TUCA PUC 1977
EU QUASE QUE NADA SEI. MAS DESCONFIO DE MUITA COISA. GUIMARÃES ROSA.

domingo, 12 de agosto de 2007

Direita, eu? E se fosse?


Do Blog Leite de Pato
ESSA SUSPEITA CONVERSA DE GOLPISMO
João Ubaldo Ribeiro, O Globo, 12 de agosto de 2007

Ultimamente tenho ouvido e lido muito sobre golpismo. Ainda não consegui chegar a um denominador comum entre as várias manifestações de golpismo, mas parece que a tendência do governo e de seus partidários é considerar golpismo qualquer crítica ou manifestação contrária ao governo ou aos governantes.
Deve-se, claro, excetuar liminarmente essa irresponsabilidade de “Fora, Lula”. Se bem que, há alguns anos, muitos lulistas tivessem gritado “Fora, FHC”, isso não justifica absolutamente o “Fora, Lula”. “Fora Lula”, sim, é golpismo.
Ele, assim como o dr. Fernando Henrique antes, é o presidente constitucionalmente eleito e legítimo, não tem nada desse atraso burro de considerar uma boa idéia tirá-lo da presidência na marra. Mas, na verdade, eu acho que, se alguém gostaria mesmo de tirá-lo do poder na marra, é uma minoria microscópica. E quem fala mais nisso não é nem essa minoria, é o governo.
Está virando ladainha. Não só existem esquemas golpistas e armações florentinas na grande imprensa (fico sempre chateado porque nunca me dão ousadia de me incluir nessas armações, é uma vergonha, acho que já me dão por favas contadas, inocente útil da pior categoria), como a Zelite abomina o presidente e está agora querendo se livrar dele.Há uma certa confusão nesse negócio todo, e talvez o presidente precise situar as coisas numa perspectiva mais clara. Sob quase todos os aspectos, ele mesmo já pertence à Zelite faz muito tempo. Na Zelite política, ocupa o topo do Poder Executivo, que o povo brasileiro se acostumou a ver como o mandachuva geral. Na Zelite econômica e social, de acordo com os padrões do governo, ganha e vive como milionário, num mar de mordomias. Freqüenta a melhor sociedade, entre outros presidentes, reis, rainhas e celebridades. Somente a Zelite pode manter filhos estudando no exterior, como ele. A Zelite dirigente, notadamente na área econômica, não quer saber de outro presidente.Isto tudo me parece fora de questão.
Creio que a confusão se dá porque o presidente sente que, apesar de estar na Zelite, há uma área em que será sempre forasteiro, há preconceitos que sempre enfrentará. Com certeza é verdade.
O presidente, em São Paulo, convive bem com a Zelite e, de certa forma, pertence a ela. Mas aristocrata, paulista quatrocentão, claro que ele nunca vai ser — nem ele, nem eu, aliás, nem a maioria de nós. Entrar mesmo, ele não entra — nem eu etc. etc. Situação talvez chata para a mente um tantinho megalômana do maior presidente que este país já viu. Povo ele decididamente não é mais, há muito tempo. E grã-fino, grã-fino no duro mesmo, nunca vai ser, o alpinismo social é traiçoeiro. Acresça-se a isso a vaidade do presidente.Ninguém é bobo e, apesar dos esforços que ele fez para aparentar tirar de letra as vaias, todo mundo notou que ficou bastante mordido e pensa muito no assunto.
Para quem se tem em altíssima conta e, ao mesmo tempo, parece padecer de fragilidades emocionais, carências e recalques, além de acreditar nas próprias patranhas, é uma situação muito dura. Piorada agora porque, depois que ele passou recibo das vaias, deverá ser vaiado em qualquer lugar em que aparecer. Multidão se comporta de maneiras radicais, e a tentação perversa de puxar uma vaia, quando ela vai com certeza afetar o equilíbrio do vaiado, é irresistível para muita gente. É mais ou menos como apelido: se o sujeito não liga, o apelido pode não colar; mas, se se aborrece, reclama ou xinga, aí é que pega mesmo.E, aí, como reage ele? Reage quase infantilmente, quase na base do “ah é, ah é, é guerra, é?” Quer saber quem bota mais gente na rua do que ele.
O que é isso? É para promover um confronto? A presidência irá convocar seus partidários para embates com a — meu Deus de céu — Zelite, nas avenidas e praças públicas? Além disso, essa é uma manobra bastante arriscada, que já levou muita gente boa a desenganos, em nossa história republicana. Melhor esquecer a malcriadez e se acostumar a que, apesar de ele ser o Maior do Mundo, há gente que não gosta ou discorda dele. Discordar, aliás, nunca foi golpismo. Também já está enchendo o saco de quem quer ter suas opiniões e pensar como acha que deve pensar a noção de que, mesmo se discordando do governo ou do presidente, deve-se calar a boca. Falar contra ele seria se aliar a tudo de ruim que existe contra ele.
O que é isso, outra vez? E tudo de ruim que está com ele? E tudo de ruim com que ele está? Quem bradava contra o pensamento único na época de FHC agora é a favor? É ame-o ou deixe-o? É “Lula certo ou errado”? Por que se é obrigado a silenciar diante de um governante que rompeu tão radicalmente com seu passado, e, em última análise, serviu-se do ex-grande partido que criou — e ainda se servirá, se precisar, embora já tenha sido flagrado dando a impressão de que considerava o PT um estorvo às vezes bem chatinho? E por que nós nos devemos omitir, para não sermos reacionários? Primeiro, ser reacionário é um direito. E, mesmo que não fosse, esse governo é que é reacionário, a começar pela sua “política social” assistencialista, legado monstruoso que perdurará por gerações, com conseqüências imprevisíveis. Não há o que mostrar nesse governo que não possa ser considerado reacionário ou conservador, das práticas políticas à condução das grandes questões nacionais.Não tem golpismo. Tem é o exercício do direito de crítica, que não foi dado por governo algum, nem é generosidade de ninguém, é direito inalienável do cidadão, e quem quer cerceá-lo de uma forma ou de outra, até mesmo por mera pressão social, é que é golpista ou pior.
Sem ninguém para falar contra atos seus, que seria o presidente senão um ditador? Chamar os críticos de golpistas dá direito a perguntar: é ditadura o que Lula e os lulistas querem?
Comentário: virou moda chamar qualquer crítico de direita. Na Universidade onde trabalho um colega foi chamado por outro (que foi nomeado diretor num ato ilícito, produto de loteamento eleitoral) de direita porque foi questionado o método de se tornar diretor ...

Um comentário:

Lino disse...

Marta:
O Lula, seu Governo e seus seguidores estão praticando, com todo gosto, o velho dito: Façam o que digo, não o que faço.
Se pudessem, a primeira ação de todos eles seria calar as críticas.

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