TUCA PUC 1977
EU QUASE QUE NADA SEI. MAS DESCONFIO DE MUITA COISA. GUIMARÃES ROSA.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Imagem: cap-tirado do Blog de Yuri Vieira
Do Blog de Roberto Romano (Enviado por Paulo Araújo)...
Antonio Araujo

« A origem Singer novamente »
Entrevista de Singer a Salon
Por antonioaraujo
No fim da vida Isaac Bashevis Singer costumava escrever pela manhã. À tarde, ele caminhava pela Upper Broadway. Parava na avenida para comer uma comida vegetariana e alimentar os pássaros. Carregava talão de cheques e milhares de dólares em seus bolsos, no caso de precisar fugir de Nova Iorque às pressas. Ele acredita que “isto” poderia acontecer novamente.

Nascido de uma linhagem de grandes rabinos considerados tão santos que faziam milagres, o jovem do shtetl de Radzymin, Polônia, se rebelou contra a lei Judaica. Ele idolatrava seu irmão mais velho, o escritor secular de iídiche Israel Joshua Singer, e seguiu seu caminho, primeiro ao clube de escritores de Varsóvia, e depois finalmente à América. Adotou o nome hebraico de sua mãe, Bathsheba, e o tornou seu nome de escritor em iídiche, Bashevis. Fugindo de Hitler, Singer chegou à América em 1935 sem um centavo e sabendo somente uma única frase em inglês.

Singer dizia que servia a dois ídolos – o ídolo da literatura e o ídolo do amor. Mas, dizia ele, “a necessidade de crer em Deus é mais forte que a necessidade de sexo”.

Críticos chamam-no de “Scheherazade iídiche”. Ele publicava uma ou duas estórias, ou capítulos, por semana no “The Forward”, um jornal iídiche, por mais de 40 anos. Publicou 45 volumes de contos, novelas, fábulas para crianças, peças e memórias, traduzidos. Em 1978 a Academia Sueca o premiou com o Nobel de literatura.

Singer escreveu sobre cabalistas e hassidim de vilas camponesas em “Gimpel, o tolo” e “Satã em Gorai”, sobre escritores, criminosos, comunistas, acadêmicos e místicos de Varsóvia em “Escória” e “O Spinoza da rua do Mercado”, e sobre sobreviventes de Nova Iorque e Telavive em “Inimigos: uma estória de amor” e o recém traduzido “Sombras sobre o rio Hudson”

Em sua última entrevista, em uma invernal sexta-feira de 1987, Singer sentou-se em seu apartamento da Broadway emoldurado pela luz cinzenta entre duas janelas, o sol se pondo sobre o rio Hudson, o Sabath se aproximando.

Os dilemas árduos da vida inspiraram sua carreira. Como coisas tão terríveis acontecem? As tragédias são desígnios de Deus? Fazemos o mal por livre vontade? Somos possuídos por demônios?

“Claro que eu acredito em livre-arbítrio”, diz Isaac Bashevis Singer; “não tenho escolha”.

A saúde de Singer desmoronou logo após aquela tarde. Ele se sentava à piscina na Flórida com olhar perdido. Ele chorava por seu falecido irmão. Não reconhecia familiares ou amigos. Mas tradutores continuam a levar seus trabalhos ao mercado editorial após Bashevis não poder mais escrever. Aliás, mesmo depois de sua morte.

“Sombras sobre o rio Hudson”, sua quarta novela póstuma, traça dois anos nas vidas de sobreviventes em busca de sentido neste mundo ou no além, no dinheiro, amor, judaísmo, ciência ou no sobrenatural.

Em suas estórias e entrevistas, você mostra que acredita em livre-arbítrio no homem e na mulher, mas…

Acredito em livre-arbítrio de homens e mulheres. Aliás, acredito até que há um elevado intelecto ou livre-arbítrio nos animais.

E você ainda é conhecido por acreditar em espíritos e demônios. Em sua obra, imps destroem as pessoas utilizando suas paixões contra elas mesmas. Eles usam sexo, amor, dinheiro e até – em “Uma coroa de penas” – a paixão pelo conhecimento de Deus.

Eu diria que acredito em livre-arbítrio e acredito em destino ao mesmo tempo. Parece contraditório mas não é. Em outras palavras, todas as nossas paixões e tudo o mais não foram criados por nós. Foram criados por poderes superiores. Ao mesmo tempo nos são dadas escolhas para fazer. Temos de fazer estas escolhas entre o bem e o mal. Senão, não poderíamos existir.

Como distinguimos o que é bom do que é mau?

Não sabemos. Porque não estou certo de que Deus tenha se revelado a um homem ou outro e dito exatamente o que ele considera bom e o que ele considera mau. Entretanto, todos sentimos que aquilo que destrói a sociedade, que destrói a civilização, que faz nossas vidas miseráveis, é ruim, e aquilo que ajuda as pessoas a viver e a progredir é bom. Eu sei que isto não é muito objetivo, mas não temos outra maneira de medir, ou outra informação, então confiamos nisto.

Você disse em uma entrevista que o livre-arbítrio é um dos maiores presentes de Deus a nós, mas que não o usamos. Como deveríamos usá-lo?

Vou te dizer. Deveríamos ser capazes de tomar decisões e mantê-las. E cumpri-las. Não é suficiente tomar decisões, o mais importante é cumpri-las. Os dez mandamentos são um tipo de decisão, que Moisés e outros judeus assumiram. Não a cumprimos até o fim. Quando eles chegaram a Israel, várias vezes fizeram o oposto. Os dez mandamentos são um bom exemplo de quais decisões deveríamos tomar, se fôssemos realmente cumpri-las.

Eu li que você faz pequenos experimentos a respeito de sua própria capacidade de decisão: hoje sentarei e trabalharei somente por três horas. Ou não perderei tempo lendo o jornal de ontem, ou olhando pela janela por horas, ou falando no telefone.

Decisões são muito importantes. Se você pode cumpri-las, você tem mais poder. Se não, tudo o que posso dizer é: tente novamente. Não podemos relaxar nunca. Não podemos nunca deixar de continuar tentando. Devemos tentar de novo, de novo e de novo. O próprio fato de que você está aqui, de que está falando comigo, de que é um jornalista, de que você tem um emprego, significa que você cumpriu certas decisões. Se você pudesse deixar de lado, estaria em um asilo, ou Deus sabe onde. Isto é verdade quanto a você ou a quaisquer pessoas. Se não mantivéssemos nossas decisões, se não pudéssemos cumpri-las, estaríamos perdidos.

Você disse que a literatura deve em primeiro lugar entreter – do contrário, quem a leria?

Claro. Os escritores que choram nos ombros dos leitores e não fazem nada além disto, não informam o suficiente e não entretêm o suficiente. Portanto, por causa disso, todos os seus experimentos se tornam sem valor.

Mas deixe-me perguntar: você já disse que a literatura tem um valor pragmático. Qual é o valor pragmático da literatura?

Vou dizer. A informação é pragmática. O fato mesmo de que quando você lê uma novela, você aprende a respeito de um país, ou a respeito de um ambiente, já fez algo por sua educação. E se ao mesmo tempo seu espírito se entretém, o escritor chegou a seu objetivo.

Mas este valor pragmático que você menciona é muito mais mundano do que eu esperava. Não há esperança em seu coração de que seu trabalho abrirá nossos olhos de alguma forma, ou nossos corações?

Pessoalmente, quando sento para escrever, não digo que vou escrever algo que abrirá os corações ou mentes e fazer melhores seres humanos. Mas eu sei a partir de centenas de cartas e entrevistas e encontros que meu trabalho fez algo à vida das pessoas. Porque todas essas cartas de amor que eu recebo têm algum significado. Não quero dizer amor sexual. Elas dizem que foi bom eu ganhar o Nobel, que eu deveria ter recebido mais prêmios e coisas. Estas pessoas são tão gratas, que vejo que fiz algo por elas. Enquanto não faço com intenção, há alguma intenção oculta. Porque acredito em algo mais que não mencionamos até o momento. Que Deus está por trás de tudo.

Deus está por trás de tudo?

Ele está por trás de tudo. Mesmo quando fazemos algo contra Ele, Ele está lá. Não importa o quê. Como um pai que vê seus filhos fazendo coisas idiotas, ruins. Ele está bravo com eles, ele os pune. Ao mesmo tempo, são seus filhos. Acredito neste tipo de poder divino. Então nada está completamente perdido porque o Pai está olhando seus filhos, não importa o que estejam fazendo.

Você diz que se fosse para inventar uma religião, inventaria uma religião de protesto.

Vou explicar o que eu quis dizer: porque a natureza humana e a natureza em geral não indicam, não nos revelam claramente ou abstratamente o que devemos fazer, o que fazemos é só chute. Somos obrigados a chutar quando realmente não podemos chutar. Aliás, muita da nossa moralidade é fazer coisas contra a natureza. A natureza diz que se vires uma mulher bonita, jogue-a no chão e a estupre. Isto pode ser a natureza humana. Mas algo maior que isto nos diz que se fizer isto, você destrói a sociedade, destrói a si mesmo, seus filhos e muitas gerações adiante.

Por isto, de certa forma, não podemos agradecer a Deus a todo momento, louvá-lo e dizer “Você é bom”. Nós temos este sentimento de revolta. Por que ele criou esse imenso ordálio para sofrermos? Acredito que alguém pode admirar Deus, admirar sua sabedoria, e ao mesmo tempo protestar contra sua neutralidade. Não acho que a religião seja contra isto. Os grandes líderes religiosos protestavam cada um à sua maneira. O livro de Jó é um livro de protesto. E assim são muitos grandes livros e grandes revelações.

Notei que você diz “O homem nasceu para sofrer; dê a ele meia chance e ele espatifará seus miolos nas pedras”.

É claro.

Por que escolhemos a miséria?

Porque em um dado momento amamos; em outro momento odiamos. Em um momento você quer ajudar; em outro você quer destruir. Nós somos amaldiçoados por emoções que criam desordem em nossas vidas. Por causa destas emoções, não há nunca descanso. Para servir à humanidade, à civilização, você deve ser mais forte que suas emoções. E esta é uma luta tão árdua e terrível que nunca estamos livres dela. Mas devemos continuar a lutar.

Não acha que nos arriscamos a perder o amor romântico se dominamos nossas emoções?

Arriscamo-nos a perder tudo. Arriscamo-nos a perder nosso amor, nossa cama, nossa casa, nossa comida. A vida em si é um grande risco do começo ao fim, e talvez o livre-arbítrio venha em nosso socorro.

Por que vejo pouca menção ao Holocausto em sua obra?

Sim, eu o menciono várias vezes em meu livro “Inimigos: uma estória de amor”. O único porém é que eu acredito que a história humana inteira é um grande Holocausto. Não somente a história judaica. Podemos chamar a história humana de história do holocausto humano. Se russos são mortos, ou alemães, ou judeus ou árabes, ou outros povos, é um único imenso Holocausto. Isto é o que fazemos da vida porque não escolhemos nada melhor e não mantemos nossas promessas. Não agimos de acordo com nossas escolhas.

Nós não agimos de acordo com nossa vontade?

Nós não escolhemos bem, e quando escolhemos bem, não agimos de acordo com nossas escolhas.

SALON April 28, 1998

Essa entrada foi publicada em agosto 20, 2010 às 1:07 pm e arquivada em Literatura. Você pode acompanhar qualquer resposta para esta entrada através do feed RSS 2.0. Respostas estão atualmente fechadas, mas você pode responder do seu próprio site.

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