TUCA PUC 1977
EU QUASE QUE NADA SEI. MAS DESCONFIO DE MUITA COISA. GUIMARÃES ROSA.
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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

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IHU On line, entrevista de Roberto Romano sobre o niilismo ético brasileiro e mundial. 20 de Dezembro de 2010.
Revista IHU On-Line ed. 354 -
Niilismo e relativismo de valores. Mercadejo ético ou via da emancipação e da salvação?
Niilismo e mercadejo ético brasileiro
Corrosão “de alto a baixo” no caráter de indivíduos e grupos e supervalorização do mercado são traços peculiares do niilismo em terras brasileiras, acentua o filósofo Roberto Romano. A ocidentalização do mundo pulverizou o etnocentrismo dissolvente dos paradigmas milenares
Por: Márcia Junges
“O século XX consagra o padrão ocidental de vida, de valores, de técnicas e ciências”, não sem receber reações contra essa “pulverização axiológica do Ocidente”, pondera o filósofo Roberto Romano em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Refletindo sobre o nexo que une niilismo ético e relativismo de valores no século XXI, afirma que “vivemos sob o signo das Luzes europeias e do etnocentrismo que ajudou a corroer paradigmas éticos milenares, no Ocidente e no Oriente”. Romano assinala haver no Brasil “uma peculiar corrosão ética não alheia ao capitalismo, como nas práticas do favor que atravessam todas as relações sociais e políticas”. Em sua opinião, vivemos num “mercadejo ético”, no qual “o caráter dos indivíduos e grupos é corroído de alto a baixo”. E continua: “Nosso Estado preza mais o mercado (inclusive eleitoral) do que as pessoas. Aqui, todos são meios e raros conseguem, pagando preço altíssimo, viver consigo mesmos o segredo da consciência moral. O mercado exerce uma corrosão previsível e impiedosa em todos os setores da vida, incluindo a universidade”. Questionado se o projeto político moderno está arruinado, disse que é arriscado dar um veredito. “Se irá prosperar em detrimento das grandes matrizes éticas e religiosas, não sabemos”.

Roberto Romano cursou doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales - EHESS, na França, e é professor de filosofia na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Escreveu, entre outros, os livros Igreja contra Estado. Crítica ao populismo católico (São Paulo: Kairós, 1979), Conservadorismo romântico (2ª ed. São Paulo: Ed. UNESP, 1997) e Moral e Ciência. A monstruosidade no século XVIII (São Paulo: Senac Ed., 2002). Atualmente, leciona na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Confira a entrevista.


IHU On-Line -
O que explica o niilismo ético e o relativismo de valores que presenciamos no século XXI?

Roberto Romano
- Seria tarefa própria a quem se caracteriza pela hybris discorrer sobre todos os prismas da pergunta. Ela é importante, diria mesmo que vital, mas numa entrevista as respostas tombariam no dogmatismo ou na superficialidade. Posso evocar a fábula que narra como produzimos a forma que reconhecemos hoje em nós e nos nossos iguais. Para a fábula, uso noções trazidas pelo saudoso André Leroi-Gourhan . Os homens construíram seu corpo e mente em milênios de tecnologia. Eles verticalizaram a espinha, diminuíram o queixo, aumentaram a caixa craniana e alargaram o campo de visão, o que tornou possível perceber as gradações de espaço e tempo. “Somos inteligentes, porque ficamos de pé”, diz o etnólogo. Eles diminuíram os braços e os tornaram capazes de operar com as mãos e a boca, inventaram a linguagem. Fabricaram instrumentos que permitem agarrar entes naturais dando-lhes sentido útil. O sistema inteiro ainda hoje está em progresso, sobretudo no lado tecnológico. Na faina incessante, idealizaram paradigmas a serem obedecidos nos macroeventos e microeventos da vida coletiva e individual (o indivíduo foi invenção técnica). Na história de todo o nosso parto, diz Gourhan, usamos capacidades contraditórias, o empréstimo e a invenção. Nenhum coletivo humano vive sem emprestar técnicas, cultura e valores de outros. E nenhum deles se desenvolve sem possuir força inventiva própria. Só pode emprestar com eficácia quem for capaz de inventar, e vice-versa.

Em momentos anteriores de nossa apropriação de corpo e mente, valores serviram como paradigmas de ação para os mais diversos grupos. Mas desde longa data os entes humanos entraram em circuitos amplos e diversificados de trato, uns com os outros. Se prestarmos atenção nos complexos civilizatórios, da China ao Egito antigo, da Grécia a Roma, do Renascimento aos nossos dias, nenhum deles é imune à dialética da invenção e do empréstimo. Isso, sem falar na pilhagem de saberes e técnicas, como no caso do Ocidente que assaltou os conhecimentos chineses e orientais durante as chamadas “Grandes Descobertas”. E também o que se passa no trato industrial, quando roubos de tecnologia são costumeiros de país a país. Quanto mais amplo e eficaz, para seus habitantes, o amálgama de valores e técnicas, maior poder possui um coletivo, inclusive porque os empréstimos e invenções são dirigidos, quase imediatamente, para a guerra.

Abismo de ideias

Até o século XIX, no entanto, os conglomerados culturais, étnicos e políticos eram orientados por modelos que eles encontraram e que definiam seus traços principais. Com o imperialismo colonial do Ocidente aumenta a rapidez no trânsito dos empréstimos e das invenções. Diferenças culturais se atenuam em proveito dos ocidentais. Não faltou no Ocidente quem tenha defendido outro modelo que não o definido na Europa, para o trato com a Ásia e a África. Leibniz pensou o ecumenismo não apenas entre europeus, mas entre todos os povos. No caso do catolicismo, o fracasso foi evidente. Os jesuítas (apoiados por Leibniz) queriam preservar na China o culto aos ancestrais, vestes chinesas e filosofia confuciana nos ritos cristãos . Os dominicanos exigiam abolir o culto aos antepassados, vestes romanas, proibição das doutrinas de Confúcio. Venceram os dominicanos e, com eles, o diálogo entre Europa e China foi obstruído até hoje. Apesar de toda a sua boa vontade, os missionários católicos e protestantes na China, no Oriente e na África, não se desvincularam dos poderes coloniais europeus. Se lembrarmos que na China os ingleses colocavam na porta de seus clubes um aviso que proibia a entrada de cães e de chineses, percebemos o abismo entre as ideias ecumênicas de Leibniz e jesuítas e a efetividade histórica.

O século XX consagra o padrão ocidental de vida, de valores, de técnicas e ciências. Leroi-Gourhan, nos seus últimos dias, se preocupava com a inusitada atenuação das diferenças culturais, em proveito dos parâmetros ocidentais. Hollywood era vista por ele como a indústria que, por meio do star system, impunha padrões aos demais continentes, corroendo os valores e as forças inventivas das suas culturas, obrigadas ao empréstimo pela propaganda maciça e pelas armas.

Ocidentalização

Deixemos a fábula e sigamos o adensamento populacional. As cidades, das pequenas às metrópoles, são inventos técnicos. Quanto menor um coletivo, menor número de instrumentos de comunicação, governo, cultura ele movimenta. E mais sólidos se mostram aqueles valores na mente coletiva. O campo ético, ali, é mais denso e compacto, não permite desvios substanciais. Quanto maior o coletivo, mais os valores recebem matizes complexos. Chegamos ao que diz Weber sobre o politeísmo dos valores. O passo não se dá sem quebras internas nos vários sistemas culturais. O imperialismo colonial efetivou tal tarefa em séculos de imposição pelas armas, astúcias diplomáticas, controle das comunicações. Com a última revolução técnica de alcance mundial, nas trocas entre culturas, a da informática (com a internet, a TV a cabo, etc.) os padrões ocidentais, inclusive o nivelamento por baixo dos valores, anunciavam uma vitória definitiva.

Para surpresa de teóricos e políticos, coletivos não ocidentais se mostram capazes de emprestar elementos da “nossa” cultura e também de inventar ou reinventar novas formas. E mais, dentro da própria cultura ocidental se cristalizam movimentos contrários ao politeísmo dos valores. Trata-se, entre outros, do fenômeno ainda não estudado em profundidade merecida, que se afirma sob o título de fundamentalismo. Católicos, protestantes, islamitas condensam seus laços com o passado e reagem contra a pulverização axiológica do Ocidente. As grandes matrizes éticas, com uso da tecnologia mais avançada, entram em campanha contra parte do Ocidente que se expandiu desde o século XV.

Aquelas matrizes (confucionismo e budismo na China, Índia e outros; o judaísmo e o cristianismo na Europa e nas colônias europeias, além dos países eslavos; o islamismo na Índia, no Paquistão, no Oriente Médio) definem até hoje um sistema interno de valores e atos. Mas na Europa e setores norte e sul-americanos, se firmou uma tênue camada social definida pelo que se convencionou chamar de “mundo secularizado”. Com a Renascença, as Luzes, os Estados independentes das igrejas, os valores mantidos pelas matrizes éticas mencionadas recebem corrosão virulenta. A parceria entre burgueses e líderes colonialistas, potenciada por intelectuais livres das amarras religiosas, gradativamente e com maior rapidez passou a corroer certezas coletivas que se ancoravam no Eterno ou na ordem natural.


Dissolução e estraçalhamento do indivíduo

A tarefa corrosiva conduzida pela burguesia e seus intelectuais foi descrita por Hegel e Marx . Para mencionar o mundo ético, Hegel usa com frequência inquietante o termo “dissolução” (Auflösung). Na “Filosofia Real” ele define o elemento químico quando unido ao calor: “a matéria calórica é existência, possibilidade de difundir-se perfeitamente; os elementos já estão perfeitamente dissolvidos, carecem entre si de massa, de existência (...). Trata-se da matéria, dissolvida por si mesma (...) que existe enquanto dissolução”. Da química, Hegel vai ao orgânico e guarda o termo “dissolução”. O sangue, no animal, “é a simples dissolução que não apenas contém tudo, mas que é calor, unidade de si e da figura, o devorar-se a si mesmo. Desse modo, o organismo está tenso como indivíduo inteiro perante o exterior, tem fome e sede. É um todo que devora a si mesmo”. No mundo espiritual, humano, a concepção hegeliana do elo entre indivíduos e todo social é de unidade e compenetração. O todo só é através do singular. E o singular só no universal encontra a base de sua existência. Caso o indivíduo se apoie apenas em si mesmo, negando o universal, faz surgir o ideal. Este, por sua vez, começa a dissolver o Todo existente. O mundo ético já se encontra elaborado para o indivíduo na aparência de necessidade externa. Mas a adesão à racionalidade objetiva do Estado pode ser uma submissão simples, ou nascer de um recolhimento livre e meditado.
Ao discutir O sobrinho de Rameau , Hegel descreve o indivíduo e seu estraçalhamento. Ali, os elementos sólidos se dissolvem numa perversão generalizada. Na vida contemporânea, diz o filósofo, “o Bem e o Mal, ou a consciência do bem e do mal, nobre e vil, são desprovidos de verdade; todos esses momentos se pervertem uns nos outros e cada um deles é o oposto de si mesmo”. No reino do “puro cultivo” o espelhamento rege indivíduos e grupos. Todos os partícipes da experiência social nela se integram de modo pervertido: “exercem um para o outro uma justiça universal; cada um tornou-se estranho a si mesmo, em si mesmo, enquanto se insinua em seu oposto, e o perverte do mesmo jeito”.


Ver o texto na íntegra AQUI

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Cultura da fraude


Enviado pelo João Capelari

Grata!

Maioria dos cientistas já testemunhou abuso ético
Nos EUA, 84% presenciaram falsificação de dados, plágio e práticas afins

Pesquisadores dizem ter tentado intervir para corrigir erros; casos, em geral, envolviam chefes dos grupos de pesquisa

SABINE RIGHETTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA de São Paulo

A maioria dos cientistas já testemunhou ou se envolveu em casos de infração científica como falsificação de dados ou plágio. É isso que revela um estudo inédito conduzido pelo Simmons College, dos Estados Unidos.
De um total de 2.599 cientistas americanos e canadenses com pesquisas financiadas pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês), 84% disseram já ter presenciado ou participado de infrações científicas.
Dentre os cientistas que participaram direta ou indiretamente de um trabalho com dados fraudulentos, 63% disseram ter tentado intervir para evitar o abuso.
As informações, coletadas por meio de um questionário enviado por email aos cientistas, respondido anonimamente, estão na edição de hoje da revista "Nature".

DE CIMA PRA BAIXO
"Na maioria dos casos relatados, as infrações de dados foram conduzidas por um chefe [orientador ou coordenador de pesquisa]. Isso torna difícil uma intervenção por parte dos pesquisadores", disse à Folha Gerald Koocher, um dos coordenadores da pesquisa.
Ele explica que as intervenções são mais fáceis para cientistas distantes do infrator do que para quem está no mesmo laboratório.
"Em 61 casos, não houve intervenção diante de um erro porque o cientista era um amigo", conta Koocher.
No topo da lista de infrações cometidas pelos cientistas, estão fabricação ou falsificação de dados, falsa co-autoria de artigo e plágio.

SOLUÇÕES
Segundo Koocher, as estatísticas encontradas nos EUA podem ser generalizadas para Brasil, Austrália e alguns países da Europa que, na opinião dele, possuem uma "cultura científica bastante semelhante".
Com base na pesquisa, os autores criaram uma espécie de guia de 60 páginas que traz sugestões para os cientistas saberem o que fazer diante de uma pesquisa com dados fraudulentos (www.ethicsresearch.com).
"Mas o guia não faz rodeios e reconhece que nem sempre os pesquisadores conseguirão tomar uma atitude diante de um erro científico", revela o autor.
A ideia de estudar infrações científicas foi do governo americano, para tentar mapear erros em dados científicos. "Sabemos que os pesquisadores, especialmente nos grandes estudos, podem não checar números e não repetem os estudos", conta.
Ainda podemos confiar na ciência? Koocher acredita que sim. "A maioria dos cientistas é honesta. Nós temos dados positivos e precisamos descobrir como fazer para melhorar a integridade dos cientistas", finaliza.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Entrevista...

No Blog do Roberto Romano

Entrevista
“Senadores foram capachos do Lula”
Roberto Romano
, professor de Ética e Filosofia Política da Unicamp
Publicado em 21/08/2009 André Gonçalves, correspondente
Brasília -
O apoio do PT ao engavetamento das denúncias contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), é mais um episódio de servilismo do partido aos interesses do presidente Lula. A opinião é do professor de Ética e Filosofia Política da Universidade de Campinas (Unicamp), Roberto Romano.
Segundo ele, Lula age como uma “criança mimada” ao interferir nas decisões do Congresso Nacional. “Ninguém tem coragem de dizer verdades ao presidente.”
Romano também alerta que a ética dos senadores está se afastando cada vez mais da ética do restante da sociedade. “Os senadores estão cometendo haraquiri político ao acabar com a legitimidade deles próprios.”
O PT passa por uma crise ética?
Eu acho que a resposta é relativa. Crise ética não é bem o caso, nem é correto restringi-la ao PT. A ética vivida no Senado é bastante sólida – uma ética absolutamente contrária à democracia, à responsabilidade e ao respeito ao cidadão. Mas ela é concreta, tanto que livraram mais uma vez a cabeça do chefe (José Sarney). Esse episódio mostra de novo que a ética dos políticos conflita com a da sociedade. O que existe na verdade é uma crise entre a ética do Senado e a da sociedade brasileira. A sociedade evolui e nossos senadores mantêm o padrão patrimonialista de sempre. Os últimos acontecimentos acabaram com a penúltima amarra entre eles e a sociedade. Os senadores estão cometendo haraquiri político ao acabar com a legitimidade deles próprios.
O que significam as saídas de Marina Silva e Flávio Arns do partido?
Eles estão saindo do PT porque es­­­tão perdendo o vínculo com a sua representação. A decisão dos dois va­­loriza o compromisso com os eleitores. O senador Arns, por exemplo, tem um patrimônio simbólico inestimável. Ele carrega o nome e o legado do cardeal dom Evaristo Arns e da doutora Zilda Arns, figuras internacionais. É um capital perene, que ele soube honrar.
Como fica a situação dos senadores petistas que votaram a favor de José Sarney?
A cara de pau da maioria dos senadores nesse caso foi tremenda. E vai continuar assim porque faz parte da ética que eles próprios construíram. Delcídio Amaral, Ideli Salvati e João Pedro jogaram contra eles próprios e visivelmente se envergonharam do que fizeram. Não foi à toa que o Delcídio se escondeu atrás de livros durante a sessão, que a Ideli evitou falar alto ao microfone. Atitudes lamentáveis. Eles foram capachos do Lula.
A população percebe essa situação?
Temos percepções muito distintas. A população do centro-sul do Brasil, de Porto Alegre até o Sul de Minas Gerais certamente está acompanhando tudo com uma indignação muito grande. No Nordeste e Norte depende muito do grau de mobilização da sociedade, do nível de dependência dos programas assistenciais do governo. Não diria que estão todos alheios ou todos indignados. Mas o Lula sabe o tamanho do desgaste que vem sofrendo.
Quer dizer que Lula pode enfim ficar com a imagem arranhada, após tantas pizzas e escândalos?
Lula continua tendo o charme de sempre e aperfeiçoou-se ainda mais no uso do discurso demagógico, o que minimiza o desgaste. Mas o castigo pode vir de forma diferente. Apesar de todo esforço, ele não tem como certa a adesão do PMDB à candidatura da ministra Dilma Rousseff. Além disso, Dilma tem se mostrado uma candidata desastrosa. Ela é tão explosiva e insensata quanto Ciro Gomes.

Lula é o responsável pela ambiguidade ética do PT?
O PT é responsável pela ambiguidade do Lula. E vice-versa. O partido sempre investiu no Lula dentro de uma relação de servilismo. Durante 20 anos o PT não permitiu que aparecessem outros candidatos à Presidência. Lula é o dono do PT. Ele parece uma criança mimada. Ninguém tem coragem de dizer verdades ao presidente. Por outro lado, ele diz todo tipo de absurdos. Essa história de falar que o Sarney não é homem comum foi uma calamidade. Mas não é de agora. Ele sempre foi assim e sempre porque o PT permitiu.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Leitura uau


Da Mary, sempre uma leitura uau!


Eu queria falar um lance sobre isso. Da vida familiar ter se tornado o foco do way of life americano. Porque eu estou completamente absorvida por essas discussões. Da ética vingente e da identidade que ela possibilita e tal. Por conta do projeto de doutorado que tô fazendo. E claro que é muito recortado e não interessa pras pessoas, projeto de doutorado. Mas eu estou fazendo sobre riot grrls mesmo. Que é o que eu queria estudar desde sempre. E acho que é um grupo que meio que sintetiza o que eu quero estudar. Que agora eu chamo de transfiguração do político, por causa do Maffesoli. Se esses grupos transfiguram o político (a ponto de podermos pensá-los como despolitizados num certo sentido) ao mesmo tempo que atuam sistematicamente, eu achei que eu precisava ter alguma coisa sobre identidade. Porque ela tá transmutada também, se a ação política está virada de ponta cabeça. Eu acredito mesmo que primeiro é a ética que muda, depois muda a identidade, depois muda o agir político. Mais ou menos assim. Daí eu peguei um livro maravilhoso, que eu já tinha tido contato, por ordem do meu co-orientador de mestrado. Eu acho que ele queria me mostrar como se construiu essa ética da pluralidade, mas eu vi outra coisa. E agora então. Tanto tempo depois. Tô lendo focada mesmo nas ativistas do feminismo contemporâneo. Mas, né? Charles Taylor não escreveu um livro. Ele escreveu um tratado de 700 páginas sobre a construção da identidade moderna. E então eu tô aprendendo muita coisa. E organizando outras que eu já sabia. Dentre as coisas que eu tô aprendendo, uma é absolutamente uau. A ponto de eu fechar o livro quando li. E ficar sentindo o meu coração acelerado. Com a sensação de "não é possível, todo mundo sabia isso, menos eu". Vamos então, ao post. Porque preâmbulo é a especialidade da casa. Ele situa o Locke como o cara da identidade moderna. Pra ele tá ali a coisa toda e tal. Mas aí ele explica. Como foi possível que assumissemos esse tipo de ética. Aí ele explicas as éticas anteriores. Porque a identidade é o resultado da configuração que a sociedade tem em determinado momento etc. Configuração pra ele é uma palavra super importante. E eu ando encantada por essa palavra. Ele diz assim. Que uma ética tem três eixos. Que são mais ou menos valorizados numa determinada sociedade. Primeiro, o respeito ao próximo. Segundo, o significado de viver uma vida que vale a pena (sentido da vida). Terceiro, a dignidade (o quanto eu sou merecedor do respeito). Ele diz que a moral orbita em torno disso aí. Ele diz que na antiguidade, existia a "Ética Guerreira". E que o mais importante nela era a dignidade. Sendo que ter uma vida plena significava ter o respeito dos demais.

O primeiro eixo era super precário na Grécia Antiga, por exemplo. O outro não merecia maiores atenções e eles jamais entenderiam o quanto o primeiro nos é caro etc. A nossa época, pelo que eu entendi, tem quatro éticas. E aqui a porca torceu o rabo pra mim. Ele diz que o segundo eixo (sentido da vida) é fundamental pra gente. Mesmo porque nós somos a época que mais diz que NÃO há sentido. O que é uma celebração desse eixo e dá mostras contínuas do quanto nos importamos com ele. Discutimos até para concluir que ele não existe. Nós temos a discussão mas NÃO temos configuração que nos dê a resposta. Os gregos tinham, eles sabiam porque deviam viver e morrer. Nós? Não. E aí ele diz algo já. Que gregos viviam pela fama. Pela imortalidade. Claro que já vem BBB na minha cabeça, né? Mas eu tiro porque não dá pra passar a vida analisando *o* programa. Ele resolve o problema da fama, mas não vai caber aqui tudo que ele fala etc.

O primeiro eixo ele fala que nós levamos ao limite. O Direito se ocupa de transformá-lo em lei obrigatória etc. E que a configuração mais escancarada que temos é a ausência de uma configuração comum a todos. Daí ele fala que Platão se colocou contra a "Ética do Guerreiro". E sugeriu uma "Ética Racional". Por isso eu digo que temos três éticas (ou quatro se considerarmos que a "Ética Teológica" ainda vigora pros tontos etc). Daí o sentido da vida seria a autonomia mesmo. E viver bem é viver a supremacia da razão sobre o desejo. Os estóicos etc. Ele diz que nós temos uma apropriação disso. Que é o indíviduo desprendido. Aqueles que conseguem objetificar o mundo e os próprios sentimentos. Aqueles que possuem distanciamento e autocontrole nas diversas situações e tal. Que vê o mundo desencantado, no sentido weberiano mesmo. Eu sou assim, sabe? Eu vivo essa atualização da ética platônica. Autocoerência e eficácia instrumental estão no centro dessa ética. E todo mundo a conhece. Porque ela é a ética do capitalismo. Nós também fazemos uso do altruísmo como um valor e nosso respeito ao outro é marcado por ele. Isso é atualização de ética religiosa, como é óbvio etc. Aí tem uma "Ética da Expressão". Que seria dos artistas. Porque nossa sociedade valoriza as artes como nunca antes e tendemos a considerar que viver para se expressar confere à vida um sentido. E os artistas vestem essa ética. Mesmo artista que não vinga, tem um sentido pra vida. Que seria poder fazer sua arte e se expressar etc. Nós legitimamos essa ética. Ele diz que a gente leva em conta, por exemplo, opinião política de artista etc. Eles dão norte pra todos nós e não há qualquer explicação racional pra isso. Só pode ser porque consideramos o expressar-se como algo. E aí ele chega à ética mais comum do nosso tempo. E precisamente aqui, meu queixo cai. Ele diz que a ética que mais floresce é a da afirmação da vida cotidiana. Eu noto mesmo. Que o mais importante, para um número gigante de pessoas, é a vida da produção e da reprodução. Daí trabalho e família etc. O sentido da vida está aí. O respeito ao outro está aí (a gente vê as pessoas sempre dizendo "e se fosse meu filho", sempre, pra justificar respeito ao outro). E a dignidade também. Você é respeitado por ser pai de família e um funcionário exemplar. Eu sou um pai de família é *a* evocação para exigir dignidade. Então nós temos. A "Ética da Vida Cotidiana". A "Ética Guerreira" e a "Ética Racional" relegam o cotidiano a segundo plano. Há coisas imensas para serem conquistadas etc. E de onde vem essa valorização do cotidiano? Morra. Porque vou transcrever. Pra não parece que eu tô mentindo.
A afirmação da vida cotidiana envolve, portanto, uma posição polêmica diante dessas concepções tradicionais e de seu elitismo implícito. Isso se aplicou às teologias da Reforma, que são a principal fonte do impulso a essa afirmação nos tempos modernos.
Veja que ele diz O CONTRÁRIO do Weber. Porque a "Ética Protestante" é a ética da razão. E o Charles Taylor fica falando da vida cotidiana e chamando de "Ética da Reforma". E ele chega a citar o Weber quando fala da atualização da ética do Platão. E toda essa leitura que a gente tem? De que a ética católica vigora nos países latinos. Isso faz sentido se pensarmos em termos de encantamento do mundo. Mas vida cotidiana? Não faz nenhum. Enfim. A culpa é do Lutero. Acho que só eu que não sabia. Porque, nossa. Tá na cara.
Não é minha "área". Mas claro que eu me considero militante GLBT. Mas não entendo do assunto. Só milito mesmo. Me arrepia um pouco pensar a luta gay por essa ótica. Mas assim. Me arrepia MUITO. Nós, feministas, temos um histórico de luta estrutural que eu não vejo tão seriamente abalado por essa ética. O movimento gay me parece estar sucumbindo. Mas enfim. Não entendo mesmo do assunto.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Vamos endurecer senão nossos desejos saltam pela pele



Livro da Maria Rita Khel, psicanalista. Sobre ética e psicanálise. Um tema interessante: para negar e amordaçar nossos desejos implantados leis e regras autoritárias. Dá para ler a Má-ringa e seus projetos de leis.

sábado, 30 de junho de 2007

Espírito do tempo, Do Blog do Orlando Tambosi


De Orlando Tambosi.Eis o "espírito do tempo" A revista Plug:, elaborada pelos alunos do XXIV Curso Abril de Jornalismo, relata que uma das novidades deste ano foi a abordagem da ética. Um ex-diretor da Abril Digital, que é jornalista e filósofo, "perguntou aos alunos o que é a verdade no jornalismo". Sem pretender "solucionar o impasse", diz o texto, ele "demonstrou que a verdade é sempre relativa, mesmo em um conceito mais amplo."Ora, se a verdade é tão relativa assim, o que é verdade para fulano pode ser mentira ou falsidade para sicrano. Vamos aos exemplos. Para Berzoini, Ideli e os petistas não existiram mensaleiros - é mentira da imprensa e da oposição. Logo, para eles esta é a verdade e basta. Da mesma forma, Renan Calheiros tem dito ad nauseam que já apresentou "toda a verdade". Se a verdade é relativa, o que a revista Veja e a PF demonstraram é falso. Absolva-se Renan. Haveria uma verdade relativa ao PT e a Renan e outra relativa aos que os acusam? Nesse caso, como ficariam os fatos? Os fatos não são relativos. São eles que tornam uma declaração ou proposição verdadeiras. Assim, a declaração "existiu o mensalão na Câmara dos Deputados" é verdadeira se, e somente se, existiu o mensalão na Câmara dos Deputados (agora sem aspas). Como foi provada a existência, esta é uma verdade absoluta.O pior é que a posição relativista do professor do Curso Abril é típica de certos setores das ciências humanas e sociais. Para seus cultores, "todas as verdades são relativas". Não percebem que, se assim fosse, não teríamos ciência nem conhecimento universal. Desde quando, por exemplo, a física e a biologia norte-americanas são diferentes da física e da biologia russas ou brasileiras? O conhecimento que elas geram é universal, objetivo - isto é, não-relativo a nenhum país, cultura ou sexo.Sob a bandeira do relativismo "pós-moderno" - avesso à idéia de que existe um conhecimento objetivo, independente das culturas - campeiam, por exemplo, o multiculturalismo, o "desconstrucionismo", os "estudos de gênero" etc. Portanto, não se espante se alguém disser que a física moderna "é sexista, racista, classista e culturalmente repressora" e que deveria ser substituída por uma "ciência feminista", bem longe dos Principia de Newton, que são um verdadeiro "manual do estupro" (Sandra Harding). Nem fique estarrecido se outro afirmar que os cientistas "torturam a natureza" para dela extrair segredos, submetendo a pobre matéria a altas energias nos aceleradores de partículas (Evelyn Fox Keller). Os jovens jornalistas do Curso Abril, certamente, acharão tudo muito normal - com exceção, talvez, de dois ex-alunos meus que andaram por lá. Concluo dizendo que o relativismo radical favorece a picaretagem.P.S.: no mais, a revista é de boa qualidade. Boa sorte aos meninos.

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