TUCA PUC 1977
EU QUASE QUE NADA SEI. MAS DESCONFIO DE MUITA COISA. GUIMARÃES ROSA.
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domingo, 28 de outubro de 2007

CPMF


CARLOS HEITOR CONY, Folha de S.Paulo

Uma sugestão cívica
RIO DE JANEIRO - O pessoal do governo e da base aliada encontrou um argumento para justificar a prorrogação da CPMF por mais alguns anos. Descobriu que nenhum país pode dispensar o reforço de 40 bilhões da moeda local em seu orçamento de cada ano. Convenhamos, é dinheiro pra burro, mas ainda pouco para atender às necessidades nem sempre necessárias de um governo caótico no que se refere às aplicações de verbas.
Não se precisa ter memória de elefante para lembrar o drama do ex-ministro Adib Jatene na aprovação de um imposto provisório destinado à área da saúde.
A situação dos hospitais era obscena, crianças nascendo em pias de enfermarias, doentes espalhados pelo chão, falta de material mais urgente, como algodão, esparadrapo e soro.O imposto foi aprovado e o ministro voltou à sua profissão de médico, mas a situação hospitalar continua a mesma.Aqui no Rio, um jornal divulgou nesta semana que, no setor da neurocirurgia, para operações no cérebro, usavam furadeiras, dessas de furar parede para colocar o prego que sustentará um quadro.
Verdade seja dita: já vi furarem o crânio de um paciente com uma dessas furadeiras, mas num filme dos Três Patetas (em sua primeira formação). A vida copia a arte, mas é bom que pare nas furadeiras.Um viajante do século 16 descobriu um reino perto das antigas ilhas Papuas. Para abastecer o tesouro real, o soberano criou o imposto do ar, quem respirasse pagava o tributo, calculado na base de três mil respirações por dia.O nosso espaço aéreo é enorme, como disse aquele marechal quando soube que o avião em que viajava estava a 12 mil metros de altitude: "Eu sabia que o Brasil era grande, mas não sabia que era tão alto!".Temos bastante ar para novo imposto.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Casa-grande e senzala, de Cony




Casa-grande e senzala por Carlos Heitor Cony FSP 7/8/07
RIO DE JANEIRO - Para quem já nasceu cansado, como o cronista, participar do movimento daqueles que se declaram cansados é, além de um esforço suplementar, um esforço inútil. Durante os oitos anos do governo de FHC, quase diariamente eu me declarava cansado -e não adiantou. Antes mesmo da posse de Lula, eu já estava exausto de saber que nada iria mudar, o que acaso mudasse, mudaria para pior.Há espanto entre os entendidos sobre a taxa de aprovação do atual governo, apesar dos escândalos, da corrupção, da inércia, da embromação oficial. Aos poucos, estão brandindo a dicotomia de pobres e miseráveis contra ricos e remediados. A luta de classes é explorada agora pelo próprio presidente, que não entende como os ricos que ele beneficiou estão contra ele. Para os pobres, prometeu o Fome Zero, que fracassou, e o Bolsa Família, que alguns receberam e a maioria ainda espera.
Mas não é por aí que se explica a charada. Quem ganha menos de R$ 1.500, acredito que a maioria dos brasileiros, se identifica com Lula de uma forma que transcende a realidade e o raciocínio. É uma química de vísceras, de tripa, "ele é um dos nossos". Atribui os problemas que todos sofremos à maquinação dos patrões, dos bem nascidos que não deixam Lula fazer o que prometeu e continua prometendo.Também eles estão cansados das maquinações das elites, das classes dominantes que não assinam carteiras de trabalho, demitem para enxugar a folha, exploram o suor escravo, a clássica divisão entre a casa-grande e a senzala.Acontece que estou realmente cansado de tudo isso. Já citei aqui uma estrofe genial do Orestes Barbosa num velho samba que nunca esqueci: "Meu avô morreu na luta, o meu pai, pobre coitado, fatigou-se na labuta, por isso nasci cansado".

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