TUCA PUC 1977
EU QUASE QUE NADA SEI. MAS DESCONFIO DE MUITA COISA. GUIMARÃES ROSA.
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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Em Portugal


Ontem soube a pouco do Blog A Terceira Noite, Portugal, AQUI
Publicado às 17:29 de Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010


Uma vez mais os números resvalam. Centrais sindicais e governo avançam com dados completamente divergentes sobre a adesão à Greve Geral, deixando no ar a impressão de esta ter valido mais por aquilo que representou para cada um dos lados do que por aquilo que inequivocamente deveria ter mostrado à opinião pública nacional e internacional.

Uma greve desta natureza só teria um real impacto e forçaria o governo a repensar políticas e decisões se fosse acompanhada de campanhas de mobilização intensas, massivas e bem sonoras. Mais voltadas para os espaços públicos (ruas, bairros, mercados, estádios, centros comerciais) do que para as conferências de imprensa e os placards dos sindicatos. Mais dirigidas ao cidadão comum do que aos núcleos activos na administração pública e nas empresas, que apesar de um trabalho apreciável muitas vezes se remetem a uma actuação corporativa. Só teria verdadeiro efeito se tivesse sido acompanhada de demonstrações públicas unitárias e ousadas (desfiles, buzinões, meetings, campanhas de desobediência), mais apontadas às lógicas do sistema do que aos seus efeitos perversos, momentaneamente insuperáveis. Só teria vencido se tivesse sido capaz de uma dinâmica transnacional, partilhada com organizações sindicais e políticas de outros países, já que aquilo que está a acontecer tem também uma dimensão que ultrapassa todas as fronteiras. O combate contra a selvajaria dos mercados financeiros, contra o alargamento das desigualdades e pela recuperação do Estado social não é apenas nosso; procurando parecê-lo acaba por dar o flanco.

No entanto, para que tudo isto seja possível são precisos movimentos sociais dinâmicos e organizações de trabalhadores mais abertas e desburocratizadas, atentas à mudança do mundo e à passagem das gerações. Não organizações dirigistas e entrincheiradas, de natureza algo proteccionista, com estratégias «de classe» bem definidas ou que actuam como prolongamento de agendas políticas partidárias. Para lá chegarmos existe, claro, um longo caminho a percorrer, não sendo líquido que ele não venha a conter recuos. Entretanto vai-se fazendo o que é possível fazer. A Greve Geral devia ter sido convocada e foi importante, mas que não se venha agora com a lengalenga da «grande vitória» se o outro lado não recuou nem vai recuar um milímetro. Porque não se sentiu realmente abalado.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Em Portugal...



Do Blog Água Lisa, Portugal AQUI
Uma pedrada contra o charco fatalista

Não tenho dúvidas: a greve geral de amanhã será o momento mais alto de cidadania colectiva dos últimos anos. Tem de ser, e será, tão forte que até os surdos políticos a vão ouvir.
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Comentário:
Que inveja dos portugueses nesse quesito. No Brasil a cidadania virou um conto de Kafka.
- professor não dá aula, alunos não recorrem e se recorrem nada .... acontece;
- vemos uso privado de bens públicos e NADA... em água destilada.
- doutorandos copiam teses e são aprovados ... e nadam em água cristalina.
- há denúncias de algumas lambanças e NADAM ... em água filtrada.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Greve geral em Portugal


Em Portugal


Os portugueses


Por Daniel Oliveira do Blog ARRASTÃO. AQUI


Nada há de mais cansativo do que as conversas existenciais sobre os portugueses. Eles são tristes. Pessimistas. Obedientes. Invejosos. Mesquinhos. É curioso que a coisa raramente bate certo com a ideia que os portugueses têm do seu passado. Que foram corajosos. Ambiciosos. Tolerantes. Generosos. E a propósito desta incongruência construiu-se uma narrativa que se entranhou nos nossos espíritos: a de um Império perdido que espera, acabrunhado nos seus brandos costumes, pelo regresso de um Sebastião que lhe devolva essa glória imaginada.

Os portugueses não são nada. São, como todos os povos, temerosos e temerários, tolerantes e preconceituosos, mesquinhos e generosos. E a sua proverbial inveja resulta apenas de uma forma resignada que temos de lidar com a injustiça. Quando se vive num país onde uma pequena elite goza de um conforto desproporcionado para os recursos que temos e a maioria de uma pobreza que o que já temos não justifica, a inveja é apenas a alternativa passiva à revolta. Mas essa revolta já se fez sentir algumas vezes: na I República e no PREC, por exemplo. Dois momentos de dignidade em que os portugueses contrariaram a narrativa que a sua elite foi construindo sobre eles. Dois saltos no escuro que nos fizeram melhores como povo.

Aquilo a que assistimos nos últimos meses tem décadas. Tem séculos. Dia após dia, todos os dias, vendem-nos as histórias de sempre: vivemos acima do que podemos; não merecemos o pouco que temos; somos gastadores e improdutivos; devemos aceitar disciplinadamente todos os sacrifícios; a revolta apenas nos poderá prejudicar.

É por isso que a próxima greve geral é uma urgência. Um momento em que recusamos a estabilidade que nos amesquinha numa mediocridade que não merecemos. Não é apenas um protesto. Não pode ser apenas um grito. Tem de ser um aviso. Não somos o que se diz de nós. Ou até somos. Invejosos perante os privilégios que outros não merecem. Rancorosos por décadas de assalto ao que devia ser de todos. Intolerantes com a injustiça que deixa sempre para os mesmos a fatura de erros que não lhes podem ser atribuídos. Enfim, cidadãos. Fartos de ser os portugueses que queriam que fossemos.

Texto publicado na edição do Expresso de 13 de novembro de 2010

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