
Desenho do Millôr
O Manifesto conta já quase com 50 mil assinaturas, ultrapassando em muito as 4 mil assinaturas necessárias para obrigar legalmente a Assembleia da República a discutir o Manifesto. Note-se que o Presidente da República pode ainda vetar o Acordo Ortográfico, aprovado pela Assembleia da República.
Há dois aspectos diferentes que estão em causa.O primeiro é puramente linguístico: o acordo propõe mudanças ortográficas absurdas, que retiram poder expressivo à língua, como passar a escrever "veem" quer para dizer que as pessoas vêem os lírios do campo quer para dizer que as pessoas vêm juntas à festa. Quem usa a língua profissionalmente como eu para mais do que comprar batatas sabe que a língua portuguesa já está depauperada tal como está, dada a quase ausência de produção científica e cultural sofisticada em português. Este acordo torna a língua ainda mais pobre e ridícula. Não por causa do "ótimo", que não vejo problema algum em passar a escrever sem "p", mas por muitas outras palermices, como a referida.
O segundo é puramente político: o estado não deve legislar sobre a língua, a não ser que tenha razões muito fortes e claras para isso. Essas razões não existem neste caso. É falso que este acordo unifique a língua, que é o argumento usado pelos seus defensores; é falso que tal unificação, a existir, permitiria uma maior expansão internacional da língua; e é falso que tal unificação facilita a elaboração de documentos burocráticos internacionais. Tudo isto são mentiras políticas para justificar o injustificável.
As verdadeiras razões são outras: os linguistas portugueses que elaboraram este acordo sentem-se em dívida para com o Brasil por causa de todas as divergências que tiveram no passado com os colegas brasileiros. O Brasil, por seu lado, encara o Acordo como uma maneira simples de passar a legislar sobre a língua portuguesa tal como esta é usada em África, coisa que não acontecia até agora, porque os países africanos seguiam a norma portuguesa, e não a brasileira. Ou seja, o Brasil está a assumir-se como potência colonizadora face aos países africanos. No meu entender isto é absurdo: os países africanos devem elaborar as suas próprias normas gramaticais e ortográficas e tipográficas, tal como têm o seu próprio léxico.
Isto é exactamente o que acontece com os muitos países que usam a língua inglesa, mas com léxicos, ortografias e normas tipográficas distintas (Inglaterra, EUA, Austrália, África do Sul, etc.). Mas, claro, estamos a falar de países com longas tradições de liberdade, coisa que não acontece no caso do Brasil nem de Portugal, países cujas ditaduras só muito recentemente foram abolidas. E a mentalidade dos linguistas destes países, assim como dos políticos e burocratas, continua ainda firmemente implantada nos tempos da outra senhora.