gramáticas condenam indevidamente a locução, porque se trata de galicismo (ex.: “Il est à mon niveau”, isto é, “ele é do meu nível” ou “está no meu nível”), e ensinam que se deve dizer “em nível de”. Ora, se formos condenar galicismos, temos de evitar dizer abajur, avalanche, flamboyant e inúmeras outras palavras. E teremos de condenar também – segundo Cláudio Brandão, em sua Sintaxe Portuguesa (Belo Horizonte: Ed. do Autor, 1963, p. 559-60) – certas expressões de uso corrente que também são galicismos, como “galinha ao molho pardo” (em vernáculo deveria ser “galinha em molho pardo”), ou “trabalho a fazer” (o ideal seria “trabalho para fazer”), ou “equação a duas incógnitas” (por “equação com duas incógnitas” ou “de duas incógnitas”), ou “solução à base de sal” (em vernáculo diríamos “em base de sal” ou “com base em sal”). Portanto “em nível de” é construção preferível, por ser mais portuguesa, mas isso não significa que a expressão “a nível de” esteja incorreta. Em outras palavras: diga “em nível de”, mas procure não condenar quem disser “a nível de”, que também é forma aceitável.

Braziu!

Braziu!

Marcadores

Eu

Eu

1859-2009

1859-2009
150 anos de A ORIGEM DAS ESPÉCIES

Assim caminha Darwin

Assim caminha Darwin

Esperando

Esperando

Google Analytics