TUCA PUC 1977
EU QUASE QUE NADA SEI. MAS DESCONFIO DE MUITA COISA. GUIMARÃES ROSA.

domingo, 30 de setembro de 2007

A grande família


"Meu tempo é curto", disse Mangabeira a amigos em junho

FÁBIO VICTORDA SUCURSAL DE BRASÍLIA
No final de agosto, Roberto Mangabeira Unger reuniu sua equipe da SPLP (Secretaria de Planejamento de Longo Prazo) num hotel em Pirenópolis, cidade histórica do interior de Goiás. Pouco mais de 20 servidores se dispuseram em torno de uma mesa redonda e gastaram um fim de semana apresentando propostas para o futuro do Brasil e ouvindo diagnósticos e preceitos do chefe. A dinâmica de grupo era um reflexo da pressa de Mangabeira.
Poucos dias após assumir o cargo, em 19 de junho, confidenciou a amigos um temor: "Meu tempo político é curto, tenho que apresentar resultados rapidamente". Tachado de oportunista por se juntar a um governo que dois anos antes chamara de "o mais corrupto da história", ele antevia mais pressão pela frente.Na quinta-feira passada, ainda que por vias tortas, a previsão se concretizou, quando a bancada do PMDB no Senado traiu a coalizão governista que integra e rejeitou a medida provisória que criava um ministério para o filósofo do PRB.Se não conseguiu tornar públicos projetos de longo prazo, a gestão-relâmpago de Mangabeira na secretaria foi suficiente para que ele começasse a formatar uma equipe e um modelo de trabalho singulares na Esplanada dos Ministérios.
Ele próprio dono de carreira prodigiosa -começou a lecionar na Universidade Harvard, nos EUA, aos 24 anos e virou professor titular da instituição aos 29-, cercou-se de jovens no gabinete. Dos seus sete auxiliares diretos, cinco têm até 35 anos - sendo uma com 26, um com 28 e um com 29.
Reverência
Outro traço que salta aos olhos na equipe é a reverência. Dois assessores especiais (salário bruto de R$ 8.400), Daniel Vargas, 28, e Sérgio Gusmão, 29, foram alunos de direito de Mangabeira na Universidade Harvard (EUA).
Um terceiro, Carlos Sávio Gomes Teixeira, 35, exaltou a obra do chefe em sua dissertação de mestrado em ciência política na USP, sob o título: "A esperança e a grandeza como forma de transformação: o pensamento político de Roberto Mangabeira Unger e o Brasil".O orientador da tese, concluída em 2003, foi o hoje ministro da Educação Fernando Haddad, que também o orienta no doutorado na USP, igualmente sobre a obra do filósofo. Teixeira compara Mangabeira a Karl Marx. "O escopo de seus projetos teórico e político é grandioso. Considero não ser insensato compará-lo, em termos de abrangência e objetivos, àquele empreendido por Karl Marx no século 19", escreveu o pupilo em um artigo publicado em 2005.
A pouca idade e as mesuras dos novos colegas, assim como o enigma de um intelectual vindo da academia de outro país, provocaram estranheza nos remanescentes do órgão anterior para planejamento de longo prazo, o NAE (Núcleo de Estudos Estratégicos), que permaneceram na estrutura.Restaram 22, que se somaram aos 22 chegados pós-Mangabeira (dos 79 que a SPLP foi autorizada a contratar). O grupo se divide em dois prédios em Brasília, e ambas as estruturas são precárias, poucas e pequenas salas para muita gente.Na equipe que ficou há alguns militares, debruçados especialmente sobre o Plano de Defesa Nacional, uma das primeiras incumbências da SPLP, em parceria com o Ministério da Defesa.
O ex-chefe do NAE era o coronel Oswaldo Oliva. Irmão do senador Aloizio Mercadante (PT-SP), ele deixou o órgão com a chegada de Mangabeira, sob a alegação de que o "padrão americano" de planejamento que o ministro pretendia implantar era incompatível com o adotado até então, balizado pelo modelo europeu.
Nos últimos três anos, o NAE preparou o programa "Brasil 3 Tempos", com metas e planos para 2007, 2015 (Objetivos do Milênio da ONU) e 2022 (bicentenário da Independência), que Oliva finaliza agora como assessor especial da Presidência. No topo da lista de prioridades está a melhoria e a universalização da educação básica. Este é um dos seis eixos estudados pela equipe de Mangabeira. Os outros são: Ciência & Tecnologia, Defesa, Geração de Emprego, Política Industrial de Inclusão e Amazônia/Mudanças Climáticas/ Biocombustíveis/Energia.
Na reunião em Pirenópolis, foram apresentados pela equipe propostas para as seis diretrizes. Mangabeira teve o papel de provocador, ora contestando, ora acrescentando dados.No final de tudo, fez uma exposição sobre os eixos, com ênfase a valorização do trabalho. Afirmou ser vital repensar as relações do Estado com o trabalhador informal e apontar saídas para incluí-lo no mercado. Cobrou da equipe novos estudos até novembro, quando pretende formatá-los e apresentar ao presidente Lula.Mangabeira não quer dar entrevistas por ora. Desde a posse, só falou à revista Piauí: "Descobri que, para ajudar a transformar o Brasil, em primeiro lugar tenho que transformar a mim mesmo. (...) Sou um homem sem charme num país de charmosos. Isso é uma séria complicação.(...) Eu preciso aprender a ter charme. (...) É um processo lento. Mas no dia em que eu conseguir dar um tapinha nas costas de alguém, terei promovido uma revolução".
Aos 60 anos, casado, quatro filhos, deixou a família nos EUA e mora só em Brasília. Chega cedo e sai tarde do ministério. No quarto de hotel onde vive, ouve óperas e música clássica num volume que invade aposentos vizinhos.No prédio do BNDES e do Ipea onde está seu gabinete, só entra pelo setor reservado às autoridades, ao contrário do presidente do Ipea, Márcio Pochmann, que usa elevador e entrada do público.
Nos dias que se seguiram à rasteira do PMDB, Mangabeira não foi visto por jornalistas que foram ao prédio. O presidente Lula quer manter o colaborador no governo, mas ainda não se sabe com qual estrutura e arranjo jurídico.

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