TUCA PUC 1977
EU QUASE QUE NADA SEI. MAS DESCONFIO DE MUITA COISA. GUIMARÃES ROSA.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Mãe biruta!

Eu gosto dessa foto do passado.
CARTA À ESCOLA EM QUE MINHA FILHA ESTUDOU há uma década!

Agora que minha filha já vai se formar jogo nesse Blog uma carta que escrevi à escola dela num dos anos do nosso passado...

Faz um tempo...


Maringá, 17 de junho de 2001


Cara Professora X:


Sou Marta Bellini, mãe da Julia. Estou escrevendo-lhe, profa X, para dissipar uma dúvida e lhe enviar um texto - este em suas mãos – sobre um “suposto” diálogo entre a senhora e minha filha que me deixou bastante preocupada.


Primeiro: quero lhe dizer que procurei, sim, a coordenadora de 5a a 8a série da escola, mas não para lhe denunciar. Apenas para recordar que havia um acordo entre a escola e as crianças sobre fazer e/ou levar tarefas na terça-feira. Por quê? Porque na segunda-feira, elas têm aulas o dia todo e, no caso da Julia, tem aula de “hand-ball” após a aula à tarde. Ela chega “podre” em casa as 19h00min.

Eu, que também sou professora, dou aulas nas noites de segunda-feira, fico impossibilitada de ajuda-la com o jantar, o banho, as tarefas. Geralmente as segundas são muito difícies para nós aqui em casa.


Com a coordenadora, apenas fui me certificar de que o trabalho sobre o livro da Lygia Bojunga não fosse entregue na segunda, uma vez que a Julia não havia terminado a leitura. Acabei sendo punida pela coordenadora, porque quando fui levar o trabalho da Julia para a senhora, cheguei as 12 horas e 50 minutos da quarta e segundo o telefonema da coordenadora dado a nossa secretária, Meire, era o de que o trabalho não poderia ser entregue à senhora pois estaria viajando e, portanto, haveria problemas com a nota da Júlia.


Esse mesmo recado havia sido deixado na secretaria pelo secretário pedagógico (sic) sr W. quando, as 19h00, passei para pegar a tarefa de matemática da Júlia na escola.


Imagine minha perplexidade! Na quarta à noite, vésperas de um feriado bom para nós que estamos vivendo como seres quase alienados pelo excesso de trabalho, da vida “corrida”, recebemos “recados pedagógicos” contraditórios com a filosofia da escola – Piaget, Paulo Freire .

É de aborrecer qualquer cristão na véspera de Corpus Christi.


Daí, telefonei a você, Y, quebrando um código de ética nosso: não telefonar em casa e/ou fora do horário da escola. Porém, Y, fiquei assustada com a dimensão que uma tarefa de quatro páginas, duas de capa, havia tomado para a coordenadora e a escola.


Está certo que não concordo com as orientações behaviorista da coordenadora, mas a punição não precisava chegar aos ouvidos da Meire, pois ela também ficou preocupada com a situação. Assim, a noite, eu, meu marido, a Meire e a Júlia estávamos mobilizados por uma tarefa de literatura!


Para mim que, na infância, fui educada lendo Clarice Lispector, Cecília Meireles, Drumond e vejo um trabalho de minha filha com duas folhas de capa e duas de conteúdo sem ser aceito por causa de algumas horas ou minutos deixou de ser engraçado e passou a ser mais uma das minhas discordâncias com a prática comportamentalista em contradição com as omportantes postulações filosóficas da escola.


Fiquei intrigada com a história de não aceitar um trabalho que, na verdade, deveria ser entregue após a quarta, creio. Como mãe, como pessoa qualquer, como educadora há muitos anos, apenas vi um grande contra senso pedagógico da escola. Vale mais um trabalho na mão na hora estipulada do que as idéias de nossos filhos sobre sua aprendizagem?


Eu que tenho uma inimizade histórica com os comportamentalistas, filhos do Skinner no Brasil varonil, vi-me punida, uma punição que respinga na minha filha por parte do rígido horário da coordenação. Mais vale vinte minutos da escola do que um livro lido. Sei, professora, que a senhora também obedece as normas da escola, mas eu não poderia apenas conversar com meu terapeuta e meus amigos sobre a minha punição feita pela coordenadora; vejo-me obrigada a falar como mãe que também sofre nas mãos de escolas que pensam mais nas regras do que na aprendizagem.


Nós adoramos literatura aqui em casa. Acompanho as leituras dos livros solicitados pela senhora e pela escola e, embora discorde desse tipo de literatura (sou mais clássica, creio), temos incentivado a literatura dos livros da escola, mas temos oferecido aquilo que achamos de mais sagrado na formação do bom leitor brasileiro: Felicidade clandestina da Clarice, Escolha seu sonho da Cecília, poesias do Drumond, contos do Darcy Ribeiro...


Parece-me que a escola fez a leitura de Bia Bisa, Diário de Biloca e Os colegas para trazer os laços da família, da amizade, da solidariedade, mas se não for dentro das rígidas regras comportamentalistas, a criança não pode aprender. É uma cisão entre a teoria e a ação.


Na teoria eu vejo que lindos são os laços familiares, porém, na prática, eu puno a mãe e a filha porque não trouxeram o trabalho na hora certa; no dia certo, mas não na hora certa.


Foi isso o que ocorreu: a Júlia leu sobre a bisavó, os colegas, a família, mas, a ação a coordenadora tentou colocar a filha contra a mãe quando não recebeu o trabalho deixado na escola após o horário de entrega de manhã. Que maravilhoso senso de relação familiar!


A leitura visa algo, mas algo que não ocorre de fato nas relações de verdade. Prefiro, assim, a Clarice Lispector, que nos fala da nossa solidão, da nossa fragilidade, da nossa inveja... da Cecília que nos fala de emoção, da vida, da alegria...que nos põe em contato com o que é humano, verdadeiramente humano.


Como educadora que tento ser, diria que ler e atuar em sentidos opostos, pode parecer uma esquizofrenia pedagógica. O que leio não aplico!


Segundo: A senhora, professora, disse à Júlia que essa discussão sobre o dia da entrega do trabalho era coisa de adulto.


Isto feriu a nossa sensibilidade, antes de tudo. Podes crer, professora que fiquei, ficamos, eu e o meu marido, muito tristes e indignados, pois se a Júlia não pode falar com vocês que são adultos, comigo que sou adulta, sobre suas angústias e desejos ela vai falar com quem?


Tanto Piaget como Paulo Freire, pressupostos teóricos da escola XXX , anunciam com alegria a república dos pequenos partilhada com os adultos. Eu conheço estes dois grandes pensadores e falo com convicção: Piaget e Freire sempre partilharam de suas falas com os pequenos.


Aqui em casa nós falamos de coisas de adultos sim. Eu falo, por exemplo, que eu gostaria que ela mudasse de escola, falo de minhas angústias de vê-la fazendo inúmeros resumos, falo que não adoto a perspectiva da coordenadora de educação comportamentalista, falo que eu gostaria de transferi-la para outra escola etc. Todavia, aceito as objeções que ela faz a mim. Não concorda com a transferência de escola, gosta dos amigos, gosta da escola etc.


Em casa todos sabemos que quem vai ser expulsa da escola sou eu, todos amigos estão apostando que serei eu a convidada a me retirar; virou piada aqui. Mas eu falo. Falo para minha filha da vida nesse país de exclusão, de como nascemos e como morremos, vamos às manifestações, vamos passear, falo de nossas alegrias e dificuldades, choro diante dela e rio bastante também.


Eu não sei o que é esta “conversa de adultos”, só se for conversa de adultos da escola que são adultos diferentes, acho. Mando-lhe este pequeno texto que li em Leo Buscaglia que me marca profundamente:



Uma criança tem direito a receber mensagens sãs dos adultos. O modo como os pais e professores falam com as crianças lhes ajudará a saberem como devem se sentir quanto a si mesmos. As declarações deles afetam a auto-estima e o autovalor da criança.


Em grande parte, a linguagem deles determina o destino delas. Pais e professores devem eliminar a insanidade tão insidiosamente oculta em sua linguagem as mensagens que dizem para as crianças não confiarem em sua percepção, negar seus sentimentos e duvidar de seu próprio valor.


A conversa dita “normal” (coisa de adultos) que prevalece deixa as crianças alucinadas. Culpar e envergonhar as crianças (como a Júlia ficou e não me contou, pois se sentiu envergonhada pelo dito: “conversa de adultos”), pregar e passar sermões, (como “vocês não limpam a sala”; “vocês colam!!), mandar e tiranizar (vão fazer prova com a 6a e 7a séries), advertir e acusar, ridicularizar e menosprezar (telefonando para a casa do aluno e deixar recado para a empregada de que o trabalho não será aceito,), ameaçar e subornar, diagnosticar e prognosticar – essas técnicas brutalizam, vulgarizam e desumanizam nossas crianças.


A sanidade só aparece quando confiamos na nossa própria realidade íntima e essa confiança só se aprende pelo processo da verdadeira comunicação. Esse trecho do livro Vivendo, amando e aprendendo do Leo Buscaglia (p.159), me deixa mais convicta de que tenho que falar, escrever, contestar sem medo de sermos diferentes, “destemperados, loucos” etc. Professora, eu não sei o que foi dito à senhora, mas eu não a denunciei. Apenas lembrei que terça é um dia sem tarefa. Não sei também porque eu, minha empregada e meu marido fomos interpelados pela coordenadora para trazer o trabalho para casa, não sei qual a importância pedagógica de deixar ou não o trabalho em suas mãos, não sei qual a importância na aprendizagem da Júlia em entregar na quarta, não sei qual a importância da nota, se vai ser cortada ou não. Pareceu-me que fomos, eu, minha filha, meu marido e até a empregada punidos por algo que só pode ser mesmo uma conversa de adultos da qual nós não participamos.


Não estou preocupada com a nota, já falei com a Júlia que isso não conta na vida dela, mas conta, sim, as marcas da intransigência da escola e/ou da coordenadora. O que sei que é este episódio fortalece minhas convicções pedagógicas. Espero que a senhora compreenda pelos menos as razões pedagógicas e o respeito que espero que minha filha tenha com os professores e destes com ela e com a família. Eu não sou uma mãe que deixa a escola educar sozinha, partilho com minha filha minha responsabilidade de família. Eu acredito que a escola não deve decidir por mim na educação da minha filha. Quando lemos Bia Bisa aqui, pude trazer à Júlia a importante bisavó que eu tive:

ela é um dos meus retratos preferidos na arte de pensar a criação com os filhos, a gente erra dizia ela, mas também aprende.


Atenciosamente

3 comentários:

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Depois dessa só com figa na mão e rogando:

– Valei-m' meu São Serapião! Profa que não tem gato, então que cace com o Cão!

isabela disse...

Ainda não tenho filhos, mas, questões como estas já me preocupam...
As escolas tem "castrado" nossas criaças. Tiram-lhes todo e qualquer prazer de apre(e)nder. Imagina! Minha sobrinha tem 2 anos e a escola manda tarefa para casa!

Não Marta, nem vc nem eu somos birutas! Mas as crianças vão ficar...

cremilda disse...

O problema da lição de casa na escola pública é literalmente para os pais ensinarem o que a professora não ensina na sala de aula.
Normalmente em escola pública tida como escola de excelência, não ensina, passa um monte de lição de casa e provas dificílimas e fica com fama de escola "boa" escola "forte"

Braziu!

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